de Tamanduá para a fazenda da Cachoeirinha de propriedade de João Quintino de Oliveira, Capitão Mor da Vila na época quando por aqui passou August de Saint Hilaire, frade francês e cientista botânico, que a citou em seus escritos.
Segundo a tradição oral, nesta época também andava pelos caminhos da picada, nos anos da Inconfidência e também da elevação à vila um alferes da Milícia de São José D´El Rey, Tiradentes de agora, chamado Egas Matoso, procurando um inconfidente chamado Carlos de Toledo Pizza, mais conhecido como Padre Toledo, que aqui tinha vindo em outras épocas para tomar posse da Paróquia e foi impedido pela população que tinha sua preferência pelo Padre Gaspar Alves Gondim
Padre Toledo, o inconfidente procurado, aqui não foi encontrado, em compensação ficou um “ causo” engraçado de se lê:
Crônica
BOA VIAGEM
Irene de Castro Siqueira
(Argumento premiado pela Rádio Ministério da Educação, Rio de Janeiro, Setembro de 1951 )
Existe em minha terra, velha terra povoada de lendas e histórias, uma passagem estreita e profunda entre dois barrancos, que o povo chama a cava da “ Boa Viagem”.Por que o nome “Boa viagem” quando a passagem é estreita e escura, no solo e nos lados apontam pedras, tudo enfim que possa dificultar a marcha do cavaleiro? -Os homens se benzem assustados ao penetrar nela, as mulheres murmuram preces para o descanso eterno daquelas almas das quais as cruzes ali presentes mantêm viva a presença.O eco das passadas dos cavalos ressoa lugubremente, lembra gemidos.Tal denominação nos encabulava e uma vez uma velha negra, remexendo no fundo de sua memória já cansada de tanto ver, de tanto ouvir, deu-nos a chave do enigma.Foi há muito tempo...A pretensiosa cidadezinha de hoje era a Picada de CAMPO GRANDE da Conquista de Goiás*.A descoberta de ouro em Goiás agitava os aventureiros. A Picada via passar aqueles homens que iam em busca do ouro e que muitas vezes voltavam com ele.A entrada daquele povoado humilde, destacava-se uma casa, a casa de “ seu” Salustiano.Ali os viajantes pousavam. “Seu “ Salustiano era a própria gentileza; recebia-os amavelmente; peritas escravas tornavam sua cozinha afamada e a bela Dona Otília era a hospedeira perfeita.Conseguia dar ao seu recato de mineira, tal graça e tal encanto, que sos olhos dos viajantes, cansados de contemplar serras e montes, cansados de tanto interrogar o horizonte sobre a distância que os separava do alvo, esses olhos descasavam ao ver-lhe a figura gentil.À noite, na varanda, `a luz das estrelas, os viajantes conversavam com o dono da casa. O ambiente era propício a confidências.Os forasteiros se deleitavam ao encontrar naquelas brenhas, um espírito alegre e compreensivo.E falavam, falavam...Às vezes eram apenas planos, planos para a conquista da riqueza, planos esboçados ou já frustrados, mas de outras, eram as vozes alegres daqueles que levavam consigo, como mensageiros ou proprietários, ouro, muito ouro.Um vinho cálido lhes desatrelava a língua, e “seu” Salustiano, maneirosamente, os olhos brilhando no escuro, indagava tudo: o que levavam, quanto levavam, se não tinham medo dos aventureiros e ladrões que infestavam aquelas paragens.E os hóspedes amáveis se abriam.Finalmente o dono da casa os aconselhava que fossem deitar, que era tarde, que precisavam madrugar..
Os viajantes se deitavam em leitos macios, cheirando a alfazema, e, entre dois bocejos, elogiavam a bondade de “seu” Salú, a beleza de Dona Otília.Na cozinha, dois escravos esperavam o patrão.As informações sobre o ouro que levavam eram cuidadosamente transmitidas aos pretos, e lá saiam eles dentro da noite, e iam para a emboscada, à entrada da estreita passagem.Madrugada escura, levantava-se Dona Otília: era-lhes servido um gostoso café e “seu” Salú acompanhava-os até a porteira , desejando-lhes “ uma boa viagem”E assim caminhavam para a morte, levando com eles os votos amáveis de “seu” Salú, que lhes desejava “uma boa viagem”.Era a última voz humana que ouviam...O compasso dos cascos dos cavalos repetiam “boa viagem”, “Boa Viagem”'...
Obs. Material coletado por Carlos Gondim , no jornal O ITAPECERICA, não sendo possível determinas a data de publicação. A cronista relata-nos a origem do toponímico “ BOA VIAGEM “, que identifica um dos conhecidos bairros da cidade de Itapecerica, separado do núcleo urbano pela serra da Andrezza, cujo acesso, ainda hoje se faz através da não menos conhecida “ Cava da Boa Viagem.
*Acreditamos que houve uma inversão do nome que possivelmente o local possuía na época em que transcorre a narrativa. O mais provável é que seja: Conquista do Campo Grande da Picada de Goiás . Era este um nome regional, referindo-se “ às Terras da Conquista” de Lourenço Castanho Taques, quando esteve com uma Bandeira nesta região, combatendo os índios Cataguás, ou “ catú- auá, por volta de 1674. A partir de 1736, ao toponímico “ Conquista do Campo Grande” acrescentou-se “ Picada de Goiás”, já que a “ Picada” ou caminho novo de Goiás, ligando São João D´el Rey aos sertões do oeste , além São Francisco, cruzava as “ Terras da Conquista”, passando por Tamanduá. |