Artigos de DOM GIL MOREIRA |
APROXIMAM-SE AS ELEIÇÕES
Mais uma vez, somos convocados pela Pátria para o dever cívico das eleições municipais que acontecerão em outubro próximo. Como cristãos, cumpriremos o dever de participar deste momento de cidadania, visando o bem comum, cooperando para a construção de uma sociedade justa, fraterna, solidária e pacífica, voltada para a defesa da pessoa humana, imagem e semelhança de Deus. A Igreja cumpre a sua missão de iluminar as consciências dos católicos sobre a responsabilidade do voto e se dirige fraternalmente a todas as demais pessoas, a partir da Palavra de Deus, a fim de que sejam eleitos candidatos honestos e capazes de administrar os municípios, seja no poder executivo, seja no legislativo. A Igreja Católica vem, na sua história bi-milenar, construindo sua doutrina social, pela qual ela considera a política, quando bem praticada, uma forma elevada do exercício da caridade.
João Paulo II, na exortação Christifidelis Laici, ensina que “todos e cada um têm o direito e o dever de participar na política, embora em diversas complementaridades de formas, níveis, funções e responsabilidades”. Bento XVI, em sua encíclica Deus Caritas Est, ensina que “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política nem deve pôr-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta política”.
Em vários outros documentos, a Igreja, seja universalmente, seja no Brasil, através da CNBB, dá informações seguras sobre o proceder dos fiéis no exercício da cidadania.
É bom ter clareza e muita consciência no momento de escolher em quem votar . Também é necessário analisar os partidos , para saber se apresentam programas com aspectos que contradizem a fé e a moral cristãs e põem em risco a democracia , a liberdade e a dignidade da pessoa humana .
O Documento de Aparecida, de maio de 2007, diz no número 74: Constatamos um certo progresso democrático que se demonstra em diversos processos eleitorais. No entanto, vemos com preocupação o acelerado avanço de diversas formas de regressão autoritária por via democrática que, em certas ocasiões, resultam em regimes de corte neo-populista. Isto indica que não basta uma democracia puramente formal, fundada em procedimentos eleitorais honestos, mas que é necessário uma democracia participativa e baseada na promoção e respeito dos direitos humanos. Uma democracia sem valores como os mencionados torna-se facilmente uma ditadura e termina traindo o próprio povo.
A CNBB, em recente Declaração , afirma: “O voto depositado na urna exige dos eleitores e dos eleitos um compromisso com a consolidação da democracia. Os eleitos são chamados a concretizar a mística do serviço, na esperança e na perseverança, construindo um mandato coletivo, em busca do bem comum, com a garantia de continuar os projetos positivos da administração anterior. Os eleitores são convidados a acompanhar os eleitos no cumprimento de sua missão e a valorizar os que atuam com critérios éticos”.
Quanto à corrupção política, a CNBB alerta: “A cultura da corrupção perpassa as malhas da nossa história política. A corrupção pessoal e estrutural convive com o atual sistema político brasileiro e vem associada à estrutura econômica que acentua e legitima as desigualdades. É relevante e urgente aplicar com empenho a Lei 9.840, em decorrência da qual já foram cassadas em torno de 600 pessoas. Esta lei ajuda a assegurar a lisura das eleições na campanha eleitoral. Para tanto, queremos valorizar os Comitês contra a corrupção eleitoral”.
Um dos pontos decisivos para os brasileiros, no momento de escolher um candidato que mereça o seu voto nas próximas eleições, será, sem dúvida, a questão em torno do valor da vida humana. Em nossa consciência cristã, somente podem receber apoio os candidatos defensores da vida, da família e da dignidade da pessoa humana. Certamente há muitos outros aspectos que fazem parte da análise que devemos fazer ao selecionar nossos candidatos, mas há certos princípios de que a coerência da fé não nos permite ceder. Entre estes está o princípio da dignidade da vida humana
Quanto à questão da confissão religiosa, como já afirmamos em outra ocasião, é preciso observar que não basta o candidato dizer que é católico para receber o voto. É preciso verificar sua vida no dia a dia, ver sua vivência de fé nos tempos não eleitorais e quais são as suas posições sobre a ética e amoral cristã. Se o candidato é de outra igreja, ou outra religião, é preciso estar atento para saber quais são suas intenções. Se há indícios de que ele, sendo eleito, vá trabalhar contra a Fé Católica, em consciência, não posso conceder-lhe o voto.
Deus nos ilumine a todos para este momento de importância na vida comunitária dos nossos municípios.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí-SP
Jundiaí, 30 de agosto de 2008 |
A PADROEIRA
Ocupa lugar privilegiado no calendário da cidade e da Diocese de Jundiaí a festa de Nossa Senhora do Desterro , a Padroeira .
Costume antigo entre os cristãos é este de escolher um Patrono ( ou Patrona ) para as suas comunidades , como intercessor diante de Deus , como protetor nos momentos difíceis, como protótipo para a vida .
Uma das passagens bíblicas mais claras sobre a intercessão encontra-se no evangelho de João, na narrativa das bodas de Caná, onde Maria, vendo os apertos da família anfitriã, dirige-se prestimosa a Jesus que atende de imediato a seu pedido , transformando cerc a de 600 litros de água em vinho . (cf.Jo.2,1-12)
No caso de Jundiaí, a Padroeira é a mesma Maria com o título de Senhora do Desterro , recordando outra passagem bíblica relacionada com a proteção divina . ( Mt.2.13-15) Em apuros por causa da perseguição de Herodes, a Santa Família teve que fugir para o Egito. É Maria que protege o Menino , o afaga , o oculta em seus mantos para que não fosse martirizado pelos soldados . José, o casto esposo , participa ativamente do ato em defesa do Filho de Deus , como pai adotivo e amoroso .
A confiança na proteção divina , sobretudo em ocasiões incertas da vida , é dos tempos bíblicos e prossegue na Igreja de Cristo . Deus nos protege sempre , mas pode fazer isto de mil maneiras , sendo a forma privilegiada realizá-la através de pessoas bondosas aqui na terra , ou que já estejam no céu , os santos .
O salmo 138 é um verdadeiro canto à proteção de Deus : Tu me conheces quando estou sentado, tu me conheces quando estou de pé; vês claramente quando estou andando, quando repouso, tu também me vês. Na sua plena confiança , o autor sagrado está tranqüilo , mesmo quando a escuridão o ameace, pois sabe que a noite para Deus é como o dia e as trevas para Ele são como luz .
Contemplar a imagem da Padroeira de Jundiaí com seus braços de amparo sobre a figura do Menino Jesus, depois de passar pelas peripécias da fuga , certa , contudo de que Deus enviou seu Filho para perdoar e salvar a humanidade, faz recordar a poesia de Adélia Prado , de alma bem brasileira , que diz: Deus não é severo mais,\ suas rugas, sua boca vincada \ são marcas de expressão de tanto sorrir pra mim. Me chama a audiências privadas,\ me trata por Lucilinda, \ só me proíbe coisas visando meu próprio bem. \ Quando o passeio é à borda de precipícios, me dá sua mão enorme. \ Eu não sou órfã mais não. (Poema Filhinha - Adélia Prado)
No corrente ano, a festa da Padroeira está marcada por algo novo: a inauguração das ampliações do Seminário Diocesano, sobretudo com sua nova e bonita capela. A expansão é parte importante no processo formativo dos futuros presbíteros, oferecendo melhores condições para a formação espiritual com suas celebrações litúrgicas, a oração pessoal, a leitura orante da Bíblia, e a direção espiritual, com salas apropriadas para isso.
À entrada da capela, foi entronizada a imagem da Padroeira, que, na verdade, faz parte de um conjunto de três inspiradoras estátuas: Jesus, Maria e José, a Família Sagrada de Nazaré, sinalizando para o valor da família na vida pastoral da Igreja, a grande família de Deus.
A parte mais importante da formação dos candidatos ao sacerdócio é a espiritual, pois eles devem se configurar com Cristo, deixando-se guiar exclusivamente por Deus. Maria, que se dispôs plenamente nas mãos do Pai, é o modelo mais perfeito para o discipulado de Cristo. Nela se cumpriu o que diz o salmo 118: Acostumei meu coração a obedecer-vos, a obedecer-vos para sempre até o fim.
No Apocalipse, Maria, ícone da Igreja, é a mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça, cuja descendência derrota o mal.
Celebrar a Padroeira é exaltar a proteção e a presença sensível de Deus entre nós, cujo amor salvífico se revela nas pessoas que lhe são fiéis.
O caráter de imitação dos santos padroeiros está exatamente na fidelidade aos desígnios de Deus e, em questão de fidelidade , Maria é a primeira entre os humanos.
Dom Gil Antônio Moreira – agosto de 2008. |
MARIA DO MONTE CARMELO
Entre as devoções do nome de Maria, a Mãe do Senhor, chama-me à atenção a do Monte Carmelo, cuja festa celebramos a 16 de julho, pelo seu sentido estritamente bíblico. Remonta ao Profeta Elias que venceu a incredulidade e as investidas de infidelidade do povo de Israel, quando o rei Acab casou-se com a infiel rainha Jazabel, pagã de Baal, violenta e corrupta. (cf. I Reis, 18, 40 ss) Perseguido porque anunciou a terrível seca que assolaria Israel, por castigo divino, Elias se encontra sozinho, mas enfrenta a tudo e a todos para proclamar que somente Deus é o Senhor.
Depois de vencer os profetas de Baal, Elias encontra Acab e lhe anuncia que Deus haveria, agora, de mandar abundante chuva. Sobe ao monte Carmelo, põe-se em oração e avista, afinal, uma nuvem que se levanta no mar, pequena como a palma da mão, mas que depois vai se tornando grande e espessa, por fim traduzida numa enorme chuva que fecunda os terrenos de Israel. São vencidas a fome, a miséria e a morte de pessoas e animais.
Elias viveu no monte Carmelo, habitou numa gruta que transformou em casa de oração. Mais tarde terá que fugir novamente da perseguição de Jezabel e outra vez se recolherá numa gruta de oração no monte Hobeb.
Após a vinda do Messias, nascido na gruta de Belém, a pequena nuvem que se levantou no mar Mediterrâneo foi comparada pela Igreja a Maria, rainha santa, justa e pacífica, de quem veio a chuva da salvação, profetizada por Isaías quando disse “Chovam as nuvens o Justo” (Is.45,8).
No correr dos anos medievais, jovens impulsionados pelo amor a Deus, desejaram beber das fontes da espiritualidade de Elias. Subiram também eles ao monte Carmelo e ali viveram vida eremítica, dando origem a uma enorme corrente de espiritualidade mariana, onde a Palavra de Deus se torna fonte de oração, de caridade e missão, hoje conhecida por família carmelitana. No século XII são acolhidos pelo Patriarca de Jerusalém e no século XIII se estruturam melhor, depois que, por perseguição islâmica, são abrigados a deixar a Palestina e viverem na Europa.
A experiência cresce a partir do trabalho, da vida de eloqüente de santidade e das experiências místicas do monge Simão Stock, que recebeu de Nossa Senhora o escapulário. Stock fundou vários Carmelos, sobretudo nas cidades universitárias de então: Paris, Bologna, Cambridge e Oxford.
A devoção a Maria, não só com o título carmelitano, é sempre atual, pois não é outra coisa senão a vivência profunda do amor de Deus que se revela nas Escrituras e de mil maneiras se propaga pela história. Ela é modelo do discípulo missionário que vive da Palavra de Deus, se fortifica, dia a dia, por meio da oração e, qual Profeta Elias, não se cansa de lutar contra as forças do mal.
O Documento de Aparecida, lançado no ano passado, chama à atenção para que cada um, à semelhança de Maria, se torne verdadeiro discípulo missionário neste mundo que precisa ser re-evangelizado. Segundo o Documento, Maria é o modelo mais acabado de discipulado: Em Maria, a santidade se realiza na sua aceitação fiel ao plano do Pai, e, como conseqüência na entrega à ação do Espírito e na união perfeita com Deus Filho, Jesus Cristo. O discípulo e missionário se santificarão na medida em que aceitarem conscientemente o plano de Deus, se unindo a Cristo em tudo.
Ao celebrar a festa do Carmo, sobretudo nos silenciosos claustros carmelitas, é útil recordar que Maria é modelo dos silêncios eloqüentes da Bíblia. Os evangelhos não falam muito sobre Maria, mas dizem o essencial para se saber que ela é ‘bendita entre todas as mulheres’. Precisaria algo mais para conhecer a estatura espiritual desta Mulher e seu lugar único na história da Salvação? Sobre ela, uma mulher, certo dia, encantada com a pregação de Cristo, exclamou: Feliz o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram (Lc.11,27).
O silêncio de Maria tem uma finalidade missionária: fazer ressaltar a pessoa de Cristo. Na Bíblia, como nas peças musicais, o silêncio faz parte integrante da mensagem. Como na música o silêncio não é música, mas faz parte indispensável na sua expressão, Maria não é deusa, mas faz parte intrínseca do plano salvífico de Deus.
Diz Gabriel de Santa Madalena: “Quem aspira imitar Maria há de ter ânsia de ocultar-se à sombra de Deus, convicto de que se lhe foi concedido fazer alguma coisa boa, foi dom divino e deve reverter em proveito do bem comum e da glória do Altíssimo”.
Eis o modelo para quem deseja alcançar ‘altura’ no amor a Deus e no serviço ao próximo, como bem expressa a oração da missa na festa litúrgica carmelitana: Venha, ó Deus, em nosso auxílio a gloriosa intercessão de Nossa Senhora do Carmo, para que possamos , sob a sua proteção, subir o monte que é Cristo.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo Diocesano de Jundiaí-SP
21 de julho de 2008 |
O Direito à Cidadania
Consta dos princípios cristãos o dever de colaborar com a sociedade na busca do bem comum . É ‘ sagrado ’ o dever de participar leal e responsavelmente da vida pública e política , buscando a construção de uma sociedade justa , fraterna e pacífica . A Igreja faz isto a partir do Evangelho cujo núcleo é a pessoa de Jesus Cristo , que veio para salvar a pessoa humana de forma integral e definitiva . No centro de sua ação está o bem do homem , na base de sua pregação se encontra a lei suprema do amor a Deus e ao próximo . Nas narrativas bíblicas da criação , observa-se que a pessoa humana é apresentada como a obra mais elevada do Criador , feita à sua imagem e semelhança . Para a Salvação da humanidade , Deus envia seu Filho que assume em tudo a condição humana , menos o pecado . O Evangelho que a Igreja anuncia tem como meta libertar o homem todo e todos os homens , na expressão de Paulo VI, e indica como fim último a vida eterna , sublimação indestrutível do bem que se vive na terra .
Para esclarecer sobre a participação do fiel cristão na vida pública , social e política , o Pontifico Conselho “ Justiça e Paz ” publicou no ano de 2004, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja , excelente manual que estabelece balizas seguras para este fim , iluminando o agir humano , sobretudo em relação aos leigos que pretendem militar na vida político-partidária.
João Paulo II, na encíclica Sollicitudo Rei Socialis (1988), enfatiza que não é possível amar o próximo como a si mesmo e perseverar nesta atitude sem firme e constante determinação de empenhar-se em prol do bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos.
Já a Constituição Conciliar Gaudium et Spes (1965) proclamava que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo.
Este dever de colaboração social é também um direito que lhes garante a democracia , regime que todos prezamos, independentemente de credo , de igreja ou qualquer outra convicção religiosa , incluindo os que afirmam em nada crerem. O direito democrático prevê a liberdade de expressão e garante a liberdade religiosa como algo inalienável na construção da civilização . Tais direitos estão explícitos em nossa Constituição Federal, a carta magna dos brasileiros, nos seguintes termos: Art. 5.º, inciso VI: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. O inciso VIII, do mesmo Artigo, garante aos que crêem o direito de expressão e todos os demais diretos comuns a todos os demais cidadãos: ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;".
O referido direito é internacionalmente reconhecido, como se pode ver na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) em seu artigo 18: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Este direito importa a liberdade de mudar de religião, ou convicção, bem assim a liberdade de manifestá-las, isoladamente ou em comum, em público ou em particular, pelo ensino, pelas práticas, pelo culto e pela observância dos ritos.
Defendendo os mesmos direitos, o Pacto de São José da Costa Rica, do qual o Brasil é signatário, reza em seu artigo 12: 1. Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de religião. Esse direito implica a liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças, bem como a liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado.
Por esses e por outros artigos de leis que poderiam ser citados com abundância, nenhum governo, nenhum ideólogo nem qualquer outra pessoa pode, em nome da laicidade, impedir ou cercear a ação dos cidadãos que uma religião. Em nome da laicidade, ninguém, a não ser que seja totalitarista ou deseje impor uma ditadura destruidora da democracia, pode negar à Igreja o direito de existir e de se posicionar, de ensinar a seus fiéis e de expressar publicamente suas convicções a respeito da dignidade humana, mesmo porque, esta matéria não é um artigo da sua dogmática, mas faz parte de uma ordem natural aceitável pela pura razão humana.
Nas próximas eleições, você católico, saiba que é livre e que não precisa se deixar oprimir ou se confundir por forças enganadoras que queiram subestimar a sua cidadania por causa de sua fé em Cristo, e suas convicções éticas e morais, pois as leis brasileiras e internacionais lhe garantem e defendem este direito inalienável. Vote conforme sua consciência cristã.
O Estado pode ser laico , mas o povo é fiel e temente a Deus e merece ser respeitado no que lhe atribui a legislação.
Dom Gil A.Moreira – 25/08/2008 |
Quarenta anos da Encíclica
Humanae Vitae
Há quarenta anos, exatamente no dia 25 de julho de 1968, o Papa Paulo VI lançava um dos mais importantes documentos sobre o valor da vida humana: a encíclica Humanae Vitae. Tratava-se de um documento a respeito do controle da natalidade que, no momento, recebeu certas críticas infundadas. Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), muito se falou, e com razão, de uma saudável e necessária abertura da Igreja aos questionamentos do mundo hodierno. Porém, o surgimento da referida encíclica no momento causava surpresa a alguns que esperavam medidas demasiadamente liberais para a questão. Humanae Vitae, sem receios e sem subserviências, com coragem e com objetividade, levantava sérias questões sobre os métodos para a limitação dos nascimentos, e condenava os meios artificiais para isto.
Para se entender o texto, é preciso partir da verdade sobre o amor conjugal que é a chave de leitura. Ele é um amor que só terá sentido, se for fecundo e responsável. Eis a verdadeira questão moral. Ela não versa sobre o direito geral de controlar a fecundidade, mas sobre a maneira de fazê-lo em função da relação constitutiva que o amor possui com a vida.
Ao discorrer sobre o amor conjugal, Paulo VI recorda que sua fonte é Deus. Tal amor se traduz em doação pessoal e recíproca, “por meio da qual os esposos tendem à comunhão de seus seres em vista de um mútuo aperfeiçoamento para colaborar com Deus na geração e na educação de novas vidas” (n. 8). As características deste amor são: amor plenamente humano (sensível e espiritual), isto é, um amor que não se confunde com os instintos, mas é um ato da livre vontade; amor total, o que significa dizer que os cônjuges se amam não por aquilo que um recebe do outro, mas por aquilo que o outro é; amor fiel, que, mesmo às vezes difícil, é sempre possível, sempre nobre e meritório; amor fecundo, que ultrapassa a comunhão dos esposos, suscitando novas vidas.
Só assim se pode pensar em uma paternidade responsável que se traduz em conhecimento e respeito aos processos biológicos da pessoa humana. Tal paternidade responsável é exercida “seja para a determinação refletida e generosa de fazer crescer uma família numerosa, seja para a decisão, tomada por graves motivos e no respeito à lei moral, de evitar temporariamente ou mesmo por um tempo indeterminado, uma nova concepção” (n. 10).
Por respeito à lei moral entende-se o respeito à ordem moral objetiva estabelecida por Deus mesmo, que inclui o respeito à natureza, às finalidades do ato conjugal e a indissociabilidade entre os aspectos unitivo e procreativo do mesmo ato. Da mesma forma que a imposição do ato conjugal a um cônjuge impede que o próprio seja um verdadeiro ato de amor (ausência do aspecto unitivo), assim também um ato conjugal que comporta um atentado à disponibilidade de transmitir a vida, que o Criador quis relacionar a este ato, não é, sob nenhum pretexto, um verdadeiro ato de amor (ausência do aspecto procreativo). E é este o ponto que para muitos significou um balde de água fria.
A Igreja rechaça peremptoriamente o recurso a qualquer meio artificial que vise à anticoncepção. Tais meios, burlando a ordem querida pelo Criador, corrompem a natureza e a sacralidade do ato conjugal.
O recurso, todavia, aos períodos não fecundos, além de se valer de um processo estabelecido pela mente criadora, não torna impossível a concepção, mas menos provável; o que em nada ofende a veracidade do legitimo ato conjugal, pois não lhe são desassociados os aspectos unitivo e procreativo.
Paulo VI estava consciente do estardalhaço que a publicação deste documento podia causar. Coube àquele corajoso Pontífice anunciar mais uma vez a doutrina da Igreja em um contexto que deseja impor mudanças pouco refletidas. Para uma sociedade em que cada vez mais o ser humano perde o seu valor, “o gravíssimo dever de transmitir a vida humana” deve merecer uma séria reflexão e resultar em atitudes concretas favoráveis à vida e a dignidade humana.
Dom Gil Antônio Moreira Bispo de Jundiaí-SP – 29 de julho de 2008 |
ANO PAULINO
Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo , como ele mesmo se intitula, será lembrado especialmente durante um ano, a partir do dia 28 de junho próximo . A decisão vem do Santo Padre , o Papa Bento XVI, com o objetivo de celebrar os dois mil anos de nascimento do primeiro grande missionário da fé cristã. Muitas atividades litúrgicas, acadêmicas, culturais e devocionais serão desenvolvidas em todas as partes do mundo cristão , com destaque para as celebrações na cidade de Roma, onde se encontra o túmulo do Apóstolo , na basílica São Paulo Fora dos Muros . O Sumo Pontífice associou a algumas destas celebrações a indulgência plenária aos fiéis que delas participarem. A celebração é ocasião propícia para um aprofundamento dos estudos da Palavra de Deus contida na Bíblia , da qual faz parte o chamado Corpus Paulinum, com treze cartas atribuídas a Paulo.
Paulo, cujo nome na versão hebraica é Saulo, nasceu em Tarso , na Cilícia , hoje território da Turquia, entre os anos 7 e 10, segundo a grande maioria dos historiadores. Filho de pais judeus da diáspora, estudou em escola grega e por isso tinha como língua materna este idioma . Mas também foi formado em doutrina judaica , em Jerusalém, onde passou parte de sua juventude , na famosa escola do Rabino Gamaliel. Assim também seria fluente na língua aramaica . Era fariseu , homem culto , de espírito empreendedor , de uma têmpera singular em tudo o que fazia.
Inicialmente , ferrenho perseguidor dos cristãos , a partir de uma experiência mística , converte-se ao cristianismo no caminho de Damasco , para onde ia com cartas das autoridades para aprisionar cristãos . Ele mesmo afirma ter ouvido a voz de Cristo Ressuscitado, vinda do céu , que clamava: “Saulo, Saulo, porque me persegues?”. (At.9, 1-22). A partir de então , torna-se intrépido apóstolo e missionário do Senhor .
São Paulo é considerado o primeiro teólogo do cristianismo , sendo seus textos básicos para toda a teologia posterior . Foi o primeiro escritor da fé cristã, através de cartas que enviava às comunidades que fundou, a fim de ensinar , animar a fé , corrigir distorções doutrinais e reconduzir ao bom caminho os que moralmente claudicassem.
Com relação ao Corpus Paulinum do Novo Testamento , há, entre os exegetas , certas dúvidas a respeito da autoria de algumas cartas , podendo ter sido escritas posteriormente por discípulos , fiéis à doutrina pregada por Paulo. É o caso das chamadas cartas pastorais , ou sejam I e II Timóteo e a carta a Tito. Também , grande parte dos autores atualmente inclui entre as dêutero-paulinas, também Efésios, Colossenses e a 2ª Tessalonicenses. Todas estas teriam sido escritas após a morte de Paulo, acontecida por volta do ano 67. Pertencem ao grupo das proto-paulinas, ou seja, de comprovada autoria de Paulo, as demais, a saber, Romanos, Gálatas, 1ª Tessalonicenses, 1ª e 2ª Coríntios, Filipenses e Filémon.
Sobre a datação das cartas de Paulo, a definição é sempre aproximativa. A mais antiga teria sido a 1ª Tessalonicenses, escrita da cidade de Corinto, por volta do ano 51. Depois viriam as cartas aos Coríntios, a primeira escrita da cidade de Éfeso, no ano 55 e a segunda enviada de alguma cidade da Macedênia, entre 55 e 57. Há suficiente certeza de que Paulo tenha escrito mais duas cartas aos coríntios, que até o momento se encontram desaparecidas. A carta aos Gálatas teria sido escrita entre 55 e 60, embora alguns afirmem que teria sido esta a primeira carta escrita por Paulo. A carta aos Romanos provavelmente teria sido redigida no ano 57, na cidade de Corinto, endereçada aos cristãos da capital do Império . A carta aos Filipenses é datada entre 53 a 58.
Até anos atrás , se considerava também a carta aos Hebreus como possivelmente de São Paulo. Hoje nenhum autor afirma mais isto e comumente se diz que não se trata propriamente de uma carta , mas de uma homilia ou um texto catequético em defesa da fé .
Sobre a vida e a ação missionária de Paulo, nos dá muitas informações também o livro dos Atos dos Apóstolos , escrito por Lucas, provavelmente entre os anos 61 e 63. Tal livro termina a narração abruptamente e não se refere à condenação de Paulo à morte , o que dá idéia de ser um livro inacabado, redigido antes da morte do Apóstolo dos gentios .
A celebração do Ano Paulino, cuja abertura será dia 28 de junho corrente e término em 29 de junho de 2009, tem como principal objetivo a evangelização . Todos estamos em processo de evangelização contínua, católicos e não católicos , e somos chamados a comunicar o evangelho de Cristo , morto e ressucitado, aos que ainda não crêem.
Talvez , a palavra mais incisiva para a vivência deste ano jubilar , seja a de Paulo aos Coríntios: «Ai de mim, se não evangelizar!» (1 Cor 9,16).
Dom Gil Antônio Moreira (12/06/2008)
Bispo de Jundiaí-SP
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CORPUS CHRISTI, A DIVINA PRESENÇA
Com a festa de Corpus Christi, na próxima quinta-feira, a Igreja celebra não tanto a instituição da Eucaristia, mas a permanência sacramental de Jesus entre os fiéis. A ênfase sobre a instituição é dada na Quinta-feira Santa. Passados os cinqüenta dias pascais, a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo vem recordar a perenidade da Ceia e do Sacrifício de Cristo, na Igreja. Mistério central e básico, a Eucaristia é a vida da comunidade eclesial e de cada pessoa que crê. Sem Eucaristia não existe Igreja. Ela vive da Eucaristia, nos recordou o Papa João Paulo II na encíclica Ecclesia de Eucharistia.
A Eucaristia é o dom mais precioso dado por Cristo à sua Igreja, pois não permite que a Sua ação salvadora fique presa ao passado, mas faz verdadeira memória, no sentido de torná-la objetivamente presente e atual. Também não permite que sua recordação seja apenas uma obra da imaginação sem se concretizar em gestos, pois o Senhor, ao instituí-la utilizou palavras, gestos e sinais sensíveis. Quando Jesus disse: “Tomai e comei, isto é o meu corpo, tomai e bebei, este é o cálice de meu sangue”, ele tinha em suas mãos o pão e cálice de vinho. Esta junção ‘palavra e gesto’ une matéria e vida e é repetida pela Igreja a cada vez que se reúne para celebração do mistério eucarístico. ‘Fazei isto em minha memória’, ordena o Senhor aos seus discípulos.
Quando a comunidade se reúne para a Eucaristia, ela, na verdade, não participa de uma ‘nova celebração’, mas sim daquela única celebração de Cristo, recordada e tornada presente pela ação do sacerdote que por sua vez age na pessoa de Cristo. É como se estivéssemos presentes no cenáculo e ao pé da cruz, nos lembrou o Papa na citada encíclica.
A Eucaristia foi prenunciada no Antigo Testamento, por várias imagens. Como alimento ela foi simbolizada pelo maná do deserto, descrito no livro do Deuteronômio, 8. Como sacrifício ela era já indicada no altar levantado por Moisés, narrado pelo livro do Êxodo, 24. Como ação sacerdotal, tem referência em Melquisedec, que se encontra no Gêneses, 14.
O maná saciou a fome temporal do povo hebreu na caminhada da libertação, em busca da terra prometida. A Eucaristia é o verdadeiro maná, pão vindo do céu que alimenta o povo de Deus na busca da Jerusalém celeste. É o viático de todos os que enfrentam as intempéries deste mundo em busca da cidade eterna.
O altar erguido por Moisés ao sopé da montanha era destinado a sacrificar animais cuja metade do sangue era aspergida sobre o povo em sinal de purificação. No altar da cruz, Jesus se sacrifica a si mesmo, oferece como sacerdote sua vida ao Pai em benefício da salvação de todos, perdoando os pecados.
No sacerdócio de Melquisedec, cuja origem familiar e a morte são desconhecidas, está a figura do único e verdadeiro sacerdócio de Cristo, sacerdócio este não adquirido por genealogia humana, mas de origem divina. A oferta de pão e vinho de Melquisedec é imagem pálida da Eucaristia do Senhor Jesus.
Por fim, a festa de Corpus Christi recorda a partilha do pão material que deve se realizar entre os que crêem. Sobre este aspecto, o capítulo 6 de João oferece ótima reflexão. Inicia-se com a narrativa da multiplicação dos pães, os quais Jesus manda sejam distribuídos pelos Apóstolos. O pão que mata a fome física é imagem do pão espiritual que sacia a alma. A fome dos empobrecidos, sejam eles membros da comunidade de fé ou não, cristãos ou não, é um desafio para quem se aproxima da mesa da Comunhão eucarística, pois se o Senhor foi capaz de dar sua vida por nós, como podemos estar em união com Ele se não somos capazes de ao menos partilhar o que temos com aqueles que pouco ou nada têm?
A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor para os que crêem alimenta a fé, une no amor e prepara para a vida eterna, onde se dará o verdadeiro e definitivo banquete de Deus com os que foram salvos.
Corpus Christi: Ele está no meio de nós! Sinal de amor supremo! Lição de solidária partilha!
Dom Gil Antônio Moreira – 21.05.2008
Bispo de Jundiaí-SP-Brasil |
VITÓRIA DA VIDA E DAS CRIANÇAS DO BRASIL
Abaixo, transmito o texto de Dra.Dolly, a respeito da vitória histórica da vida, acontecida na quarta-feira, dia 7 de maio, ocultada até o momento por uma parte da mídia, certamente pressionada por forças abortistas.
Vale a pena ler o que aconteceu.
Dom Gil Antônio Moreira – 09 de maio de 2008
Presidente da Comissão Regional em Defesa da Vida
do Sul 1 da CNBB
VOTADO PROJETO DE LEI DO ABORTO: 33 x 0 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Para espanto de todos, a grande mídia, em geral, não noticiou. Os portais da internet idem: Nesta última quarta-feira, dia 07 de maio de 2008, o tão famigerado Projeto de Lei do Aborto (PL 1135/91) que estava há 17 anos para votação na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, sob a presidência firme e serena do Dep. Jofran Frejat, do PR do DF, foi votado em uma sessão histórica para nossa nação. Todos se espantavam: “NUNCA SE VIU ALGO IGUAL NESSA CASA!”
Numa sessão conturbada pelo bloco do governo Lula, capitaneado pela deputada do PT do Rio de Janeiro, Cida Diogo, eleita pela região de Volta Redonda, e acompanhada pelo Dep. José Genoíno, PT de São Paulo, Janete Rocha Pietá, PT de São Paulo, Dr. Rosinha, PT do Paraná, Paulo Rubem Santiago, do PDT de Pernambuco, Darcísio Perondi, do PMDB do Rio Grande do Sul, que não queria a votação e procurou postergá-la a qualquer custo, até ao custo do ridículo, quando seus requerimentos eram vencidos por 28 votos a 5, e mesmo assim pedia verificação de voto e de quorum.
Enfim, depois de conseguir adiar a votação do Projeto de Lei por cinco horas, o bloco do governo finalmente havia esgotado todas as manobras possíveis e imagináveis para não votar aquele projeto e então, numa atitude anti-democrática, retirou-se do plenário sete da Câmara, reclamando por não poderem impor ao país a morte de criancinhas não nascidas.
As feministas que lá estavam, capitaneadas por Dulce Xavier, integrante da ONG Católicas pelo Direito de Decidir (que de católicas nada tem) – gritavam: “o estado é laico, o estado é laico”, como se estivéssemos em um templo religioso a celebrar um culto – ao o que o Dep. Nazareno Fonteles, também do PT – do Piauí, respondeu: “O estado é laico mas o povo que o compõe não é ateu, tem o sentido de Deus e religião.” Também elas acompanharam o bloco do governo na retirada da sala da Comissão de Seguridade Social e Família. E o ambiente mudou! Clareou! Desanuviou! E passamos à votação do PL que visava suprimir do Código Penal os artigos de lei que tipificam o ato de matar um ser humano ainda dentro do útero materno.
Importante verificar que o relator desse Projeto, Dep. Jorge Tadeu Mudalen, do DEM de São Paulo, região de Guarulhos, fez um relatório REJEITANDO esse projeto depois de haver realizado três audiências públicas, em que convocou o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que se esquivou e nunca compareceu, médicos, juristas, incluindo a ex-senadora Heloísa Helena, que de modo claro e inequívoco, através dos próprios dados do Ministério da Saúde, evidenciou que há 13 grandes causas de morte de mulheres no Brasil (como doenças do sistema circulatório, endócrino, digestivo, geniturinário) e que a morte materna no Brasil, vem em 14º lugar, e dentro desse item, em 4º lugar vem a morte por gravidez que resultou em aborto (expontâneos, legais, provocados) o que resulta em média 150 mortes de mulheres ao ano no Brasil, o que é lamentável, mas inteiramente despropositado em vistas da falácia dos milhares de mulheres mortas por aborto inseguro!
Assim, 33 dos 33 deputados que compuseram a CSSF votaram SIM À VIDA!
PARABÉNS PORQUE FORAM SENSÍVEIS AO DESEJO DE VIDA EM ABUNDÂNCIA QUE HÁ NO POVO BRASILEIRO!
(Dra. Maria Dolly Guimarães é advogada, presidente da Federação Paulista dos Movimentos em Defesa da Vida) |
O PAPA E AS COMUNICAÇÕES
Celebramos, neste domingo, o Dia Mundial das Comunicações Sociais . A data comemorativa foi instituída pelo Papa Paulo VI, no ano de 1967, na festa litúrgica da Ascensão do Senhor, recordando a mensagem universal que Cristo deu a seus discípulos para que levassem sua Palavra a todo o mundo, ensinado-lhe seu mandamento de amor.
Quero, nesta ocasião, homenagear a todos os profissionais da comunicação , prosseguindo as mensagens já expressas na Coletiva de Imprensa , por nós convocada na semana passada , dia 25 de abril , quando recebemos na Cúria Diocesana , vários representantes da imprensa local e pudemos oferecer-lhes a Carta enviada pelo Papa Bento XVI. No mencionado texto , o Papa se refere ao progresso tecnológico e acadêmico das comunicações , verdadeiros dons de Deus para o mundo atual . Também desenvolve feliz raciocínio sobre o compromisso dos profissionais da comunicação com a verdade e recorda a necessidade de todos , profissionais e receptores , estarem atentos para com a ética . O Sucessor de Pedro, ao abordar este tema , cria o termo “infoética”, indicando que , assim como acontece com a bioética nas ciências médicas, deve haver também no campo da comunicação uma preocupação específica com formas e expressões que superem a tentação de fazer da notícia apenas um meio de aumentar lucros ou de ampliar audiências . No centro da mensagem papal está o respeito para com a pessoa humana , a quem os meios devem servir , em busca de um mundo melhor , mais justo , mais pacífico .
Sugerindo a leitura integral do documento papal , amplamente difundido, desejo destacar ainda alguns pontos da recente viagem do Papa aos Estados Unidos, pela importância do fato . Diante de tantos desafios vividos pela humanidade e pela Igreja nos tempos atuais , o Papa quis dar àquela viagem missionária um sugestivo tema : “ Cristo , nossa Esperança ”.
Ele veio para a missão apostólica de um verdadeiro ‘Shepherd One’ (Pastor nº 1), nome dado também ao avião que o transportou. As palavras do presidente Bush, ao recebê-lo no aeroporto, foram significativas: “Aqui na América o Senhor encontrará uma nação que dá as boas-vindas, em praça pública, ao papel da fé... Acima de tudo, Santo Padre, o Senhor encontrará na América pessoas cujos corações estão abertos para sua mensagem de esperança. E a América e o mundo precisam desta mensagem”. Havia sinceridade nas palavras do Presidente, pois ele mesmo havia afirmado que quando olha nos olhos do Papa, vê Deus presente.
Encontrando-se com o episcopado em Washington, deu-lhe coragem para prosseguir seus trabalhos, superando os problemas vividos com padres que decepcionaram a Igreja com um inadmissível comportamento.
Aos presbíteros fiéis à sua vocação, que constituem a imensa maioria, deu sua palavra-força no sentido de continuarem sua missão sem se deixarem abater por um clima desfavorável e muitas vezes injusto para com eles.
Num encontro com representantes das vítimas, deu sua palavra de efetivo apoio.
Na visita à ONU, um dos pontos altos de sua viagem , ressaltou os inalienáveis valores da instituição no que tange promover a concórdia entre as nações , a superação de conflitos , a busca conjunta do bem comum e defesa dos direitos humanos . Sobre este ponto , disse: “No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, a necessidade da solidariedade global é mais urgente do que nunca...”. “A promoção dos direitos humanos permanece a estratégia mais efetiva para eliminar desigualdades entre países e grupos sociais, e para aumentar a segurança”.
Ao se despedir, o Papa deixou atrás de si uma Igreja renovada que soube enfrentar as difíceis situações com espírito de fé e esperança, e prosseguir o caminho, movida pela força do alto, na alegria de saber que o bem sempre prevalece onde Deus está presente.
Certamente há uma mística profunda, resposta amorosa do Ressuscitado à Igreja presente nos EEUU, na forma com que o Papa concluiu sua peregrinação, ao subir as escadas do avião: “God bless America!” “Deus abençoe a América!”.
Dom Gil Antônio Moreira – 05.05.2008
Bispo de Jundiaí - SP |
Por onde anda a humanidade hoje em dia! Que horror! Podemos ainda fazer algo pela pessoa humana?
Deus nos ajude!
Dom Gil
CARLOS HEITOR CONY
Uma história repugnante
Trabalho jornalístico fala sobre o último elo de uma cadeia: o destino final dos fetos
DOIS JORNALISTAS ingleses, Michel Litchfield e Susan Kentish, fizeram há tempos uma ampla pesquisa sobre a indústria do aborto em Londres. O resultado foi um livro que causou espanto e merece, ao menos, uma reflexão de todos os que se preocupam com o assunto. "Babies for Burning" (bebês para queimar, editado pela Serpentine Press, de Londres) não é um ensaio sobre o aborto, mas um trabalho jornalístico sobre o último elo de uma cadeia: o destino final dos fetos que anualmente são retirados de ventres que não desejam ou não podem ter filhos ou "aquele filho".
No caso da Inglaterra, já existe uma lei, o "Abortion Act", de 1967, que permite a interrupção do processo de gravidez pela eliminação mecânica.
Os autores souberam, por meio de informações esparsas, que a indústria do aborto, como qualquer indústria moderna, tinha uma linha de subprodutos: a venda de fetos humanos para as fábricas de cosméticos. Durante a Segunda Guerra, os nazistas também exploraram esse ramo do negócio: matavam judeus aos milhões e aproveitavam a pele e a escassa gordura das vítimas para uma linha de subprodutos que iam de bolsas feitas de pele humana a sabões que lavavam os uniformes do Exército do 3º Reich.
Os ingleses não chegam a ser famosos pelas bolsas que fabricam, mas pelo chá e pelos sabonetes -os melhores do mundo.
Um "english soap" sempre me causou pasmo pela maciez, a consistência da espuma, a sensação de limpeza que dá a pele. Não podia suspeitar que tanto requinte pudesse ter -em alguns deles- as proteínas que só se encontram na carne -e carne humana por sinal. Desde que li o livro, cortei drasticamente dos meus hábitos de higiene o uso dos bons e estimulantes sabonetes ingleses. Aderi ao sabão de coco, honestamente subdesenvolvido, com cheiro de praia do Nordeste e eficácia múltipla, na cozinha ou no toucador.
Contam os jornalistas: "Quando nos encontramos em seu consultório, o ginecologista pediu à sua secretária que saísse da sala. Sentou-se ao lado de Litchfield, o que melhorou a gravação, pois o microfone estava dentro da sua maleta. O médico mostrou uma carta:
- "Este é um aviso do Ministério da Saúde", disse, com cara de enfado. "As autoridades obrigam a incineração dos fetos... não devemos vendê-los para nada... nem mesmo para a pesquisa cientifica... Este é o problema...."
- "Mas eu sei que o senhor vende fetos para uma fábrica de cosméticos e... e estou interessado em fazer uma oferta... também quero comprá-los para a minha indústria..."
- "Eu quero colaborar com o senhor, mas há problemas... Temos de observar a lei... As pessoas que moram nas vizinhanças estão se queixando do cheiro de carne humana queimada que sai do nosso incinerador. Dizem que cheira como um campo de extermínio nazista durante a guerra."
E continuou: "Oficialmente, não sei o que se passa com os fetos. Eles são preparados para serem incinerados e depois desaparecem. Não sei o que acontece com eles. Desaparecem. É tudo."
- "Por quanto o senhor está vendendo?"
- "Bem, tenho bebês muito grandes. É uma pena jogá-los no incinerador. Há uso melhor para eles. Fazemos muitos abortos tardios, somos especialistas nisso. Faço abortos que outros médicos não fazem. Fetos de sete meses. A lei estipula que o aborto pode ser feito quando o feto tem até 28 semanas. É o limite legal. Se a mãe está pronta para correr o risco, eu estou pronto para fazer a curetagem. Muitos dos bebês que tiro já estão totalmente formados e vivem um pouco antes de serem mortos.
Houve uma manhã em que havia quatro deles, um ao lado do outro, chorando como desesperados. Era uma pena jogá-los no incinerador porque tinham muita gordura que poderia ser comercializada. Se tivessem sido colocadas numa incubadeira poderiam sobreviver mas isso aqui não é berçário.
Não sou uma pessoa cruel, mas realista. Sou pago para livrar uma mulher de um bebê indesejado e não estaria desempenhando meu oficio se deixasse um bebê viver. E eles vivem, apesar disso, meia hora depois da curetagem. Tenho tido problemas com as enfermeiras, algumas desmaiam nos primeiros dias." |
O Pastor de Bondade
Quando se visita, em Roma, a famosa Catacumba de São Calisto, o peregrino, ao descer as escadas, vê de imediato uma antiqüíssima estátua em mármore, de Jesus, ainda jovem, com uma ovelha sobre os ombros. Trata-se da primeira imagem de Cristo feita pelos cristãos dos tempos iniciais. A inspiração vem do evangelho de São João, 10,11-16, como identificação da missão e da pessoa de Cristo.
A pergunta sobre “quem é Jesus” se repete no correr dos evangelhos. Ele mesmo interroga aos Apóstolos: “Que dizem os homens ser o Filho do Homem?” As respostas foram variadas. A única correta vem de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt.16,16). Também João Batista enviou seus discípulos a perguntarem: “És Tu o Messias, ou devemos esperar outro?” A resposta de Cristo é afirmativa sobre sua messianidade, recordando ao Precursor as obras que Ele realizava.
No trecho joanino, Ele mesmo se adianta para dizer: “Eu sou o bom Pastor. Eu conheço as minhas ovelhas, elas ouvem a minha voz e me seguem.” (cf.Jo.10,16 ss)
O 4ª domingo da Páscoa, quando se lê o evangelho do Bom Pastor, indica que o pastoreio de Cristo continua na Igreja. A Igreja é conduzida por Cristo, como os rebanhos são conduzidos por pastores.
Para prosseguir o seu pastoreio, Cristo organiza o grupo dos Apóstolos e os envia por todo o mundo, aonde Ele mesmo devia ir e estes, por sua vez, impondo as mãos, transmitem a missão aos que os sucedem.
Após dois mil anos de história, os pastores de Cristo se multiplicaram e se espalharam, aumentando, organizando e reunindo os cristãos num só rebanho de um único Pastor.
Já há alguns anos, o domingo do Bom Pastor se transformou em dia mundial de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas. A iniciativa do Papa Paulo VI, continuada pelos seus sucessores, baseia-se em outra palavra de Cristo, que vendo a multidão como um rebanho sem pastor, asseverou aos seus discípulos: “rezai ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe; pois a messe é grande e os operários são poucos”(Mt.9, 38).
O termo operário pode ser entendido de forma ampla aplicando-se a todos os batizados, pois os que recebem o batismo se tornam discípulos de Jesus; mas pode também ser atribuído de forma específica aos ministros ordenados, sucessores do trabalho apostólico. Parece ser esta a interpretação mais direta no texto original.
Na mensagem vocacional que o Papa Bento XVI enviou à Igreja neste ano, assim se expressa: “Entre as pessoas que se dedicam totalmente ao serviço do Evangelho estão, de modo particular, muitos sacerdotes chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo”.
Entende-se que, associadas aos sacerdotes, estão fileiras de religiosos, homens e mulheres, que consagrados unicamente a Deus a serviço do evangelho realizam pelo mundo a missão do Bom Pastor.
O Domingo do Bom Pastor recolhe, em todo o orbe, orações pelo aumento das vocações sacerdotais e religiosas.
A oração, além de ser súplica ao Pai, estabelece nas famílias um clima de serenidade e confiança em Deus que, certamente favorece a geração de vocações para a obra missionária. Sobre isto, escreveu Bento XVI na já mencionada mensagem: “Somente em um terreno espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para o sacerdócio ministerial e para a vida consagrada. De fato, as comunidades cristãs, que vivem intensamente a dimensão missionária do ministério da Igreja, jamais serão levadas a fechar-se em si mesmas”.
A artística escultura marmórea da Catacumba de Calisto continua sendo a imagem-força para todos, consagrados ou leigos, no mundo de hoje tão necessitado de pastores que o guiem por caminhos seguros em busca de realidades definitivas. Estas só podem ser encontradas em Deus.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí – SP : abril de 2008 |
Semana Santa: a Celebração do Amor de Deus
2008
Iniciou-se novamente a celebração da paixão do Senhor. Ramos nas mãos, os fiéis repetiram a cena da entrada em Jerusalém de dois mil anos atrás, com hosanas e louvores próprios dos reis. Mas o reino de Cristo não é um reino político nem terreno. Interrogado sobre isto ele dirá a Pilatos: “Meu reino não é daqui. Se meu reino fosse daqui, certamente meus súditos haveriam de me defender.” (Jo.18,36).
Os ramos de oliveira e o caráter festivo são sinais de vida, a vida verdadeira, aquela que não tem fim. Não sendo daqui o reino, há de ser de outro lugar. Uma outra realidade não puramente terrena, iniciando-se aqui, terá sua plenitude na eternidade. O Senhor Jesus anuncia o reino, o inicia, o realiza. Ensina a respeito das diretrizes e regras, que na verdade se resumem em uma única: amar a Deus e ao próximo. Ao aproximar-se o dia de sua prisão e condenação à morte, conclui todos os seus ensinamentos nestas palavras: “dou-vos o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo.15,12).
O evangelista João, em carta à sua comunidade de fé, define: “Deus é amor” (I Jo.4,7).
A paixão, morte e ressurreição do Senhor, que celebramos todos os anos na Semana Santa só podem ser compreendidas no prisma do amor. O Senhor, Filho do Deus Altíssimo, sofre porque nos ama; dá sua vida por nós. Consente em ser humilhado, condenado injustamente e sacrificado qual cordeiro imolado, por amor. Sendo o amor força de vida, não permanece na morte, mas vence-a e ressuscita.
Toda vida vem de Deus. Deus, sendo a plenitude e perfeição do amor, gera a vida para suas criaturas e as cria para amar e receberem amor.
Eis a razão de tanta insistência do cristianismo para que se crie, entre os humanos, a civilização do amor.
O que seria a civilização do amor? Podemos compreendê-la em dois níveis: o individual e o comunitário. Individualmente, devemos nos reger pela lei do amor ao próximo, sabendo renunciar-nos em favor do outro, colocar a vida do outro sempre em primeiro lugar. Comunitariamente, devemos construir leis e estabelecer sistemas de relações sociais cujas bases sejam a justiça, a paz, a solidariedade, o respeito incondicional pela vida e não o egoísmo e a ganância. São dois níveis que se completam e se entrelaçam, pois a comunidade nada mais é que a união dos indivíduos, amalgamados por um ideal positivo e bom.
Certamente, um fato nos ajudará a entender. Conta-se que num mosteiro, certo dia chegou à porta um homem pobre que recebia dos monges ajudas freqüentes. Trazia um lindo cacho de uvas que ele havia colhido de sua pequena plantação e desejava oferecê-lo ao porteiro, pela amabilidade com que o recebia. O monge o recebeu com alegria, admirado pela beleza das uvas.Ao se distanciar o doador, pensou o monge porteiro: vou dar este lindo cacho de uvas ao Abade. Ele o merece mais do que eu. O Abade o recebe maravilhado. Partindo o porteiro, o Abade ofereceu as uvas ao monge mais velho e doente. Ao se distanciar o Abade, o doente as dá ao monge enfermeiro, como prova de gratidão pela sua caridade. Mas ao sair do quarto, o enfermeiro presenteia o monge cozinheiro, agradecido pelos humildes serviços. O cozinheiro, já quase ao fim do dia, toma cuidadosamente as uvas e as dá ao monge mais jovem para que não se desanimasse diante das dificuldades. Este, com os olhos brilhantes de admiração, toma as usas e as oferece ao monge porteiro que o recebeu com tanta bondade. O porteiro recebe novamente as uvas, certo agora de que vivia verdadeiramente num lugar de Deus, onde reinava exclusivamente a lei o amor e todo sinal de egoísmo havia já desaparecido.
Ah! Se o mundo inteiro fosse assim!
Eis o jeito de se viver os dias santos da semana que já se iniciou e que culminará com o Tríduo Sagrado da Páscoa, quando se cantará convictamente “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão” e , mais uma vez, se proclamará a palavra de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham plenamente”.
Feliz Páscoa da Ressurreição! A vitória da vida sobre a morte!
Dom Gil Antonio Moreira
Bispo da Diocese de Jundiaí |
O PAPA NOS ESTADOS UNIDOS
Foi sua segunda viagem intercontinental . Durante cinco dias , o Papa cumpriu um intenso programa entre reuniões , visitas e celebrações litúrgicas, tendo como um dos pontos altos sua presença na Assembléia da ONU ( Organização das Nações Unidas). O Santo Padre quis dar a esta viagem missionária um sugestivo tema : “ Cristo , nossa Esperança ”. Ao descer no aeroporto da base aérea Andrews, às 16 horas de 3ª feira , foi recebido amável e respeitosamente pelo Presidente da Nação , George Bush e sua comitiva . Naquele momento , não se poderia saber qual seria a reação do povo americano ao líder máximo da catolicidade , sobretudo após os problemas vividos pela Igreja , num passado recente , com os erros clamorosos de certos sacerdotes que a envergonharam com um comportamento inadmissível .
Não importava. Ele vinha não para os aplausos , mas para a missão apostólica de um verdadeiro ‘Shepherd One’ ( Pastor nº 1), nome dado também ao avião que o transportou. As palavras do Presidente Bush, ao aeroporto , foram acolhedoras: “Aqui na América o Senhor encontrará uma nação que dá as boas-vindas, em praça pública, ao papel da fé. Quando nossos fundadores declararam a independência de nossa nação, eles lançaram sua causa no apelo às ‘leis da natureza, e do Deus da natureza’. Acreditamos na liberdade religiosa. Acreditamos também que um amor pela liberdade e uma lei moral comum são escritas em cada coração humano, e que estes constituem o firme fundamento no qual cada sociedade livre bem sucedida deve ser construída... Acima de tudo, Santo Padre, o Senhor encontrará na América pessoas cujos corações estão abertos para sua mensagem de esperança. E a América e o mundo precisam desta mensagem.”
Havia sinceridade nas palavras do Presidente , pois ele mesmo havia respondido a um jornalista , dias antes , que quando olha nos olhos do Papa , vê Deus presente .
Acolhido na Casa Branca pelo Presidente Bush e sua esposa Laura , com mais de 9.000 pessoas que vieram dar-lhe os parabéns pelos aniversários , natalício dia 16 (81 anos ) e de pontificado dia 19 (3 anos ), o Papa agradeceu: “Estou feliz por estar aqui como um convidado de todos os americanos. Venho como amigo, como pregador do Evangelho e com grande respeito por esta vasta sociedade pluralista”.
Com os Bispos
Encontrando-se com o episcopado no Santuário da Imaculada Conceição, Padroeira dos EEUU, em Washington, deu aos bispos coragem e ânimo para prosseguirem seus trabalhos apostólicos, superando os graves problemas vividos , em relação à decepção com certos sacerdotes que traíram vergonhosamente a Igreja .
O Pastor universal fortaleceu os bispos para que continuassem a investir numa formação rigorosa dos futuros presbíteros e continuassem a dar amparo humanitário às vítimas .
Aos presbíteros dignos e fiéis à sua vocação , que constituem a imensa maioria do clero , deu sua palavra-força no sentido de continuarem sua missão sem se deixarem abater por um clima desfavorável e muitas vezes injusto para com eles .
Sobre estes aspectos , comentou Pe. Lombardi, Diretor da Sala de Informações do Vaticano , que foram palavras animadoras “a uma Igreja que viveu um período particularmente difícil nos últimos anos e que tinha muita necessidade de ser consolada e relançada ao porvir, consciente de suas responsabilidades no âmbito da Igreja universal”.
Com as vítimas de Abusos
Com imensa comiseração pelos dolorosos fatos acontecidos em parte do clero, o Papa recebeu amavelmente um grupo das vítimas dos abusos sexuais, dando-lhe o total apoio e necessário amparo espiritual, enquanto condenou categoricamente os erros cometidos por aqueles sacerdotes infiéis. Já havia afirmado antes em entrevista aos jornalistas no avião, que os verdadeiros culpados seriam excluídos do clero e que a Igreja, positivamente, não admite pedófilos.
Um analista social escreveu: “Foi como se este gesto extraordinário tivesse dado luz verde a uma onda de apreço e simpatia por um homem que chegou aqui não só como Sumo Pontífice e mestre autorizado, mas também e, sobretudo como Pastor compassivo de seu povo. Nenhum aspecto da visita papal foi mais comentado nos meios de comunicação social do que este encontro com as vítimas dos abusos, baseado na oração e no apoio”.
Com os Universitários
No encontro com o mundo acadêmico das Universidades Católicas, talvez o centro da mensagem esteja neste trecho : “A identidade de uma Universidade ou de uma Escola católica não é simplesmente uma questão de números de alunos católicos. É uma questão de convicção – acreditamos realmente que somente no mistério do Verbo encarnado se torna verdadeiramente claro o mistério do homem? (cfr Gaudium et spes, 22). Estamos realmente prontos a confiar o nosso ‘eu’, por inteiro – intelecto e vontade, mente e coração – a Deus? Aceitamos a verdade que Cristo revela? Em nossas universidades e escolas, a fé é tangível? Atribuímos a ela fervorosas expressões na liturgia, nos sacramentos, mediante a oração, os gestos de caridade, a solicitude pela justiça e o respeito pela criação de Deus? Somente deste modo nós damos realmente testemunho do sentido de quem somos e do que defendemos.”
O testemunho de uma estudante , Margareth Keller, pode traduzir , ao menos em parte , os efeitos desta atividade : “A visita do Papa criou uma espécie de união entre os estudantes. Inclusive os que não são católicos se envolveram. Também impulsionou a fé dos que são católicos, enquanto também conseguiu que nós lêssemos mais os escritos do Papa.”
Com os Judeus
Bento XVI visitou a Sinagoga de Nova York, quando cumprimentou com comovente afeto o Rabino local , nas alegrias pascais que unem, nestes dias , Judeus e Cristãos . Na ocasião , ressaltou mais uma vez o valor da virtude da esperança , afirmando: “Cristãos e judeus compartilham esta esperança; de fato, como dizem os profetas, nós somos ‘prisioneiros da esperança’. Este vínculo permite-nos, a nós cristãos, celebrar ao vosso lado, embora a modo nosso, a Páscoa da morte e da ressurreição de Cristo, que vemos como que inseparável de vós mesmos, pois o próprio Jesus afirmou: ‘A salvação vem dos judeus’.”
Com os não católicos
Celebrou ecumenicamente com cristãos de outros credos , num gesto de profundo amor a Cristo recordando o dever de todos em defender a cultura da solidariedade , da autêntica fraternidade , da justiça , do amor , princípios básicos da fé cristã, e em combater uma sociedade ateísta e materialista tão presente no mundo de hoje . Os valores do diálogo na busca da unidade perdida são insuperáveis .
Na Organização das Nações Unidas
Na visita à Assembléia da ONU, discursou parte em francês e parte em inglês , ressaltando os inalienáveis valores da instituição no que tange promover a concórdia entre as nações , a superação de conflitos , a busca conjunta do bem comum e a defesa dos direitos humanos . Sobre este ponto , disse: “No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, a necessidade da solidariedade global é mais urgente do que nunca...”. “A promoção dos direitos humanos permanece a estratégia mais efetiva para eliminar desigualdades entre países e grupos sociais, e para aumentar a segurança”.... “O mérito da Declaração Universal é que tem permitido a diversas culturas, expressões jurídicas e modelos institucionais a convergir um fundamental núcleo de valores, e, portanto, de direitos”.
Antes de partir, já no aeroporto, o Papa voltou a referir-se ao feliz encontro na ONU, com palavras de agradecimento “por tudo o que a Organização conseguiu realizar para defender e promover os direitos fundamentais de todo homem, mulher e criança em qualquer parte do mundo, e [portanto] incentivo a todos os homens de boa vontade a continuar esforçando-se sem cessar na promoção da coexistência justa e pacífica entre os povos e as nações”.
Com os jovens
Um dos momentos mais fortes foi, sem dúvida , seu encontro com os jovens - alguns portadores de deficiências físicas - sábado , no Seminário São José de Nova York. Ali o Papa falou-lhes sobre assuntos acadêmicos , de grande profundidade filosófica, demonstrando a necessidade de a juventude não se deixar levar pelos enganos do relativismo atual que compromete a busca objetiva da verdade . O Papa que viveu sob o os horrores do nazismo e presenciou a opressão do totalitarismo comunista , partilhou, com objetividade a experiência de seus anos de juventude que, como disse, “foram arruinados por um regime funesto que pensava ter todas as respostas; sua influência cresceu – infiltrando-se nas escolas e nos organismos civis, assim como na política e inclusive na religião – antes que se pudesse perceber claramente que era um monstro”... “Declarou Deus como proscrito, e assim se fez cego a tudo que é bom e verdadeiro. Muitos dos vossos pais e avós devem ter vos contado sobre o horror da destruição que aconteceu depois. Alguns deles, de fato, vieram para a América precisamente para escapar desse horror.”
No local das Torres Gêmeas
Bento XVI comoveu os americanos e o mundo na oração que fez no Ground Zero , quando rezou pelas mais de 3 mil vítimas do atentado das Torres Gêmeas e pelos seus familiares a quem o ato representou significativo conforto . Um jornalista, ao ver o Papa em profunda oração, comentou: “Contemplando essas imagens foi difícil conter as lágrimas com a lembrança da terrível destruição daquele dia de violência. Mas também estava claro que o Papa, com sua presença e sua solicitude, promoveu um processo de cura, também na dor e na perda”.
No momento final da viagem, ao se despedir no aeroporto, o Papa confessou o quanto lhe marcou o coração a visita que havia realizado pela manhã ao Ground Zero com estas palavras: “Esta visita permanecerá profundamente gravada em minha memória”.
Duas Grandes Celebrações Eucarísticas
O Santo Padre celebrou duas missas com as multidões , ambas com os estádios super lotados, a primeira em Washington, no Nationals Stadium e a outra em Nova York no estádio de beisebol dos Yankees. Nestas liturgias, quis encher de ardor os católicos, leigos e ordenados a prosseguirem na busca de vivenciar sempre mais intensamente o evangelho do Senhor, ensinando que isso “significa superar toda separação entre fé e vida, opondo-se aos falsos evangelhos de liberdade e felicidade”. Sobre a relação política e fé, alertando para o excesso na compreensão do termo “governo laico”, afirmou que vivenciar o evangelho “quer dizer também rejeitar a falsa dicotomia entre a fé e a vida política, pois, como afirmou o Concílio Vaticano II, ‘nenhuma atividade humana, nem sequer nos assuntos temporais, pode subtrair-se à soberania de Deus... Isso quer dizer esforçar-se para enriquecer a sociedade e a cultura norte-americana com a beleza e a verdade do Evangelho, sem jamais perder de vista essa grande esperança que dá sentido e valor a todas as outras esperanças que inspiram nossa vida”.
Exortou os americanos para que sejam sempre “um povo da alegria, arautos da esperança que não defrauda, nascida da fé na Palavra de Deus e da confiança em suas promessas”.
O Retorno à Sede de Pedro
Por fim, ao tomar o avião de regresso no aeroporto John Fitzgerald Kennedy, dia 20, se despede oficialmente do Vice-Presidente Dick Cheney e de mais 3.200 pessoas que se fizeram presentes ao ato, demonstrando a simpatia do povo norte americano pelo Sucessor de Pedro.
Em suas palavras de despedida, após os agradecimentos a tantos que o acolheram, quis dar uma última palavra de alento à Igreja local nos seguintes termos: “Com grande afeto, saúdo mais uma vez os sacerdotes e religiosos, os diáconos, os seminaristas, os jovens e todos os fiéis dos Estados Unidos, e vos alento a perseverar, dando um alegre testemunho de Cristo, nossa esperança, nosso Senhor e Salvador ressuscitado que renova todas as coisas e nos dá a vida em abundância”... “Rezo por todos nos Estados Unidos, realmente por todo mundo, para que o futuro traga uma maior fraternidade e solidariedade, um crescente respeito recíproco e uma renovada fé e confiança em Deus, nosso Pai que está no céu”.
Como conclusão, destacam-se as palavras de Dick Cheney com vários elogios à pessoa do Pontífice, entre as quais se pode destacar uma espécie de título conferido ao visitante: «mensageiro da paz e da justiça». O Vice afirmou que “esta semana foi memorável para os americanos” e pediu ao Papa que tenha seu País presente em suas orações.
Significativas foram as palavras ouvidas pelo Pe. Lombardi, por parte de um norte-americano que se encontrava presente: “há alguns anos, não teríamos podido imaginar que uma das máximas autoridades de nosso país pronunciasse palavras de tanto elogio sobre o chefe da Igreja Católica.”
Ao se despedir, o Papa deixou atrás de si uma Igreja renovada que soube enfrentar as difíceis situações com espírito de penitência, fé e esperança, e prosseguir o caminho, movida pela força que vem do alto, na alegria de saber que o bem sempre prevalece onde Deus está presente.
Talvez uma frase de São Paulo ilustre bem o resultado feliz desta viagem apostólica: “Não vos deixeis vencer pelo mal, mas, antes, vencei o mal pelo bem” (Rom.12,21).
Certamente há uma mística profunda, uma resposta amorosa do Ressuscitado à Igreja presente nos Estados Unidos, na forma com que o Papa concluiu sua peregrinação, ao subir as escadas do avião: “God bless America!” (“Deus abençoe a América”).
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí-SP – 24 abril de 2008 |
Quaresma: tempo de defender a vida
06.02.2008
“Lembra-te pó, que tu és homem e que em homem te tornarás”.
Com este trocadilho de Padre Antônio Vieira, seria interessante marcar nossa reflexão quaresmal de 2008. Faço a proposta porque justamente no dia 6 de fevereiro , que no presente ano coincidiu com a quarta-feira de Cinzas , comemorou-se o quarto centenário do nascimento deste extraordinário pregador da Palavra de Deus , nascido em Portugal, mas que viveu por muitos anos no Brasil, aqui morrendo no ano de 1697. Padre Antônio Vieira deixou uma extensa obra de seus sermões que constituem, hoje, um extraordinário patrimônio das literaturas brasileira e portuguesa.
O trocadilho de Vieira nos ajuda a entender bem o significado das cinzas na abertura da quaresma e está, de certa forma, relacionado com o tema da Campanha da Fraternidade deste ano: fraternidade e defesa da vida, com o lema Escolhe, pois, a vida! (Dt. 30,19).
O grande Vieira, ao pregar o Sermão na quarta-feira de cinzas de 1672, na Igreja dos portugueses em Roma, não quis tanto recordar que saímos do pó da terra e para ele voltaremos, mas desejou muito mais imprimir nos corações dos fiéis a esperança de uma vida nova, conquistada pela morte e ressurreição de Cristo. A reflexão leva a perceber a vida como algo sublime, superior e sagrado, que tem força de eternidade. Por isso ela deve ser defendida em cada ser humano e em toda a natureza.
Já estamos acostumados a ouvir a exortação, ao receber em nossas cabeças as cinzas: “Lembra-te, homem, que tu és pó e em pó te tornarás”, retirada do Livro do Gênesis, 3,19. Após o Concílio Vaticano II, adotou-se também uma fórmula alternativa que é: “Convertei-vos e crede no evangelho”, trecho extraído do evangelho de Marcos 1, 15. Tanto a primeira quanto a segunda asseveram ao fiel a necessidade de reconhecer a efemeridade da vida terrena, a necessidade de defender-se contra o pecado e contra todo tipo de mal e ainda de se preparar atentamente para a vida eterna.
Ao receber as cinzas, faz-se um ato de humildade para vencer a tentação do orgulho. Tu és pó, do pó da terra foste formado, voltarás para a terra, que te adianta seres orgulhoso, julgar-te melhor que os outros? Olha bem o teu fim, contempla antecipadamente a tua sepultura e não queiras, por ti mesmo, dilatar a tua vida terrena, pois a respeito de tua morte, nada sabes, nem o dia, nem a hora e nem a forma.
Tu, ó homem, que dominas as ciências, as letras e conheces, a cada dia mais, os espaços siderais; tu que entras nos meandros e recônditos mais misteriosos da ciência e perscrutas, cada vez mais perfeitamente, teu próprio organismo físico, não podes conhecer com exatidão o dia de teu fim. O futuro não pertence a ti. Lembra-te homem, que tu és pós e em pó te hás de tornar.
Mas é também verdade, que não és somente pó, nem és pó para sempre, pois não tens o destino da aniquilação com tua morte . A última palavra de tua vida não será ‘ morte ’e nem‘ fim ’. Algo novo e totalmente novo te espera. Escolhe, pois a vida! Defenda-a, promove-a, não permitas que predomine a cultura da morte, mas se implante e cresça a cultura da vida.
A tua quaresma será um tempo de silêncio, de severidade, de penitência, de renúncia, de circunspeção, mas não é prenúncio de derrota ou de desastre. Antes, é um caminho para a vitória total. Estrada em penumbra, em vias tortuosas, cujas curvas podem esconder surpresas e prantos, mas é real vereda de esperança e de certezas, pois andas com Deus que te criou e te salvou.
Por causa destas verdades, o grande Padre Vieira quis inverter a reflexão, pondo-se diante não do homem vivente, mas das cinzas de um antigo cadáver, do qual não se podem ver nem mais os ossos, e proclama convicto: Lembra-te pó, que tu és homem e em homem te hás de tornar.
A expressão vieiriana é uma eloqüente profissão de fé na vida, na ressurreição dos mortos , conquistada por Cristo na cruz para todos os que crêem, celebrada na Páscoa anual em todas as comunidades cristãs.
A cerimônia das cinzas nos introduz no tempo quaresmal, no qual devemos reforçar nosso hábito diário de conversão. Durante quarenta dias, nos propomos a entrar em clima de oração intensa, a jejuar, e a praticar mais a caridade. Oração, jejum e esmola são as três palavras tradicionais do tempo quaresmal desde os primórdios do cristianismo.
Observamos, assim, que as cinzas que recebemos na entrada da quaresma nos levam a rebaixar nossa cerviz e destruir nosso orgulho, passando a uma atitude positiva de olhar o outro como irmão e a vida como dom de Deus.
A quaresma não existe para si mesma, mas em vista da Páscoa. As cinzas não têm valor em si mesmas, mas estão postas em contraste com a exuberante luz da ressurreição. Se as cinzas são o resultado de um fogo que se apagou e de uma situação de frieza e escuridão, a luz é expressão natural de uma chama que crepitar e aquece, ilumina e alegra o caminheiro. Ao final de nossa existência terrena, ao ouvir a voz da trombeta angelical, o fiel que se santificou na oração, na penitência e na caridade , na consciência de sua imersão na morte redentora de Cristo , há de ouvir solene proclamação: “Lembra-te pó, que tu és homem e em homem te tornarás”, pois foste criado para viver e não para morrer . Escolhe, pois a vida!
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo Diocesano de Jundiaí |
Cultura da Vida e Cultura da Morte
20.02.2008
Temos que agradecer a Deus os imensos progressos da ciência em favor da vida, sobretudo a humana. Não será exagero dizer que, dos primeiros anos do século 20 para os tempos atuais, num arco de um centenário, a humanidade conquistou avanços tão grandes no campo científico, incluindo a área médica, que pode se falar hoje num outro mundo em relação àquele passado não longínquo. Os esforços dos cientistas são apreciados singularmente pela Igreja, como podemos ler na encíclica Fides et Ratio (A Fé e a Razão) de João Paulo II: “Não posso deixar de dirigir uma palavra também aos cientistas, que nos proporcionam, com suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes, animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O caminho por eles realizado atingiu, especialmente neste século, metas que não cessam de nos maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito deve do seu progresso atual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação característica e imprescindível da pessoa humana”.
Na verdade, os avanços científicos são uma realidade, mas não é menos verdade que a humanidade ainda não alcançou o mesmo progresso no campo da ética e, em certos casos, fala-se hoje de um regresso no que diz respeito à dignidade humana. A busca desta evolução é tarefa de todos, desarmados de qualquer preconceito e dotados de sinceridade nas pesquisas. Na mesma encíclica citada, podemos ler: “O cientista está bem cônscio de que a busca da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao Mistério.”
Os grandes desafios à vida, experimentados no mundo de hoje, são resultado de uma mentalidade, de certo modo, generalizada na sociedade, que apresenta sinais sensíveis de empobrecimento moral e ético. A Campanha da Fraternidade deste ano propõe uma reflexão: estamos progredindo na cultura da vida ou sucumbindo na cultura da morte?
Percebe-se que nem tudo que é possível à ciência é necessariamente bom. O texto base da CF faz a seguinte afirmação: “Percebemos que nem tudo que é possível é bom. Nem todas as possibilidades abertas pela ciência trazem o bem para as pessoas. A prática da ciência deve, portanto, submeter-se ao juízo ético, buscando sempre aquilo que é bom para o ser humano. Trata-se de buscar aquela lei natural que está “inscrita no coração do homem”. Contudo, deve-se ter em mente que essa lei natural, ainda que inscrita no coração, só pode ser adequadamente percebida na busca sincera pela verdade e com o reconhecimento da dignidade intrínseca da pessoa humana”.
Alguns projetos internacionais de limitação demográfica sem ética continuam ameaçando países em desenvolvimento, provocados por potências do norte. Leis favoráveis ao aborto, à eutanásia e a pesquisas científicas que resultam na morte de embriões humanos são pontos de discórdia entre aqueles que defendem a dignidade natural da vida humana e aqueles que, pouco a pouco, vão perdendo a sensibilidade a respeito da vida do outro.
Assomem-se a isto os grandes problemas da indústria e da engenharia bélicas que acaba alimentando a violência até mesmo onde parece existir paz. Entre os dados estatísticos assustadores, talvez o mais recente seja o número de assassinatos acontecidos no Brasil nos últimos 30 anos. A informação é o jornal O Estado de São Paulo, de 20 de janeiro passado: um milhão de mortes. Comparados a países que se encontram em guerra, em algumas partes do mundo, a cifra brasileira é no mínimo preocupante, pois ultrapassa o número dos que morreram em campos de batalhas. Como podemos dormir sossegados com este holocausto brasileiro? O crescimento da violência e da criminalidade no país tem sido tal que os governos federal, estaduais e municipais não têm conseguido o necessário controle, ou não têm ainda dado a devida atenção ao fato.
Entre a cultura da morte e a cultura da vida, a Campanha da Fraternidade, baseada na Palavra bíblica, procura o benefício de todos e diz “Escolhe, pois, a vida” (Dt.30,19).
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí-SP |
Por que uma campanha em defesa da vida?
25.02.2008
Não seria necessária . A vida se defenderia por sua própria natureza , se as pessoas não usassem mal seu direito de pensar e agir , seu livre-arbítrio , sua inteligência . A vida humana nos tempos atuais , contudo sofre grandes ameaças , pois a própria humanidade age contra si mesma por mais paradoxal que pareça a afirmação. Percebendo esta crescente e desafiadora, quanto não desastrosa realidade , mais de 600 mil assinaturas , recolhidas pela Pastoral Familiar , nos últimos anos , definiram a opção da CNBB para organizar a Campanha da Fraternidade de 2008, com o tema Fraternidade de Defesa da Vida , e o lema bíblico: “Escolhe, pois , a vida ” (Dt. 30,19).
As ameaças à vida são muitas, variadas e alarmantes . Desde as terríveis campanhas em favor do abortamento de crianças , até a eutanásia , passando pelas sérias dificuldades da desnutrição , fome , miséria , desemprego, falta de políticas públicas sérias e eficazes para a saúde da população , problemas ecológicos como o veloz desmatamento da Amazônia e outras áreas , a crescente insegurança da população diante do avanço da violência praticada nos centros urbanos e rurais , causando a morte de jovens , adultos , idosos e crianças , são , sem dúvida , problemas sérios sobre os quais a sociedade não pode deixar de se preocupar Campanhas internacionais , cujos reais interesses nem sempre são conhecidos da população , funcionam como forças ocultas que atentam contra a dignidade humana em busca de lucros desenfreados ou de ideologias massificantes e ditatoriais .
Na luta em favor da vida , a Igreja não se encontra sozinha , mas participa de uma grande movimentação comunitária da qual fazem parte cristãos evangélicos , grupos não cristãos , entidades civis, políticos , bancadas de parlamentares , magistrados , médicos , enfermeiros , farmacêuticos e profissionais de outras áreas , e ainda de vários movimentos que defendem os valores da família .
Embora a CF não tenha como objetivo ser apenas um mutirão contra a descriminação do aborto , reconhece ser esta uma das principais ameaças ao direito à vida , o primeiro de todos os direitos . Causam susto e pavor notícias de assassinatos de crianças já nascidas , seu abandono em lugares baldios , lagoas , rios , ou em um cesto de lixo , como vimos, horrorizados, na cidade de Várzea Paulista , há poucos dias . Como não causará horror pensar nos milhares de fetos despedaçados, destruídos com crueldade sejam nos abortamentos em clínicas clandestinas ou legalizadas? A incompreensível legação de aborto não diminuiria a gravidade do fato e nem lhe eliminaria o caráter criminal de infanticídio . Não há motivo algum que justifique o assassinato de uma criança e nem muito menos um genocídio . Num caso de gravidez resultante de violência ou estupro , o bebê não pode pagar com a vida o erro do agressor . Da vítima e da criança deve cuidar o Estado e a sociedade bem formada para a solidariedade , do agressor cuidará o Ministério Público .
O grande erro no qual em geral se cai é pensar no nascituro como um ser humano de menor valia , ou de menor dignidade . Se é humano , será sempre sujeito de direitos iguais e alguns especiais por estar na condição de indefensabilidade . O ser humano, seja em que fase for de sua existência , não pertence a outrem e nem ao Estado . É um ser em si , merecedor de proteção e digno de desenvolvimento . No caso de crianças , quem deve garantir este direito a elas são os adultos .
Os métodos contraceptivos artificiais tornam-se um grande problema em relação ao direito à vida . O legítimo planejamento familiar prevê a responsabilidade e o respeito pela vida do pai , da mãe e do filho e nunca poderá ser concebido como uma simples eliminação de nascimento sem critérios éticos .
Quanto à chamada ‘pílula-do-dia-seguinte’, a análise laboratorial demonstra ser abortiva na maioria dos casos e, portanto não se trata de um contraceptivo , mas de um veículo de abortamento químico . Além disto, médicos conceituados têm alertado para os efeitos colaterais seriamente danosos que este medicamento representa, incluindo a parada cardíaca , o que por si só deveria impedir sua prescrição médica .
A Igreja , fiel à Palavra de Deus , propõe a reflexão a todos , católicos ou não , cristãos ou não , pessoas de boa vontade e até mesmo àqueles que ainda não encontraram a Deus , mas que têm o senso da dignidade humana . Baseada na palavra de Jesus que disse “ Eu vim para que todos tenham vida e a tenham plenamente ” (Jo. 10,10), a proposta em favor da vida é oferecida em três níveis : a vida humana como tal , a vida cristã autêntica que deve ser praticada e a esperança da vida eterna .
O desejo de ouvir a Palavra de Cristo de forma integral e nunca parcial , marca a experiência das Campanhas da Fraternidade , possibilitando a imersão plena da pessoa no plano salvífico de Deus , único que lhe pode trazer completa realização .
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí-SP |
SPE SALVI, A CARTA DA ESPERANÇA EM TEMPO DE NATAL
No dia 30 de novembro passado, festa do Apóstolo Santo André, ante-véspera do primeiro domingo do Avento, o Santo Padre Bento XVI lançou sua segunda encíclica, com o título Spe Salvi, (Salvos pela Esperança). O tema nasce das primeiras palavras da citação da carta de São Paulo aos Romanos, 8, 24: É na esperança que somos salvos” (Rm 8,24)
A Esperança, sem dúvida, é das virtudes mais importantes e urgentes para o momento atual. Hoje, o mundo parece viver à cata de esperança, tateando sem saber bem onde encontrá-la. Ao lado da fé que aponta a realidade do futuro e a caridade que realiza no presente o que se espera alcançar em plenitude, a esperança é a realidade-motor da vida humana aqui e agora.
Ao lado do empolgante progresso das ciências, dos modelos sociológicos, de formas novas de organização política, da razão e da tecnologia encontra-se a pessoa humana diante de assustadores desafios que a tornam incapaz de solução à vista.
Crescem a violência, o materialismo, o relativismo, o hedonismo, o individualismo e o personalismo. Até correntes religiosas e seitas têm surgido para alimentar valores efêmeros e passageiros, como se a realização da pessoa humana estivesse presa unicamente aos bens materiais, no conforto, no bem estar ou em valores transitórios.
A vida, a morte e a eternidade são intrigantes perguntas para o homem moderno.
A Esperança tem lugar nos tempos modernos?
Todos que vivemos neste período da história, sob a égide da chamada pós-modernidade, ao ritmo dos primeiros passos do terceiro milênio, experimentamos uma sociedade em transição, de transformações radicais e rapidíssimas, permuta de valores e ameaças de desvalores. Afinal, vive-se num clima de mutações constantes e surpresas a cada dia, causadoras de entusiasmo e de insegurança ao mesmo tempo. Graças à inteligência dada aos seres humanos, a ciência e a técnica atingiram avanços jamais imaginados pelo homem do passado. E crescerão ainda muito mais. Tal progresso é positivo, porquanto possibilita aos humanos melhores condições de vida, contudo sem possibilidade de dar respostas à suas profundas indagações existenciais.
Permanece a pergunta sobre a sua esperança. Frente a tantas variações que a sucessão acelerada dos dias propõe, as pessoas buscam avidamente o sentido de sua vida e o fim último de sua existência. Há os que põem sua esperança no efêmero e se desiludem, ou se desesperam. Idealistas e ideólogos se entregam a esperanças que, a final, não podem ver realizadas plenamente.
O homem moderno tentou colocar sua confiança na pura razão e na ciência, prescindindo da fé. Esta ficou relegada ao âmbito individual, privado, como um direito concedido quase por piedade a quem deseja crer em algo transcendente. A esperança passou a ser identificada como o simples progresso. O Reino de Deus foi transformado em reino do homem. A razão e a liberdade são colocadas como contrastantes com a fé a Igreja.
Indicativos da encíclica
Nos capítulos da encíclica Spe Salvi, o papa Bento XVI propõe um estudo e uma análise sobre estes pontos. A matéria não pode preencher o vazio existencial, nem mesmo a ciência, nem a filosofia, nem a razão, nem qualquer outro elemento puramente terreno. É necessário que algo seja definitivo e revestido de durabilidade para não haver perigo de frustração. É já momento de se fazer uma autocrítica dos conceitos modernos, como também do cristianismo moderno que tomou nuances por demais individualistas.
Para auxiliar a reflexão das pessoas que buscam, com boa vontade e sem preconceitos, o bem final da existência humana o Papa dialoga com teorias de pensadores e filósofos como Santo Agostinho e Lutero, Karl Marx e Engels, Bacon e Emanuel Kant e Theodor Adorno.
As tentativas de buscar a realização humana excluindo a existência e a ação de Deus, acabaram por revelar falhas e fracassaram. Afinal, somente em Deus o homem pode repousar, como já afirmara Agostinho, no século quinto. O cristianismo oferece a forma de tornar humano o progresso e de não permitir que o reino do homem tenha um fim perverso. Não será a ciência e nem estruturas sociais que redimirão o homem, pois este só pode ser redimido pelo amor. O amor absoluto se encontra somente em Deus. Cristo é a revelação do “rosto” de Deus de forma a se tornar acessível ao homem a redenção.
Esperança escatológica
Na presente encíclica, Bento XVI oferece uma verdadeira lição sobre um argumento, sem dúvida, urgente: a escatologia. O que acontecerá ao homem depois de sua vida terrena? Onde e de que forma Deus satisfará a esperança do coração humano?
Spe Salvi indica a oração, o agir em favor do bem e até mesmo o sofrimento, tão descaracterizado de sentidos nestes tempos modernos, como lugares de aprendizagem e de exercício da esperança.
Maria, mulher modelo de esperança, é imagem da pessoa que sabe acolher a Deus em sua existência e, em acolhendo, abre portas para o Senhor entrar e dar sentido ao reino dos homens.
Esperar não é imaginar algo possível, mas aguardar uma realidade sobre a qual se tem certeza, sendo, contudo impossível perceber sua extensão, a não ser parcialmente.
Paulo, ao vislumbrar o futuro que se espera, escreveu aos Coríntios: Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam...(I Cor.2, 9-10). E esta realidade começa aqui.
A encíclica é constituída de um substancioso conteúdo para a meditação do tempo do Advento que indica, tanto a natividade histórica do Senhor, como a parusia como indicações de um tempo totalmente novo.
Feliz Natal, com muita esperança e paz!
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo Diocesano de Jundiaí |
SALVOS PELA ESPERANÇA
O Papa Bento XVI acaba de publicar sua segunda Encíclica. Com o título latino de SPE SALVI, o Sucessor de Pedro pretende contribuir com as pessoas na reflexão sobre a virtude da esperança, tão necessária no mundo atual de tantas contradições.
O que o texto diz pode ser resumido nos seguintes termos, em resumo feito pelo Pe. Wilson Angotti, assessor da CNBB:
A fé é esperança. (nº 1-3)
A convicção de que a vida não acaba no vazio é distintivo do cristão. Essa certeza do futuro modifica e orienta o presente. Assim, o evangelho não é apenas mera comunicação de uma verdade (informático), mas uma comunicação que muda a vida e lhe confere novo sentido (performático). Pela esperança de segura redenção nós podemos enfrentar as dificuldades que surgem durante nossa vida. Deus é a razão de nossa esperança.
O conceito de esperança baseada sobre a fé no NT e na Igreja primitiva. (nº 4-9)
Em Jesus, que supera a morte, nós temos o verdadeiro mestre da vida (imagem do filósofo, que ensina a arte de viver – presente nas lápides cristãs). É Jesus que nos acompanha naquela passagem (morte) em que ninguém pode nos acompanhar. Só ele pode nos amparar e dar esperança (imagem do pastor).
Pela fé, a totalidade da vida eterna e plena de alegria que esperamos já está, em gérmen, presente em nós (Hb 11,1). Jesus atrai o futuro de eternidade e vida plena, para dentro de nosso presente. A fé cristã é perpassada de esperança.
Por causa de nossa fé, nós não nos saciamos nem colocamos nossa segurança na posse dos bens terrenos (Hb 10,34). Ansiamos pela vida eterna. É necessário saber esperar, suportando pacientemente as provas (hypomone) para se obter os verdadeiros bens que nos foram prometidos (Hb 10,36). Omitir isso conduz à perdição (hypostole) cf. Hb 10, 39.
O que é a vida eterna? (nº 10-12)
No diálogo do antigo rito do Batismo se pedia a fé como dom que nos possibilita a vida eterna. Muitos, hoje, talvez rejeitem a fé porque a vida eterna não lhes parece atraente. Não querem a vida eterna, mas a presente. Para muitos, a vida eterna parece mais condenação que dom (parece fastidiosa, insuportável). O que é a vida eterna? A vida eterna que desejamos é a vida de plena felicidade. A isso somos impelidos, mesmo sem conhecer plenamente. Este desconhecido que nos impele é a verdadeira esperança.
A eternidade que anelamos não é sucessão monótona e enfadonha de dias, mas pode ser comparada ao desfrutar constante de um instante repleto de satisfação e alegria. Será algo que ninguém nos pode tirar (Jo 16,22). É isso o que visa a esperança cristã.
A esperança cristã é individualista? (nº 13-15)
A esperança cristã seria individualista se alguém, desconsiderando o mundo e suas misérias, se refugiasse na busca da salvação eterna. Isso foi presente à mentalidade de um tempo, marcando, sobretudo, a vida de mosteiros. Mas, mesmo na vida monacal, houve mentalidade diversa, como, por exemplo, Bernardo de Claraval, que considerava a busca da esperança cristã como uma maneira de contribuir para organizar e aperfeiçoar o presente. Isso se reverte em benefício de todos e supera qualquer individualismo.
A transformação da fé-esperança cristã no tempo moderno (nº 16-23)
Com o advento da era moderna, o homem quis recuperar o “paraíso” perdido prescindindo da fé e confiando na pura razão e na ciência. A fé ficou exilada ao âmbito privado e ultraterrestre. Crise da fé é crise da esperança cristã. Com isso, a esperança passou a se chamar progresso. O Reino de Deus foi relegado ao reino do homem. Progresso é considerado superação de todas as dependências e conquista da liberdade perfeita. Razão e liberdade, conceitos básicos da modernidade são apresentados em contraste com a fé e a Igreja. A ciência conduz à fé no progresso como nova forma de esperança humana. Porém, o homem não é apenas produto de condições estruturais e econômicas.
É necessário fazer uma autocrítica tanto da idade moderna como do cristianismo moderno, que se fechou sobre uma salvação individualista.
A fé cristã tem sua colaboração de modo a tornar humano o progresso, caso contrário o reino do homem pode ter um fim perverso (Ef 2,12). Razão e fé precisam uma da outra para realizar sua natureza e missão.
A verdadeira fisionomia da esperança cristã. (nº 24-31)
Não é a ciência nem são as estruturas sociais que redimem o homem. O homem é redimido pelo amor. Quando alguém conhece um grande amor, conhece um momento de “redenção”, que dá sentido novo à vida. É por um amor absoluto (não condicionado) que o ser humano é redimido.
Cada pessoa, unida a Cristo, amor absoluto, torna-se com Ele um ser para os outros e, assim, é superado toda e qualquer forma de individualismo.
Essa esperança não está em um além imaginário, mas já se faz presente quando o amor de Cristo nos alcança. É isso que não nos deixa perder a esperança num mundo que, por natureza, é imperfeito.
Lugares de aprendizagem e de exercício da esperança.
A oração como escola da esperança. (nº 32-34)
Mesmo que ninguém me escute, que a ninguém eu possa falar, que não tenha ninguém a quem recorrer e me sinta só, Deus me escuta, me socorre, me acompanha.
A oração é o exercício do desejo (Fil 3,13), que nos orienta, nos prepara para Deus e nos leva ao encontro dos outros.
Agir e sofrer como lugares de aprendizagem da esperança. (nº 35-40)
Toda nossa ação séria e reta é expressão de esperança, pois através de nossas ações, nós procuramos concretizar nossa esperança.
De nossa ação nasce a esperança para nós e para os outros; porém, ela logo se extinguiria se não fosse alimentada pela grande esperança que me faz superar as vicissitudes históricas.
Quanto ao sofrimento, podemos lutar contra ele, porém, não temos como eliminá-lo de nossa existência. Enfrentando os sofrimentos e as dificuldades, nós podemos nos exercitar na capacidade de aceitá-los e de neles amadurecer, unidos a Cristo; que pode ser encontrado também em meio a tais sofrimentos.
Quem não se compadece com o sofrimento do outro se desumaniza. A muitos hoje falta a compaixão por quem sofre porque não são capazes de lidar com os próprios sofrimentos. Fogem de problemas e de tudo que lhes possa causar desconforto. A capacidade de sofrer depende do gênero e da grandeza da esperança que trazemos dentro de nós.
O juízo como lugar de aprendizagem e de exercício da esperança. (nº 41-48)
A afirmação de nossa fé de que Cristo “há de vir a julgar os vivos e os mortos” nos faz ordenar a vida presente e ter esperança na justiça divina.
O ateísmo dos séculos XIX e XX é na verdade um protesto contra as injustiças que marcam o mundo e a história. Um mundo tão marcado pelo mal, injustiça e sofrimento, dizem, não pode ser obra de Deus.
Demonstrada a impossibilidade do mundo em fazer justiça, Deus assume o sofrimento humano e, pela ressurreição, garante que o sofrimento, o mal e a morte são “revogados” e a justiça é estabelecida. Desta forma, o juízo final é expressão de justiça.
-Desenvolve-se, nesse ponto, a reflexão sobre purgatório, inferno e paraíso, segundo a perspectiva cristã. (veja nº 44-46)-
Diante do Senhor que julga, ficará patente o que vale a obra de cada um (cf. ICor 3,12-15). Segundo o mesmo texto, percebemos que a salvação pode acontecer de diversas formas. Para alcançá-la é preciso atravessar, pessoalmente, o fogo, que pode ser entendido como o próprio Cristo: juiz e salvador. No encontro com Cristo se dá o julgamento; manifestam-se nossas inconsistências e tem lugar a graça de Deus.
O juízo é esperança porque é graça; o amor de Deus prevalece sobre todo mal que há no mundo e em nós.
Maria, estrela da esperança. (49-50)
As pessoas que souberam viver com retidão são verdadeiras estrelas, são luzes de esperança. Cristo é luz por antonomásia. Maria como aquela que com seu sim abriu a porta de nosso mundo para o Senhor é nosso exemplo e estímulo à nossa esperança. |
VITÓRIAS DA VIDA
Na semana que finalizamos, três fatos marcantes emergiram como expressivos sinais de vitórias na luta em favor da vida, contra investidas da cultura da morte, do desprezo da ética e do descuido com a dignidade humana.
O primeiro foi quando a 13ª Conferência Nacional da Saúde (CNS), reunida em Brasília, dos dias 15 a 18, com participação de mais de três mil delegados do Brasil inteiro, desaprovou a legalização do aborto, o que o Ministério da Saúde, com sua incompreensível campanha a favor do aborto por qualquer razão, não esperava. A posição da maioria dos membros é bastante significativa, pois se trata de uma Conferência laica, sem vínculo com nenhuma corrente religiosa, embora dela participem pessoas de vários credos, da forma que é constituído o povo brasileiro.
É, contudo, no mínimo curioso que abortistas inconformados tentem justiçar, relegando o fato à influência dos católicos, ou pessoas de outras correntes religiosas defensoras da vida. É preciso ficar claro que o assunto foi discutido com isenção de ânimos, de forma razoável, como afirmou o próprio presidente da CNS, Francisco Batista Junior. A maioria na CNS optou livremente pela vida e sua opinião naturalmente terá peso nos órgãos deliberativos, uma vez que estamos num País democrático. Durante a CNS ficou claro que, na campanha abortista, a ausência proposital do termo aborto, e sua substituição por eufemismos como interrupção da gravidez ou outros termos, resulta em engano para a maioria das pessoas, pois quando se fala de aborto a compreensão é imediata e direta o que não acontece muitas vezes com os eufemismos. É preciso trabalhar com transparência, pois a substituição dos termos exatos não modifica a gravidade do fato, mas apenas camufla o problema e não é boa medida governar por ilusão.
O segundo caso noticiado na semana foi o de Marcela, a menina anencéfala de Patrocínio Paulista, que completou um ano de vida, desafiando previsões médicas. A mãe havia sido aconselhada por médicos a interromper a gravidez no quarto mês, porque tinham certeza da morte imediata da criança. A mãe, Cacilda Galante Ferreira, por sua convicção de fé cristã, se recusou a fazer mal à sua criancinha e decidiu acolher com amor seu nascimento, disposta a dela cuidar da forma que viesse, sã ou doente, perfeita em seu físico ou não. Recentemente, interpelada por um jornalista, a mãe, com louvável maturidade humana e espiritual, declarou: “não me arrependo de nada. Cuido do meu anjinho como se fosse normal. Vai ser assim até quando Deus quiser”.
Atualmente, alguns médicos chegaram a julgar que o seu problema poderia não ser anencefalia, mas outro tipo de malformação cerebral. Mas, se isto fosse comprovado, o perigo de aconselhar o abortamento em caso de anencéfalos seria ainda mais grave, uma vez que este possível diagnóstico só teria sido encontrado após um ano de vivência da criança. Porém, a mídia já noticiou que precisos exames realizados nestes últimos dias comprovam o diagnóstico de anencefalia (cf. A Folha, 22/11/07 –C6).
Ao completar seu 1º aniversário, Marcela continua respirando normalmente, se alimentando, chora, sente dor, reage a estímulos, afinal vive como qualquer outro ser humano, dentro dos naturais limites de seus problemas.
O terceiro caso foi a notícia da comunidade científica a respeito de células-tronco tiradas da pele de adultos, com resultados tão favoráveis como as células embrionárias, o que indica serem desnecessários procedimentos que causem a morte dos embriões humanos. Tendo a descoberta sido realizada por cientistas japoneses e norte-americanos, o Presidente Bush comemorou com entusiasmo, reafirmando seu incentivo ao avanço científico dentro dos limites éticos. Da parte da Igreja, o Cardeal Rigali, Presidente do Comitê de Atividades Pró-vida, da Conferência Episcopal, assim se expressou: “Agradeço aos cientistas que assumiram o desafio de encontrar formas moralmente aceitáveis de realizar a pesquisa de células-tronco”.
E na Sede de Pedro, a Pontifício Academia para a Vida definiu como “momento histórico” da humanidade este das mais recentes descobertas a respeito das células-tronco adultas.
Viva a vida!
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
MARIA, DISCÍPULA E MISSIONÁRIA.
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Celebramos, no dia 15 de agosto, a festa da Padroeira da Diocese de Jundiaí, Nossa Senhora do Desterro. O tema escolhido para este ano foi “Maria, fiel discípula e missionária”, exarado do recente documento da 5ª. Conferência Geral do CELAM, realizada em Aparecida, no mês de maio último, aberta por Sua Santidade Bento XVI.
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O título ‘Desterro’ provém dos fatos narrados pelo evangelista Mateus, em seu capítulo 2, versículos de 12 a 23, onde se lê que, nas primeiras semanas após o nascimento de Jesus, sua mãe e José tiveram que fugir para o Egito, protegendo cuidadosamente o menino contra um ato de vandalismo institucional promulgado pelo rei Herodes, conhecido por ‘matança dos inocentes’.
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Os motivos da perseguição teriam sido, como narra o evangelho, os ciúmes políticos do rei Herodes, que embriagado pelo poder, se viu ameaçado pelas palavras dos Magos que vieram adorar o menino em Belém e o anunciaram, despretensiosamente, como Rei dos Judeus.
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Bastou isto, para que o rei e toda a Jerusalém (leia-se:seu staff governamental) entrassem em perturb' ação. Ouvidos seus conselheiros, decreta o criminoso edito mandar assassinar todas as crianças de dois anos para baixo em Belém e arredores. O fato, ou mesmo o significado figurativo se se tratasse de um midrash, traduz um ato de abuso de poder, expressão de política totalitarista e irresponsável (qualquer semelhança com governos abortistas não é mera coincidência).
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Mas como todo poder terreno é efêmero e passageiro, morrem Herodes e seus comparsas perseguidores e pôde, então, a Sagrada Família voltar para a terra da promissão com a criança intacta. O retorno traduz serenidade, paz, vitória de quem confia plenamente em Deus, que não falha em atenções para com seus filhos: "comprovado é seu amor para conosco, para sempre Ele é fiel”, como está escrito no Salmo 116.
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A mim me parece que o belo conjunto de esculturas barrocas da Sagrada Família da Catedral de Jundiaí, entre as quais figura a imagem da Padroeira, traduz exatamente a volta vitoriosa do Egito, pois podemos ver nos rostos de Maria, José e do Menino já crescido semblantes de alegria e paz artisticamente impressos pelo escultor anônimo do século XVII.
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Maria, com o título de Senhora do Desterro, é venerada justamente por aqueles que se encontram em situações difíceis, às vezes desesperadoras, ameaçados de terem que se desinstalar para encontrar meios de viver em paz, e por isso recorrem a Deus, pedindo proteção.
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Mãe bondosa, Maria intercede junto de seu Filho, como fez em Caná da Galiléia em favor de uma família, quando faltou vinho para a festa de casamento. A palavra de Maria, a quem busca sua bênção, é profética: “Fazei tudo o que Ele vos disser”(cf. Jo. 2, 1 - 12). Para quem procura a Deus, o Único que tem real poder, a vitória é certa, pois está escrito: “Confia ao Senhor os teus cuidados e Ele certamente agirá” (cf. Sl.136). Eis a força e a motivação para todo discípulo e missionário.
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Nos episódios da infância de Jesus descobrimos o significado de Maria na história e sua participação no mistério da Salvação. Maria foi a primeira a crer em Cristo. A ela, na individualidade de sua pessoa, foi comunicado pelo arcanjo Gabriel que seria a Mãe do Salvador; que o Espírito Santo lhe fecundaria o seio e que o Filho que dela nasceria seria Filho do Altíssimo. E ela acreditou. Assim, seu ato de fé em Jesus, Verbo Encarnado, se dá desde o primeiríssimo momento da concepção em seu seio virginal.
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Levantou-se a Mãe do Salvador como primeira da fila daqueles que no transcorrer da história acreditariam em Cristo Senhor. Maria nos precedeu na fé, por isso, podemos proclamá-la como primeira discípula, uma vez que a primeira atitude que se pede de um discípulo é que creia em seu Mestre. Tudo em Maria revela intimidade e fidelidade a Cristo. A intimidade a faz intercessora. A fidelidade a faz exemplo. A intimidade com Deus Filho é um dom gratuito de Deus Pai. A fidelidade é a resposta consciente daquela que acreditou, movida pela força do Espírito Santo.
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Na visita que Maria faz a Isabel, subindo o monte Aren Karen para servi-la, é saudada por sua prima com estas palavras: “Como pode vir a mim a Mãe do meu Senhor! Feliz és tu, Maria, porque acreditaste.”(cf. Lc.1,39ss). A fé assumida como dom do Alto e a fidelidade como resposta amorosa, especialmente nos momentos cruciais como os da fuga para o Egito, são modelares para todo discípulo e missionário.
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Maria pode ser apresentada como primeira missionária, anunciadora do Senhor, pois foi de seus lábios que a comunidade dos primeiros cristãos pôde ter informações sobre os mistérios da encarnação do Verbo, os anos da infância e certamente outros momentos importantes da vida de Jesus, possibilitando aos evangelistas fazerem com detalhes seus escritos. Na verdade, ninguém melhor que Maria poderia oferecer estas notícias, pois somente a ela foi dado conviver com Jesus, desde o momento da concepção até a morte na cruz e a ressurreição.
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Maria incorporava a comunidade dos primeiros cristãos que perseveravam na oração e na fração do Pão, como afirma o livro bíblico Atos dos Apóstolos.(cf. At.1 ss). Reunida com os Apóstolos no Cenáculo, recebeu com eles o Espírito Santo no dia de Pentecostes, marco inicial da Igreja.
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As notícias históricas, baseadas nos documentos dos primeiros séculos, dão conta de que Maria recebeu desde o começo verdadeira veneração por parte das comunidades cristãs, o que se pode comprovar através dos livros litúrgicos antigos, seja no ocidente como no oriente, que apresentam o nome de Maria nas anáforas das celebrações eucarísticas, sempre tidas como fonte e ápice da vida da Igreja de Cristo.
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Segundo o conceito eclesiológico, o missionário não é outra coisa senão aquele que leva Cristo às pessoas e as pessoas a Cristo, o que vemos realizado plenamente em Maria, inclusive nas cenas que nosso imaginário pode criar sobre as viagens de ida e retorno do Egito.
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Nossa Senhora do Desterro é a Mãe bondosa que a todos apresenta o seu Jesus, nascido para a Salvação e a Paz da humanidade, livrando-nos dos perigos, da perseguição e da morte eterna.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
Para que Serve o Dia de Finados?
No dia 2 de novembro, celebrou-se, mais uma vez, com intensa participação popular, o dia de oração pelos fiéis falecidos. A multidão que acorre aos cemitérios revela a fé, que nossa gente de formação cristã professa na vida eterna. Reza-se pelos mortos, não por causa da morte propriamente, mas porque se ama a existência e se crê que a vida não termina em um túmulo, mas vai muito além dele, nos mistérios de Deus.
A lembrança dos que morreram nos ajuda a refletir sobre a transitoriedade da vida e a necessidade de estarmos preparados para o nosso dia.
Os que têm a graça de crer em Cristo encontram no evangelho o sentido para a realidade da morte que a todos, inevitavelmente, recolhe e a resposta confortadora para situações de perda de entes queridos, às vezes em condições totalmente inesperadas.
Aos que não crêem na vida futura, a morte é terrível desespero e a existência neste mundo acaba perdendo a razão de ser.
O diálogo de Jesus com Marta e Maria, irmãs de Lázaro, morto havia quatro dias, esclarece a respeito do tema. Segundo a narrativa do evangelista João em seu capítulo 11, Cristo, sabendo do falecimento de seu particular amigo, vindo visitar suas irmãs em Betânia, encontra-as transidas pela dor. “Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”, interpela Marta e depois também Maria. “Teu irmão ressuscitará”, responde o Senhor. “Eu sei que ele há de ressuscitar no último dia”, diz Marta. Em seguida, ouvem o Senhor proclamar: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre”.
O episódio narrado na seqüência, pelo evangelista, sobre a oração de Jesus diante do túmulo de Lázaro e a revitalização de seu corpo é a demonstração da superioridade divina sobre as forças da morte. Lázaro, mais tarde volta a morrer, mas desta vez ressuscitará, não para este mundo, mas para a eternidade onde não há nem doença e nem morte, nem dor e nem sofrimento, nem dúvida e nem incredulidade. A ressurreição de Lázaro foi um ato de bondade do Senhor para que todos pudessem crer na ressurreição da carne.
Diante da sepultura de nossos finados, onde depositamos flores e acendemos lumes, oramos e somos fortalecidos pela certeza de que Deus nos criou não para morrer, mas para viver eternamente em seu lar paterno. Aos que crêem, diz Cristo: “Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, credes também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós. E, depois que eu tiver ido e vos tiver preparado o lugar, virei novamente (quando morrerdes), e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, estejais também.” (Jo.14,1-4).
Crer na ressurreição dos mortos e na vida eterna não é difícil. Nem é difícil vislumbrar a eternidade feliz, embora só saberemos perfeitamente como ela é quando lá estivermos, pois é um segredo carinhoso do Pai que nos ama. Pelo ciclo da vida humana que tem sua primeira fase na penumbra do ambiente intra-uterino e passa à claridade após o nascimento, podemos imaginar o que será a vida em Deus, na sua plenitude esplendorosa após a nossa ressurreição final. São Paulo, ao falar das moradas do Pai, descreve: “Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam” (II Cor. 2, 9).
Porém, terrível é a palavra do Senhor para aquele que se recusa a acolher a Verdade e despreza o juízo final, sobretudo vivendo no egoísmo e na ganância, excluindo de sua vida o amor de Deus e os apelos dos pobres e dos sofredores: “Apartai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno preparado para os demônios e os seus anjos...” (Mt. 25, 41)
A oração pelos mortos que fazemos nestes dias seja estendida em benefício da atual sociedade para que esteja a serviço e favorável à cultura da vida e contrária à cultura da morte, pois fomos criados para viver e não para morrer. Fomos feitos para o paraíso.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
São Gil: Um Santo Desconhecido
Celebrando o dia litúrgico de São Gil a 1º de setembro, desejo fazer breve homenagem ao santo de quem, na pia batismal, tive a graça de receber o nome. Trata-se de um santo desconhecido da maioria da população brasileira, porém venerado e muito amado no sul da França e em outras partes da Europa.
Para cumprir um velho sonho, em julho passado, na peregrinação que fiz à Terra Santa, incluí no roteiro uma visita a seu santuário, na cidade de Saint Gilles, pequena urbs de não mais que vinte mil habitantes, na região francesa de La Provence, Diocese de Nîmes, nas proximidades de Avinhão. Posicionado sob uma colina, o lugar hoje é constituído de um arruado originariamente medieval, mas com adaptações modernas que lhe dão um agradável aspecto e oferece aprazível permanência aos visitantes. A Paróquia tem sua sede na igreja de estilo românico, construção do século décimo, contando hoje, portanto mais de mil anos. É uma arrojada edificação, toda em cantaria de pedras claras, realizada em dois níveis, guardando na navata inferior o túmulo do santo, aonde muitos peregrinos vão orar confiantes. Mas quem foi este santo de nome raro e história tão incógnita?
Gil, ou Egídio (são duas traduções do mesmo nome de origem helênica Aegydios) nasceu em Atenas, na Grécia, no século 6º, filho de uma família da estirpe real de quem recebeu desde a infância boa formação acadêmica e sólida instrução cristã. Em Atenas vivia tão intensamente sua fé, venerando de modo singular a graça batismal, dedicado à oração e à caridade, que ainda jovem tomou a fama de ser uma alma de Deus, um verdadeiro santo. Conta-se que certa vez, indo à igreja, encontrou um doente que pedia esmolas e atendeu-o com admirável amor, deu-lhe sua própria capa, enquanto rezava a Deus pelo alívio de seus sofrimentos, ficando o doente, de imediato, curado por Deus. O fato se propagou, outros se sucederam e crescia sua fama. Desejando muito ir a Roma ver o túmulo de Pedro e o Sucessor do Apóstolo, o fez piedosamente e não quis voltar para sua terra, a fim de fugir de qualquer honraria humana que pudesse manchar-lhe o espírito. Foi para Arles, no sul da França, onde viveu por dois anos em companhia de São Cesário, bispo da cidade. Depois, buscando a vida eremítica, ainda morou com o santo monge Veredômio por algum tempo, e em seguida escolheu viver numa gruta isolada, dedicando-se única e exclusivamente à vida de contemplação, estudo da Palavra de Deus e prática da caridade. Totalmente desapegado dos bens materiais, vivia o jovem em união com Deus, exemplar castidade e a acudir os pobres.
Para seu sustento diário, domesticou uma gazela de quem se nutria com o leite. Certo dia, o rei Wamba, caçando na região, sem saber da existência daquele homem de Deus, perseguiu aquele bom aninma que se refugiou na gruta aos pés do eremita. Uma flecha disparada pelo rei atingiu o venerando homem. O rei o encontrou na gruta envolto em seu hábito monacal, ferido com a gazela reclinada sobre os joelhos.
Em diálogo com o santo eremita, logo se pôs a respeitar e a admirar sua grande sabedoria e sua santidade pessoal. O rei passou a visitá-lo freqüentemente, e com sensível acatamento acolhia seus conselhos. Mesmo após a relutância do eremita, que nunca quis receber nenhum presente, o rei fez construir ali um mosteiro e insistiu com ele que fosse seu abade e iniciasse uma nova ordem monástica para acolher jovens e salvá-los da vida de perdição. Em humilde obediência, aceitou Gil ser ordenado sacerdote e, investido com a dignidade abacial, recebeu os primeiros monges que foram se multiplicando pelos anos seguintes.
Outro rei, chamado Carlos, também aprendeu a venerar a sua vida edificante. Certo dia, mandou chamá-lo em palácio e o recebeu com reverência. Pediu-lhe insistente e angustiadamente que rezasse pela sua salvação, pois havia cometido um crime que não tinha coragem de dizer a ninguém e nem mesmo a um confessor. Vendo-o apavorado e sem discernimento, pôs-se em oração pelas intenções do rei. No domingo seguinte, quando celebrava a Missa, Gil presenciou achegar-se um anjo ao altar e repor sobre ele um papel no qual estava escrito que, pelas orações do santo Abade Gil, o pecado do rei estaria perdoado, desde que se penitenciasse, se confessasse e não mais o repetisse. Entregou o papel ao rei que reconheceu o seu pecado, fez sua confissão sacramental e se converteu sincera e radicalmente.
Em meados do século 7º, veio a falecer aquele santo ancião e foi sepultado na colina de sua predileção, onde se encontrava sua gruta cujo local passou a ser venerado pelos seus monges e a gente da região.
Como a localidade se encontrava em ponto geográfico privilegiado da rota dos peregrinos que desciam do norte da Europa para irem à Terra Santa, e dos que subiam do sul para irem a São Tiago de Compostela, tornou-se o mosteiro de Saint Gilles lugar de parada, onde todos visitavam o túmulo de São Gil e se alimentavam da força de seus exemplos de santidade.
Por desígnios de Deus, mais tarde o mosteiro de São Gil, de espiritualidade beneditina, foi anexado a outro da região, permanecendo hoje a Paróquia conduzida pelos sacerdotes diocesanos que acolhem o povo local e os peregrinos.
São Gil é invocado em favor de pessoas que sofrem de angústia, medo, tristeza e, eu diria, depressão, além de casos de dificuldade de se confessar sacramentalmente.
Ali, naquela igreja abacial, no dia 2 de julho passado tive a graça de celebrar a Santa Missa, com o Pároco local, meus companheiros de peregrinação e o povo da comunidade, indo depois, cantar fervorosos o hino de São Gil ao redor de seu sepulcro.
De lá trouxe a bela oração que ofereço, reverente, ao leitor:
São Gil, tu soubestes acolher e fazer frutificar a graça de teu batismo.
Tu desejaste despojar-te de todos os teus bens e repartir com os necessitados.
Tu percorreste os caminhos que se tornaram para nós caminhos de peregrinação.
Na solidão e no silêncio procuraste Deus.
Com os pastores de Núria, veneraste Maria.
Monge e Abade, compartiste com teus frades a oração, o trabalho e a vida de fraternidade.
Hoje, tu nos acolhes junto de teu sepulcro.
Nós te pedimos: ajuda-nos a caminhar nos teus passos a cada dia.
Faze desenvolver em nós a graça do batismo.
Que nos tornemos peregrinos no cotidiano de nossas vidas, vivendo igualmente de silêncio, de oração, de partilha e de vida fraterna.
Que a busca de Deus nos impulsione nos caminhos do mundo. Amém.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
Tira as Sandálias, Pois este Lugar é Santo
A prática de rezar em lugares santos é usual no cristianismo desde os primeiros tempos. As peregrinações à Terra Santa , como as de Etéria, cristã européia do século 4º, além dos benefícios espirituais para a época , prestam ainda hoje excelente serviço à pesquisa histórica e são indispensáveis para a localização dos lugares por onde Jesus andou e onde se deram os primeiros eventos da Igreja na época imediatamente sucessiva à de Cristo . Etéria fez apontamentos diários utilíssimos para os trabalhos arqueológicos atuais .
Tive oportunidade de fazer , dias passados , três peregrinações que me resultaram em graças inestimáveis e contribuíram para o aprofundamento dos estudos bíblicos e religiosos . Comigo estavam um sacerdote e cinco seminaristas da Diocese de Jundiaí. Roma, Santuário de São Gil, na França e a Terra Santa compuseram a tríplice romaria .
Em Roma, visitamos o sepulcro de Pedro e participamos da Missa de 29 de junho , presidida por Sua Santidade Bento XVI. Na ocasião , cinco arcebispos brasileiros receberam o Pálio ( insígnia dos metropolitas) entre dezenas de outros vindos de várias partes do mundo . Celebrar a catolicidade , ou seja, a universidade eclesial, é algo que edifica e anima na vivência da fé .
Estivemos no sul da França, em lugar que a mim toca de forma especial . Trata-se da igreja abacial de São Gil, fundador de mosteiro do século 7º. São Gil, ou Egídio (trata-se de duas versões do nome latino Aegídius) faleceu no dia 1º de setembro do ano 721 ( ou 722), depois de uma vida de santidade , na contemplação de Deus . Era , a princípio , eremita , e ao ser ferido por uma flecha disparada involuntariamente pelo rei Wamba caçador, recebe daquele monarca a ordem de fundar a abadia . Hoje , ali se encontra a cidade de Saint Gilles, pertencentes à Diocese de Nimes. Ali pude rezar ao Santo cujo nome me foi doado na pia-batismal. Ao lado de Saint Gilles está, a 25 km , a cidade de Avinhão, onde a visita ao Palácio dos Papas ampliou conhecimentos sobre o importância histórica do século 14.
O ponto máximo da peregrinação se deu nos oito dias sucessivos , à terra de Jesus. Tendo passado pelo Monte Carmelo, onde celebramos a memória da Virgem Mãe de Cristo , e aprofundamos estudos sobre o Profeta Elias, nos dirigimos a Nazaré, onde o Verbo de Deus se encarnou no seio virginal de Maria. Foi emocionante caminhar nos mesmos caminhos percorridos pelo Menino Deus , por Maria e por José, nas escavações arqueológicas que puseram a lume os espaços daqueles tempos .
Em Caná, visitamos o local do primeiro milagre de Cristo , importante para se entender a doutrina da intercessão dos santos , pois o sinal f oi feito por pedido de Nossa Senhora .
Ponto de altíssima significação foi a visita ao lago de Tiberíades, onde se passou a maior parte da ação evangelizadora de Cristo . As escavações arqueológicas de Cafarnaum revelaram a casa de Pedro, sede de apoio à ação de Cristo na região . Tabga com antiqüíssimos restos de uma igreja já encontrada por Etéria no século 4º, recorda o local da multiplicação dos pães . O Monte das Bem-aventuranças com sua igreja octogonal é marco do que se encontra hoje nos evangelhos , sobretudo nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus , como um único sermão , mas que a exegese afirma ser muito mais uma composição de vários ditos de Jesus em ocasiões diversas que o evangelista reúne num único discurso .
Pessoalmente , fala-me de perto , por tratar-se de meu lema episcopal, o local comemorativo do primado de Pedro, celebrado hoje com a construção de uma Igreja feita pelos frades franciscanos em 1933, sobre as bases de uma outra igreja do século 4º, em cima da rocha aparente chamada “Mensa Domini”, situada à margem do lago . O local é venerado em referência ao sublime diálogo entre Cristo e Pedro: Pedro, tu me amas? Sim, Senhor, Tu sabes todas as coisas; Tu sabes que eu te amo ! (Cf. Jo, 21,17).
Porém o ponto culminante da peregrinação é Jerusalém. Sobre isto , trataremos no próximo artigo .
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
Nas Pegadas do Divino Mestre
Prosseguindo a descrição das emocionantes experiências na Terra Santa, trataremos hoje do ponto final e mais importante da peregrinação. Subindo de Jericó, situada a 250 m metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo, para o altiplano de 770 m acima do mesmo nível, entra-se na cidade santa de Jerusalém.
Ali se encontra o principal lugar para os cristãos, o mais histórico para os judeus e o segundo em importância para os muçulmanos. Lá se passaram os momentos de maior significação da vida e pregação de Jesus, sua paixão, morte e ressurreição.
Para os judeus, é a cidade onde reinou David, no ano 1000 a.C., além de guardar a rocha de Moriah, local em que Abraão, salvo por um anjo, quase sacrificou seu filho Isaac em oferta a Deus. Sobre este monte, Salomão construiu o suntuoso templo no ano 960 a.C. Este templo foi destruído pelos Caldeus em 587 a.C. por ordem do rei Nabucodonosor, foi reconstruído sem a pompa original por Zorobabel em 516 a.C, foi ricamente reconstruído por Herodes o Grande nos tempos de Jesus e teve sua destruição total no ano 70 d.C. pelo exército romano do Imperador Tito. Hoje, ali se encontra a Mesquita de Omar, califa dos árabes que conquistaram Jerusalém no ano 637 d.C.
Para os muçulmanos, o lugar é o segundo em importância - o primeiro é Meca, na Arábia - porque sobre aquela rocha teria Maomé tido uma experiência mística e subido por alguns instantes ao céu.
Para os Cristãos, embora o templo de Jerusalém seja lugar de várias importantes passagens do evangelho, tanto referentes à atuação de Jesus, como dos Apóstolos e de Paulo, o lugar mais importante da cidade santa é o Calvário, onde se deu a morte redentora de Cristo e sua ressurreição. Ali se encontra hoje uma enorme basílica de origem muito antiga, chamada pelos latinos de Santo Sepulcro e pelos gregos de Anástasis, isto é, lugar da ressurreição. A primeira construção foi feita por Santa Helena, mãe do Imperador Constantino no ano 326, sob o lugar venerado pelos cristãos desde o princípio.
No tempo de Jesus, este pequeno monte, de não mais de 10 metros de altura, de formação rochosa, ficava fora dos muros da cidade, onde se executavam condenados à pena de morte. Era chamado pelos judeus de Gólgota, o que significa ‘lugar da caveira’, porque tinha formato de um crânio, o que deu origem ao termo calvário no idioma português. Ali se ergueu a cruz de Cristo, pela condenação injusta de Pôncio Pilatos e pela incitação de judeus que não O aceitaram como Messias. Ali, a poucos metros do lugar da cruz, encontra-se o túmulo que José de Arimatéia ofertou para que Jesus fosse sepultado. Ali, o Senhor ressuscitou no terceiro dia seguinte, aparecendo a Maria Madalena e depois aos Apóstolos e outros seguidores seus. Ali o sangue redentor do Divino Mestre foi derramado para salvação da humanidade e o mundo foi recriado para que todos pudessem reencontrar o paraíso que o Pai preprarou para todos.
Para se chegar piedosamente ao Santo Sepulcro, há um antigo costume de ir em oração deste a Torre Antônia, residência oficial de Pilatos, onde Jesus foi condenado. Nas escavações arqueológicas, se descobriram, anos atrás, restos de pavimento que podem ser o chamado litóstrotos (calçada de pedras) no evangelho, onde Jesus foi flagelado e coroado de espinhos. Dali, se sai em Via-Sacra, por um caminho aproximativo do que percorreu Jesus, até chegar ao lugar da ressurreição. No percurso foram construídas, através dos tempos, 14 capelinhas recordando os últimos e dolorosos momentos da vida de Cristo, onde se pára, a fim de rezar e meditar. Destas 14 estações, 9 são bíblicas e 5 são oriundas da piedosa devoção popular, deduzidas das narrativas do evangelho, a saber, as três quedas, e os encontros com Maria e com a Verônica.
O trecho atual passa por vias públicas, às vezes cheias de comércio árabe, de pessoas que não crêem em Cristo, o que torna penosa a oração, recordando que também foi assim para Jesus quando levava a sua cruz, sob a insensibilidade dos que passavam e nele não criam.
Este percurso é aproximativo porque, depois dos fatos da Paixão de Cristo, Jerusalém foi destruída no ano 70, foi reconstruída de forma diversa por Adriano em 135 (este Imperador a chamou de Aelia Capitolina) e passou por transformações depois da invasão árabe. Porém, estudos históricos revelam ser este caminho bem próximo do original.
Em Jerusalém, Jesus, em criança, foi apresentado no templo, foi encontrado, aos doze anos, entre os doutores; curou doentes, cegos e paralíticos. Expulsou os vendilhões do templo, fez pregações contundentes, acolheu estrangeiros, como os gregos de Lucas 21,37-38, perdoou a pecadora pública de João 8, 2-59.
Em Jerusalém, Jesus entrou triunfalmente, pela Porta Áurea, para iniciar a Paixão com a qual nos salvou, como vítima expiatória. Lá, Jesus institui a Eucaristia, doce maná e eterno testamento, na última Páscoa que celebrou com os seus discípulos, na sala superior da residência de um amigo, hoje chamada Cenáculo. Neste mesmo lugar, nasce a Igreja com a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos e Maria, Mãe de Jesus. Dali, saem os discípulos imbuídos da força do alto, para irem por todo mundo, pregar o evangelho e batizar os que cressem, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Naquele santo lugar, iniciou o caminhar histórico da Igreja, a comunidade dos que crêem e procuram, humilde e corajosamente, seguir as pegadas do Divino Mestre, peregrinando nesta terra com os corações voltados para a Jerusalém Celeste que o Pai, desde a eternidade, preparou para todos os que o amam.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
BENTO XVI NO BRASIL
Chega ao Brasil, nesta quarta-feira, Sua Santidade Bento XVI. Ele vem em missão de paz, movido pelo seu múnus apostólico de evangelizador, sucessor de Pedro a quem o Senhor manda confirmar os irmãos na fé. O motivo final de sua visita é a abertura da 5ª Conferência Episcopal Latino Americana e Caribenha, que terá lugar em Aparecida nos dias 13 a 31 de maio, com o tema “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que Nele, nossos povos tenham vida. Jesus Caminho, Verdade e Vida”. O referido moto está em plena relação com o trecho do evangelho lido em toda a Igreja nesta 4ª semana da Páscoa, centrado na figura do Bom Pastor que diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”(Jo.11,10). Para cumprir este objetivo, quis o Papa vir com antecedência de quatro dias, para estar com os brasileiros, oferecer sua palavra de Apóstolo e abençoar a todos.
A intensa e exigente programação destes dias dão notas de como o Papa, octogenário, não mede sacrifícios para desempenhar seu ministério. Na tarde do dia 9, o avião que o traz pousará em Guarulhos e após protocolos de boas-vindas, vai de helicóptero para o Campo de Marte, na área central da cidade de São Paulo. Daí parte em carro aberto para o Mosteiro de São Bento. Da sacada da capela, dará ao povo sua primeira bênção.
Imediatamente depois, se encontrará fraternalmente com líderes de outras religiões e diversas denominações cristãs.
Dia 10, terá encontro com o Presidente da República, o Governador do Estado e outras autoridades no Palácio do Morumbi.
Às 18 horas, encontra a juventude no estádio do Pacaembu, de onde quer falar aos jovens do Brasil e do mundo, convocando-os à adesão firme e consciente a Jesus Cristo e confiando-lhes o futuro a que devem inundar com os princípios e as palavras do Mestre de Nazaré, único Salvador.
No dia 11, a grande concelebração no Campo de Marte terá como objetivo reunir os fiéis para a liturgia eucarística, centro da fé cristã, quando o Papa dará sua palavra à nação brasileira, anunciando Jesus Cristo Ressuscitado, modelo de vida e mestre que ensina os caminhos para a solução de todos os problemas humanos e sociais. Nesta missa, canonizará Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, oficializando assim que este nosso irmão viveu bem sua fé cristã e pode ser imitado nas suas virtudes, além de constituir-se, em Cristo, um intercessor no céu.
Na tarde daquele mesmo dia, o Bispo de Roma, Pastor universal, encontrar-se-á com os bispos do Brasil, reunidos na Catedral da Sé, para dar-lhes a saudação fraterna, a palavra de confirmação na fé, e orientações seguras no exercício da missão de evangelizar e de celebrar os mistérios de Cristo.
Seguindo para Aparecida, na manhã do sábado, já estará o Santo Padre junto aos dependentes químicos, na Fazenda Esperança, em Guaratinguetá. Deseja dar-lhes uma palavra de encorajamento a fim de que não continuem escravos dos psicotrópicos e do narcotráfico. Garantirá que para a libertação deste desatino, a Igreja lhes estende a mão. Sem dúvida, este gesto terá significação expressiva para o mundo inteiro na luta contra o maior problema das famílias nos tempos atuais, uso indevido das drogas gerador de inúmeros outros problemas.
O Papa quis ainda convocar especialmente os padres, religiosos e religiosas, seminaristas, noviços e noviças para a oração contemplativa do Terço que rezará na basílica de Nossa Senhora Aparecida com todo o povo, às 18 horas.
Domingo, às 10 horas da manhã, presidirá a Missa de Abertura da 5ª.Conferência, concelebrada pelos bispos delegados de todos os países da América latina e do Caribe, com a participação de bispos, presbíteros e diáconos do Brasil e de outras partes, além da multidão de cerca de 500 mil fiéis.
Voltando para a Sé Romana, o Sucessor de Pedro, aguardará as conclusões da 5ª.Conferência que serão submetidas à sua confirmação.
A visita do Papa é símbolo forte da presença de Cristo vivo entre seu povo, Bom Pastor que dá a vida pelo seu rebanho.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
AS PEGADAS LUMINOSAS DO PAPA
A passagem de Bento XVI pelo Brasil nestes dias foi uma grande bênção. Dos 12 pronunciamentos do Papa, dois se destacam para a missão específica dos Pastores: o da Catedral da Sé e o da abertura da V Conferência em Aparecida. São duas peças importantíssimas para o trabalho evangelizador no continente latino-americano e caribenho.
Na Catedral da Sé
Falando especificamente aos bispos do Brasil, tratou de variados pontos, mas como espinha dorsal verifica-se a missão específica da ação da Igreja que é anunciar Cristo explicitamente. “Nós, pastores, devemos ser fiéis servidores da Palavra, sem visões redutivas e confusões na missão que nos é confiada”, afirmou. “Não basta observar a realidade a partir da fé, é preciso trabalhar com o Evangelho nas mãos...sem interpretações movidas por ideologias racionalistas.”
Ficará sempre marcada sua palavra sobre a moralidade que hoje anda ameaçada. Nestes aspectos, recordou os valores cristãos da castidade, da fidelidade matrimonial e a defesa da vida humana desde seu início até seu término natural, condenando assim a legalização do aborto.
O Santo Padre pediu aos bispos uma posição crítica diante de certos meios de comunicação que combatem estes valores aos quais as famílias têm o direito de ver defendidos. Também não deixou de estranhar e convidar-nos a dar um ‘não’ explícito à corrupção política e de outros setores públicos que se tem verificado no País.
O Discurso de Aparecida
Sem dúvida, a peça mais importante de todas as suas falas foi o discurso de abertura da Conferência de Aparecida. Na leitura de um longo e substancioso texto, dividido em duas partes, entre as quais o Santo Padre, simpaticamente pediu um número musical, traçou as pistas orientativas para que as reflexões dos quase 200 bispos representantes dos países latino-americanos e caribenhos pudessem apontar novos caminhos, métodos e instrumentos de evangelização sem o perigo de se afastarem da fidelidade eclesial.
O Papa, analisando a realidade social, deu aos bispos-membros uma nova chave de leitura. Não se deve fazer evangelização puramente a partir dos dados sócio-políticos, mas a partir de Jesus Cristo. O contrário poderia comprometer a visão sobrenatural das coisas e cair no socialismo materialista. Porém, com isto não pretendeu dizer que os cristãos não devam ter preocupação com o social e participação nas questões políticas na busca de solução para os graves problemas humanitários, recordando, inclusive, a opção preferencial pelos pobres. A condenação explícita do marxismo e do capitalismo mostrou que de fato, há de se buscar uma reflexão teológica nova no continente americano, sem centralizar sua confiança em ideologias ou sistemas políticos e econômicos. Neste ponto, talvez o centro do discurso esteja neste trecho: “Na América Latina e no Caribe, como também em outras regiões, registram-se avanços em direção à democracia, ainda que existam motivos de preocupação ante formas de governos autoritários sujeitos a certas ideologias que pareciam superadas e que não correspondem à visão cristã do homem e da sociedade como ensina a doutrina social da Igreja. Por outro lado, a economia liberal de alguns países latino-americanos deve ter presente a eqüidade, porque continuam a aumentar os setores sociais que se vêem oprimidos cada vez mais por uma enorme pobreza ou até mesmo saqueados dos próprios bens naturais.”
Na expressão “ideologias que pareciam superadas” poder-se-iam encontrar todos os regimes totalitários do passado, como o nazismo, o fascismo e o comunismo. Quanto a isto, é providencial que tenhamos um Papa de 80 anos, em plena lucidez, que viveu pessoalmente os horrores do século XX, quando estes regimes causaram sofrimentos e morte a tantas famílias num tremendo drama contrário aos direitos humanos. Do alto de sua longevidade e de sua experiência vital, as novas gerações podem acolher uma mensagem: cuidado, não acreditem em todas as promessas políticas, ainda que atraentes, pois podem ser fantasiosas e acabarem realizando justamente o contrário daquilo que prometem. Infelizmente, na América Latina, sinais destes totalitarismos ameaçam certos países, com os mesmos perigos de um final desastroso como vimos na história recente em algumas regiões do mundo.
Aos jovens no Pacaembu e em Guaratinguetá
A palavra do Papa aos jovens no Pacaembu foi um excelente roteiro de vida. O Papa lhes falou de forma carinhosa, mas direta, sem meias palavras, com objetividade de um pai que busca o bem de seus filhos. Quando lhes falava de castidade, de fidelidade matrimonial, de responsabilidade, a resposta imediata dos jovens era um aplauso caloroso. Este discurso do Santo Padre deveria, sem dúvida, ser anexado à publicação do documento da 45ª.Assembléia da CNBB que tratou sobre o tema.
De tudo, talvez, o que mais imediatamente prático ficará da passagem de Bento XVI pelo Brasil será sua visita à Fazenda da Esperança. Ali ele pôde dar ao mundo um testemunho daquilo que a Igreja faz para defender a pessoa humana da escravidão dos entorpecentes. Se restar um pouco de consciência na mente dos que lucram com o comércio de drogas, pensarão na palavra do Sumo Pontífice: “Deus vai lhes exigir satisfações. A dignidade humana não pode ser espezinhada dessa maneira”.
A canonização de Frei Galvão foi um grande incentivo para que sejamos também santos.
A visita do Santo Padre ao Brasil veio mostrar aos brasileiros o seu verdadeiro rosto, destruindo as caricaturas que alguns, infelizmente, se deixando levar por preconceitos, fizeram de sua pessoa desde sua eleição ao sólio pontifício.
Sem dúvida, é gratificante ver palavras e gestos de grande simpatia emitidos por pessoas de outros credos cristãos e até mesmo não cristãos, que analisando com espírito descontraído, inteligente e gentil, destacaram o benefício incalculável desta visita em favor da dignidade humana, dos valores religiosos, morais e socais, às vezes tão ameaçados hoje.
Os doze discursos do Papa no Brasil permanecerão como pegadas luminosas que nos ajudarão a caminhar por muito tempo.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
A CONFERÊNCIA DE APARECIDA
Terminou 5ª-feira, 31 de maio, em Aparecida, a 5ª Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho que teve início dia 13, com a presença do Papa Bento XVI. Depois de empenhativo trabalho das comissões, foram aprovados dois textos de grande importância para a vida da Igreja neste continente. Um menor que é uma mensagem à população e outro mais extenso que tem caráter de Documento. Este último será apresentado, dia 11, ao Papa para a devida aprovação, antes de ser publicado.
Visitei Aparecida 2ª feira passada, quando pude estar com vários bispos do Brasil e de outros países. Fui a propósito de encontrar o amigo Dom Cláudio Hummes e conversar a respeito da Congregação para a Educação Católica para a qual fomos, há poucos dias, nomeados pelo Santo Padre Bento XVI e avistar-me com o Senhor Núncio Apostólico para manifestar os agradecimentos.
Na referida visita, recebi dos irmãos bispos felizes comentários sobre o andamento da Conferência.
O trabalho de redação que girou em torno do tema “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nossos povos, nele, tenham vida” obedeceu a um novo método baseado no tradicional ver-julgar-e-agir, mas modificando-o, pois, na verdade, já se torna um pouco envelhecido. Na análise geral da realidade, nesta nova modalidade da Conferência, não prevalece a visão puramente sociológica, mas prima por um olhar que parte da fé. São discípulos de Cristo que vêem a realidade e não simplesmente sociólogos. Assim sendo, entram nesta visão global, além dos aspectos das relações e dos problemas sócio-econômicos, também os aspectos culturais, religiosos, históricos etc. O novo esquema tenta corrigir possíveis problemas que podiam levar à ideologização da fé. Um ver unilateral e fixista facilmente resulta em respostas já previstas, com o perigo de instrumentalização da Palavra de Deus para justificar posições ideológicas.
Os Bispos, em Aparecida, se preocuparam muito mais em enxergar a realidade com olhos de Pastores que simplesmente fazer análises sócio-econômicas. A missão do Pastor é dar subsídios para que cada fiel se sinta perpétuo discípulo do Senhor, ou seja, perene aprendiz das lições do Mestre, com experiência de convivência pessoal e amorosa com Ele e dele se torne fiel missionário.
A preocupação dos Bispos está em consonância com palavra de Bento XVI, no discurso de abertura, quando questionou sobre o conceito de “realidade”. Na América Latina e no Caribe, uma extensa história da fé cristã resulta numa sociedade com características próprias que devem ser levadas em consideração nas análises. Pergunta o Papa: “O que é real? São realidades somente os bens materiais, os problemas econômicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das tendências predominantes no último século, erro destruidor, como demonstram os resultados tanto do sistema marxista quanto também dos capitalistas. Falsificam o conceito de realidade com a deturpação da realidade fundante e por isso decisiva, que é Deus”. E asseverou em seguida: “Quem exclui Deus do seu horizonte falsifica o conceito de realidade.”
O Documento de Aparecida não pretendeu ser longo como o da Conferência de Puebla de 1978, mas tem bom espaço em seus 10 capítulos e 118 páginas, para que os problemas sejam julgados à luz da missão específica da Igreja.
Nesta visita que tive ocasião de fazer a Aparecida, pude saber que o clima entre os membros da Conferência era de grande fraternidade e cordialidade, mesmo com tendências particulares muito naturais entre irmãos que buscam, autenticamente, serem fiéis à missão.
Pela mensagem publicada ao final da Conferência, podemos perceber que novos caminhos e novo ânimo surgem para os cristãos da América-Latina e no Caribe em seus trabalhos pastorais. O que se espera é que nos irmanemos para formar um povo de discípulos e missionários a fim de que todos, em Cristo, tenham vida plena e seja criado um mundo novo de justiça, paz e solidariedade a partir do amor primordial e central a Deus.
15 de maio de 2007 |
CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA
para os Seminários e as Instituições de Estudos
Prot. N° 775/2007
Roma, 4 de maio de 2007.
Excelência Reverendíssima,
é com particular satisfação que nos apressamos em transmitir-Lhe o documento anexo, com o qual o Santo Padre quis incluí-Lo entre os Membros da Congregação para a Educação Católica para o próximo qüinqüênio.
Enquanto Lhe exprimimos os nossos sentimentos de alegria pela Sua nomeação, estamos certos de poder contar com a experiência, com a competência e com a disponibilidade de Vossa Excelência para promover eficazmente um setor tão importante na vida da Igreja como aquele dos Seminários, das universidades, das Escolas Católicas e das Vocações. Temos conhecimento do interesse que Vossa Excelência sempre cultivou para os problemas educativos.
Informamos-Lhe, portanto, que este Dicastério será contente desde já em receber qualquer sugestão que retivesse oportuna, para que o nosso trabalho resulte útil para toda a Igreja.
Aproveitamos, de bom grado, a circunstância para estender-Lhe os votos do nosso distinto obséquio, com o qual nos confirmamos devotíssimos no Senhor.
de Vossa Excelência Reverendíssima
Zenon Cardeal Grocholewski – Prefeito
Mons. A. Vincenzo Zani – Secretário.
A Sua Excelência Reverendíssima
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí - SP |
Tradução do Documento em Latim
SECRETARIA DE ESTADO
Sumo Pontífice
BENTO XVI
Inscreveu no rol dos Membros da Congregação para a Educação Católica para o próximo qüinqüênio, o Reverendíssimo Senhor
GIL ANTÔNIO MOREIRA.
Isso leva-se ao conhecimento do Reverendíssimo Senhor Moreira, para que a ele possa oportunamente agir de acordo com as normas correspondentes a essa nomeação.
Da Cidade do Vaticano, 24 de abril de 2007.
Tarcísio Card. Bertone
Secretário de Estado
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SECRETARIA STATUS
Summus Pontifex
BENEDICTUS XVI
Membris Congregationis de Institutione Catholica ad quinquennium ascripsit
Reverendissimum Dominum
AEGIDIUM ANTONIUM MOREIRA
Id in notitiam ipsius Reverendissimi Domini Moreira perfertur, ut ea de re opportune certior fiat ad eiusdemque normam se gerat.
Ex Aedibus Vaticanis, die XXIV mensis Aprilis anno MMVII.
Tharsicius Card. Bertone
Secretarius Status.
TIRA AS SANDÁLIAS, POIS ESTE LUGAR É SANTO.
A prática de rezar em lugares santos é usual no cristianismo desde os primeiros tempos. As peregrinações à Terra Santa , como as de Etéria, cristã européia do século 4º, além dos benefícios espirituais para a época , prestam ainda hoje excelente serviço à pesquisa histórica e são indispensáveis para a localização dos lugares por onde Jesus andou e onde se deram os primeiros eventos da Igreja na época imediatamente sucessiva à de Cristo . Etéria fez apontamentos diários utilíssimos para os trabalhos arqueológicos atuais .
Tive oportunidade de fazer , dias passados , três peregrinações que me resultaram em graças inestimáveis e contribuíram para o aprofundamento dos estudos bíblicos e religiosos . Comigo estavam um sacerdote e cinco seminaristas da Diocese de Jundiaí. Roma, Santuário de São Gil, na França e a Terra Santa compuseram a tríplice romaria .
Em Roma, visitamos o sepulcro de Pedro e participamos da Missa de 29 de junho , presidida por Sua Santidade Bento XVI. Na ocasião , cinco arcebispos brasileiros receberam o Pálio ( insígnia dos metropolitas) entre dezenas de outros vindos de várias partes do mundo . Celebrar a catolicidade , ou seja, a universidade eclesial, é algo que edifica e anima na vivência da fé .
Estivemos no sul da França, em lugar que a mim toca de forma especial . Trata-se da igreja abacial de São Gil, fundador de mosteiro do século 7º. São Gil, ou Egídio (trata-se de duas versões do nome latino Aegídius) faleceu no dia 1º de setembro do ano 721 ( ou 722), depois de uma vida de santidade , na contemplação de Deus . Era , a princípio , eremita , e ao ser ferido por uma flecha disparada involuntariamente pelo rei Wamba caçador, recebe daquele monarca a ordem de fundar a abadia . Hoje , ali se encontra a cidade de Saint Gilles, pertencentes à Diocese de Nimes. Ali pude rezar ao Santo cujo nome me foi doado na pia-batismal. Ao lado de Saint Gilles está, a 25 km , a cidade de Avinhão, onde a visita ao Palácio dos Papas ampliou conhecimentos sobre o importância histórica do século 14.
O ponto máximo da peregrinação se deu nos oito dias sucessivos , à terra de Jesus. Tendo passado pelo Monte Carmelo, onde celebramos a memória da Virgem Mãe de Cristo , e aprofundamos estudos sobre o Profeta Elias, nos dirigimos a Nazaré, onde o Verbo de Deus se encarnou no seio virginal de Maria. Foi emocionante caminhar nos mesmos caminhos percorridos pelo Menino Deus , por Maria e por José, nas escavações arqueológicas que puseram a lume os espaços daqueles tempos .
Em Caná, visitamos o local do primeiro milagre de Cristo , importante para se entender a doutrina da intercessão dos santos , pois o sinal f oi feito por pedido de Nossa Senhora .
Ponto de altíssima significação foi a visita ao lago de Tiberíades, onde se passou a maior parte da ação evangelizadora de Cristo . As escavações arqueológicas de Cafarnaum revelaram a casa de Pedro, sede de apoio à ação de Cristo na região . Tabga com antiqüíssimos restos de uma igreja já encontrada por Etéria no século 4º, recorda o local da multiplicação dos pães . O Monte das Bem-aventuranças com sua igreja octogonal é marco do que se encontra hoje nos evangelhos , sobretudo nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus , como um único sermão , mas que a exegese afirma ser muito mais uma composição de vários ditos de Jesus em ocasiões diversas que o evangelista reúne num único discurso .
Pessoalmente , fala-me de perto , por tratar-se de meu lema episcopal, o local comemorativo do primado de Pedro, celebrado hoje com a construção de uma Igreja feita pelos frades franciscanos em 1933, sobre as bases de uma outra igreja do século 4º, em cima da rocha aparente chamada “Mensa Domini”, situada à margem do lago . O local é venerado em referência ao sublime diálogo entre Cristo e Pedro: Pedro, tu me amas? Sim, Senhor, Tu sabes todas as coisas; Tu sabes que eu te amo ! (Cf. Jo, 21,17).
Porém o ponto culminante da peregrinação é Jerusalém. Sobre isto , trataremos no próximo artigo .
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí-SP |
RELIGIOSIDADE E ARTE EM MINAS GERAIS
NO SÉCULO XVIII
As primeiras notícias da chegada da fé cristã na região hoje correspondente ao Estado de Minas Gerais deram-se no final do século XVI. A informação de que nos sertões haveria abundância de metais e pedras preciosas, levou, desde o início da colonização do Brasil, aventureiros portugueses a enfrentarem as montanhas, as matas virgens, a resistência de tribos indígenas e os segredos de um mundo desconhecido para conquistar o eldorado. Contudo, destes primeiros tempos, não há notícias de algum trabalho catequizador naqueles sertões habitados por povos nativos e nenhuma obra da arquitetura sacra tem origem naquele remoto período.
No século XVII, formam-se expedições mais organizadas, chamadas bandeiras, que eram grupos, às vezes numerosos, de mineradores com seus ajudantes, escravos ou livres, com familiares e muitas vezes com a presença de sacerdotes que tinham licença de altar portátil. Nas paragens quase sempre levantavam pequenas capelas ou ermidas ao redor das quais surgiram muitas povoações, origem de muitas cidades ou vilas dos tempos atuais. Assim foi, por exemplo, com a bandeira de Fernão Dias Pais Leme (1608-1681), sertanista e pesquisador que partiu de São Paulo em 1674, precisamente a 21 de julho, com enorme séqüito, incluindo a presença de um capelão, o Padre José Dias Leite, seu irmão, a busca de esmeraldas nos sertões mineiros. Passando por Taubaté, cidade ao norte paulista fundada em 1646, tendo atravessado a serra da Mantiqueira pela garganta do Embaú, alcançou, depois de longa jornada, o vale do rio São Francisco e adentrou o sertão até a região central dominada por vários povos indígenas. Faleceu, sem assistência religiosa, em Sumidouro, na região do Sabarabuçu, em maio de 1681, com a ilusão de ter realizado seus sonhos, mas posteriormente descobriu-se que as pedras verdes que encontrara eram turmalinas e não esmeraldas. Seus restos mortais foram transladados pelo seu filho Garcia Rodrigues para São Paulo, onde foi sepultado, com exéquias régias e grande presença do povo paulistano, no interior da capela do Mosteiro de São Bento, que o próprio Fernão Dias mandara, antes, construir. Seus restos mortais descansam em lugar de destaque, em frente à mesa de Comunhão. O sobrenome Bentink, de sua esposa, Maria Garcia Pais Bentink, é o inspirador do nome Betim, dado a uma das cidades hoje mais progressistas nas proximidades de Belo Horizonte, cidade aquela originária de uma pequena aldeia formada ao redor da capela de Nossa Senhora do Carmo, que a princípio teve o nome de Capela Nova.
Muitas cidades situadas hoje à beira da moderna rodovia que leva o nome de Fernão Dias e liga a capital paulista, São Paulo, à capital mineira, Belo Horizonte, seguindo aproximadamente a rota do bandeirante, tiveram seus fundamentos lançados pelos faiscadores e sertanistas, inclusive em afastamentos de até cento e cinqüenta quilômetros para dentro do sertão, seja à direita ou à esquerda da rota.
As capelas de então, em grande parte deram lugar a suntuosas matrizes de inspiração barroca, ou igrejas de Irmandades, Confrarias ou Ordens Terceiras florescentes em Minas, a partir do século XVIII, quando se descobriu ouro por volta de 1690. Tal é o caso, por exemplo, da cidade de Itapecerica, região antigamente chamada Conquista do Campo Grande da Picada de Goiás, no Sertão do Tamanduá, aonde chegou Lourenço Castanho Taques. Aí encontrando ouro num pequeno regato, deu início a um arraial onde foi construída uma capela em honra do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Por volta de 1740, pela incidência de muitos animais peçonhentos que lhes causavam perigo e resultavam em muitas mortes, os mineradores construíram também uma capela em honra do Abade São Bento de Núrcia, patrono contra os venenos ofídicos, a pouca distância da primeira que era situada num lugar chamado Arraial Velho. Este arraial e esta capela do Senhor Bom Jesus depois desapareceram. A florescente povoação ao redor da igreja de São Bento, com assistência espiritual de vários padres, teve foros de paróquia a 15 de fevereiro de 1757, desmembrada de São José Del Rei, hoje Tiradentes. Na atual cidade de Itapecerica, conservam-se quatro igrejas com projetos arquitetônicos do século XVIII, com características talhas de altares, sendo uma da Confraria do Cordão de São Francisco, uma da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e uma de Nossa Senhora das Mercês, além da já mencionada matriz de São Bento que, mesmo tendo sido terminada muito mais tarde, tem projeto setecentista.
O ouro foi descoberto nos sertões mineiros nos fins do século XVII, pelo sertanista Antônio Rodrigues Arzão, não propriamente minerador, mas caçador de índios que pretendia escravizar.
Em 16 de julho de 1696, teve início o arraial do Ribeirão do Carmo, onde Salvador Fernandes Furtado de Mendonça descobriu abundância de ouro, berço da cidade de Mariana, primeira capital mineira. Ali naquelas margens ribeirinhas e naquela data, levantou-se o considerado primeiro altar de Minas, pelo Padre Francisco Gonçalves Lopes. Bem próximo daquelas paragens, Antônio Dias de Oliveira encontrou, do outro lado das serras, ouro de cor mais escura a que chamou de ouro preto, nome posteriormente dado à próspera vila que se formou com o título de Vila Rica, logo se transformando em segunda capital de Minas Gerais. Poucos anos depois, em 1707, no arraial de Antônio Dias paroquiava o Padre Marcelo Pinto Ribeiro e já era também paróquia, bem próximo dali, a igreja de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, cujo pároco era Padre Francisco de Castro.
Coube a Manoel Borba Gato, da bandeira de Fernão Dias, prosseguir as expedições mineradoras, após a morte do velho bandeirante, associado a João de Siqueira Afonso, no vale do rio das Abelhas, mais tarde chamado rio das Velhas, e do rio das Mortes, onde hoje se encontra extraordinário acervo arquitetônico e artístico barroco a testemunhar o florescente movimento religioso de então. Cidades destas regiões como São João Del Rei, Prados, Tiradentes, Sabará, Congonhas do Campo e outros constituíram, a partir do século XVIII, exuberantes centros da religiosidade mineira fortemente marcada pela cultura barroca.
Em 1709, foi criada a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro que em 1720 é desmembrada em duas, formando-se a Capitania das Minas Gerais e a Capitania de São Paulo, cada uma com sua administração própria.
No campo estritamente eclesiástico, até então, todas estas regiões pertenciam à diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro que abrangia uma enorme extensão territorial desde o Rio Grande do Sul até a divisa com a Bahia e penetrava sertão a fora até os atuais estados de Goiás e do Mato Grosso, porém com pouca população de brancos e negros nestas regiões mais distantes. A região de Paracatu do Príncipe e adjacências pertencia ao bispado de Olinda.
Com a descoberta do ouro nos sertões mineiros, tal foi o desenvolvimento dos povoados que se verifica um extraordinário surto de esplendor urbanístico e religioso, provocado pela corrida de gente vinda de todas as partes do Brasil e de Portugal à busca de riquezas que o precioso metal amarelo prometia. Mariana, a menos de cinqüenta anos de sua fundação, é transformada em sede de diocese, pela bula Candor Lucis Aeternae, do Papa Bento XIV (1740-1758), aos 6 de dezembro de 1745, sendo seu primeiro bispo Dom Frei Manoel da Cruz (1745-1764) que tomou posse em 1748. Pela mesma bula, eram criadas a diocese de São Paulo e as prelazias de Cuiabá e Goiás.
Curiosa característica vai marcar a religiosidade mineira. A partir de 1711, o Governo Real proíbe a entrada de padres de clero regular e ordens religiosas nas regiões das minas, para não haver perigo de ingerência de um poder estrangeiro na administração extrativista e não se correr o risco de desvio do produto aurífero. Assim, o trabalho evangelizador e a gerência paroquial se dão por meio de sacerdotes seculares, remunerados pelo erário público, como rezava o regime de padroado que unia, com direitos e obrigações, os poderes temporais e espirituais na Corte e nas colônias. Algumas tentativas de presença de Ordens e Congregações Religiosas foram totalmente frustradas. Os jesuítas estiveram regendo o Seminário de Mariana por dois ou três anos, a pedido de Dom Frei Manoel, mas logo são obrigados a deixar o encargo por decisão do Reino português, anos antes da famigerada perseguição do Marquês de Pompal que os expulsou do Brasil em 1759. Desta forma é que não se encontram em Minas nenhum convento masculino ou mosteiro a não ser a partir do fim do século XIX, com exceção dos padres lazaristas, que em l820, por ordem de Dom João VI, assumiram o Colégio do Caraça, famoso estabelecimento que se tornou o símbolo do ensino acadêmico e da cultura humanística com reflexos para todo o Brasil. Assim mesmo, nos primeiros anos, eram apenas dois os padres que ali residiam, Padre Leandro e Padre Antônio Ferreira Viçoso, que depois foi nomeado 7º Bispo de Mariana (1844-1875).
Ao lado dos presbíteros ‘do hábito de São Pedro’, é forte a presença de Confrarias leigas, Irmandades e Ordens Terceiras que vão investir altas somas em construções e embelezamento de suntuosos templos que exigem o trabalho de numerosos artistas. As Ordens Terceiras Franciscana, Carmelita e das Mercês, bem como as Confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos são as que mais expressões tiveram nestas empresas. Outras igrejas de altíssimo nível artístico foram construídas pelas paróquias ou capelanias ou ainda como cumprimentos de promessas pessoais, como é o caso da matriz de Caeté, edificada em 1740 pelo virtuoso Padre Henrique Pereira, como retribuição a Nossa Senhora do Bom Sucesso pela proteção que lhe deu para escapar de uma terrível calúnia que lhe foi levantada e da qual ficou livre pela própria conversão dos delatores e pela evidência inconteste dos fatos. Da mesma forma, foi o famoso Santuário do Senhor Bom Jesus de Congonhas construído pelo ermitão Feliciano Mendes, entre os anos de 1757 e 1760, em paga de um voto que fez para recuperar a saúde, contratando os serviços do mestre Aleijadinho que ali deixou seu mais numeroso conjunto de obras.
O movimento arquitetônico e artístico-sacro vai gerando no século XVIII e XIX, em Minas Gerais, um número cada vez maior de oficiais da arte, como escultores em madeira e em pedra, entalhadores, policromadores, douradores, pintores, ourives e outros artesãos que trabalham com a prata e demais metais, além dos arquitetos, construtores, mestres de obra, mestres de cantaria e outros ofícios. Entre os escultores destaca-se o já citado grande Antônio Francisco Lisboa, conhecido pela alcunha de Aleijadinho e na pintura o laureado mestre Manuel da Costa Ataíde. |
O CLERO MINEIRO DO SÉCULO XVIII
Os padres mineiros do século XVIII ou eram formados em Portugal ou no Rio de Janeiro ou no Seminário de Mariana, fundado pelo seu primeiro bispo, Dom Frei Manoel da Cruz. Em Portugal, a Universidade de Coimbra constituiu um centro de divulgação das idéias iluministas. Respeitadas as diferenças e as proporções, vê-se nestas formações de lá e cá influência do movimento das luzes que marcou expressivamente o clero da época colonial. O iluminismo nascido na Inglaterra com Locke tem na França seu progresso e se espalha pela Europa e suas colônias. Em Portugal, conforme afirma L.Cabral de Moncada, o iluminismo teve expressão “essencialmente progressista, reformista, racionalista e humanista” (L.Cabral Moncada, Um Iluminista Português no Século XVIII: Luiz Antônio Verney, São Paulo), e causou bastante influência no clero de então, reforçando uma corrente galicanista que ficou conhecida com o nome de regalismo. O Arcediago de Évora, Luiz Antônio Verney, foi um dos mais aguerridos defensores das idéias iluministas em Portugal com forte influência na formação do clero. Como nos informa Eduardo Frieiro, “no Brasil, apesar da proibição das obras dos enciclopedistas, eram elas introduzidas como contrabando e Raynal, Mably, Rousseau, Volney, Voltaire, Montesquieu, Turgot, Brissot, entre muitos outros, eram lidos e até decorados, inclusive no Seminário de Mariana, por influência de seu professor de filosofia, o Cônego Luís Vieira da Silva, célebre pela sua biblioteca mais rica do que as de Kant na Alemanha e Spinoza na Holanda”. (Eduardo Frieiro, O Diabo na Livraria do Cônego, Belo Horizonte, 1957)
Em geral dotados de boa formação intelectual e humanística, os sacerdotes de então estavam por demais metidos em política, quase sempre tinham fazenda e muitos faltavam à fidelidade de seus compromissos celibatários, influenciados pela mentalidade regalista predominante na época, o que vai provocar uma fortíssima reforma do clero na segunda metade do século XIX, empreendida pelo santo bispo Dom Antônio Ferreira Viçoso (1844-1875).
Os pesadíssimos impostos determinados pelo Reino português que levavam um quinto de toda a produção aurífera das minas para a Corte, e com uma fiscalização demasiadamente rigorosa, provocou reações populares fortes com participação ou até a liderança do clero. Foi o Cônego Luiz Vieira da Silva, o professor de filosofia no Seminário de Mariana, o idealizador da famosa Conjuração Mineira que foi a precursora principal do movimento de independência do Brasil, acontecido em 1822. Neste movimento mineiro que envolveu a classe mais culta da sociedade, entre professores, poetas e artistas, encontravam-se mais de trinta sacerdotes.
Contudo, o clero de então, em geral, goza de extraordinário apoio e respeito sociais o que levou as Cortes portuguesas a terem extremo cuidado nos julgamentos destes eclesiásticos, fazendo-os secretamente, como consta dos Autos da Devassa, para evitar maior revolta popular, tal era o a veneração que a população guardava destes líderes religiosos.
Os viajantes europeus que por Minas Gerais andaram, como August Saint Hilaire, Spix e Martius, não raras vezes, teceram comentários a respeito destes padres, na maioria, formado pelo Seminário Diocesano fundado por Dom Frei Manuel da Cruz.
A formação humanística dos sacerdotes, unida à peculiar religiosidade do povo mineiro desde o princípio e ainda a abundância de ouro da região resultaram numa crescente valorização do culto divino o que se expressa na extraordinária beleza dos templos, nas esculturas, entalhes, pinturas e na arte em geral, incluindo a música sacra que, a partir de então, goza de altíssimo nível artístico em Minas Gerais, tendo hoje como centro mais destacável em todo o Brasil, a cidade de São João Del Rei, com suas centenárias orquestras, coros e conservatório. Um sem número de partituras de genuínas composições sacras mineiras encontradas nas muitas cidades e vilas antigas do Estado compõe hoje um valiosíssimo acervo da arte musical barroco-brasileira, carecendo ainda de maior atenção da pesquisa e da valorização da sociedade. Infelizmente, é forçoso registrar, muito se perdeu pela falta de maior interesse cultural dos governos e até mesmo pelo desamparo das paróquias e despreparo de certos padres.
O barroco mineiro seja nas artes plásticas seja na música ou em outros ramos, difere do barroco europeu não só por ser mais tardio, mas também por expressar muito mais a festa, a alegria, a solenidade dos atos e dos gestos do que a angústia existencial ou o simples reagir católico frente a correntes protestantes. Tendo entre os seus artistas como centro e símbolo mais forte a figura de Aleijadinho (1738-1814), a arte sacra barroca e rococó em Minas gravita com um grande número de outros artistas como seu próprio pai Manuel Francisco Lisboa que construiu, entre outras obras, a Igreja do Carmo de Ouro Preto, o Padre Félix Lisboa, irmão de Aleijadinho, Manoel Francisco Lisboa, filho de Aleijadinho que lhe deu o nome do avô, e também Francisco de Lima Cerqueira que executa o projeto de Aleijadinho em São João Del Rei, Coelho de Noronha com que Aleijadinho trabalha na edificação da matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Caeté. Vieira Serva, em Sabará, Francisco Vieira de Brito em São João Del Rei, José Fernandes Pinto, em Barbacena e mais um numeroso séqüito de anônimos são complementares deste precioso elenco artístico-sacro.
Na pintura, encontramos o extraordinário Manoel da Costa Ataíde, já citado, que se encarrega da policromia das imagens das capelas em alameda de Congonhas do Campo, a famosa Santa Ceia do Colégio do Caraça, a Natividade da capela da fazenda da Boa Esperança em Belo Vale. Além de Ataíde, encontram-se Manoel Victor de Jesus, pintor do Órgão de Tiradentes, Silvestre de Almeida Lopes, pintor da Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, na cidade de Serro, José Soares de Araújo que pintou a igreja do Carmo de Diamantina e tantos outros cujos nomes infelizmente se perderam na penumbra do tempo.
Quanto à música sacra, destaca-se o eminente compositor José Emerico Lobo de Mesquita, Padre João de Deus, Padre Jerônimo a que vem se associar pouco mais adiante, Padre José Maria Xavier, Martiniano Ribeiro Bastos, Marcos Pereira dos Passos, Aurélia de Mesquita, Firmino Silva e outros a serem redescobertos ou reabilitados pela pesquisa a fim de que se faça justiça a quem construiu, com tanto esmero e fé, a nossa história.
Razão seja dada a Tancredo Neves, ex-Presidente da República, natural da histórica e barroca São João Del Rei, ao dizer que “se, conforme registram os documentos históricos, afluíram para as montanhas de Minas aventureiros de todo o Brasil e da Metrópole, com eles vieram não só a sede de fortuna e ambição da glória, mas também as inquietações mais profundas da alma” ( Tancredo Neves, Minas: O Gênio e o Herói, artigo in Passos da Paixão, Rio de Janeiro, 1969).
Lê-se no emocionante barroco mineiro a busca do sobrenatural pelo homem do século XVIII, nos segredos de uma nação nascente, imerso no entusiasmo de muito ouro que, contudo, não satisfaz o coração humano, pois este, no dizer de Santo Agostinho, só pode mesmo descansar em Deus.
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo Diocesano de Jundiaí,
Mestre em História da Igreja pela
Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma.
25 de agosto de 2006 |