SINOS

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

250 ANOS DA PARÓQUIA DE
SÃO BENTO DO ITAPECERICA

É muito provável que antes da invenção do bronze, (isto não quer dizer que o sino só apareceu na era pós bronze),  o meio de comunicação à distância mais eficiente fosse o tambor, feito de um tronco oco de alguma árvore tombada.

Depois da invenção do bronze, que caracterizou um dos mais importantes ciclos de evolução da humanidade, o sino fundido no bronze deve ter sido tão importante na comunicação à distância, superadoapenas pela invenção do telégrafo porque, assim como Morse criou a linguagem codificada para melhor transmissão de mensagens, os sineiros através dos tempos, em lugares diversos e situações

diferenciadas, criaram a linguagem dos sinos, decodificada apenas por aqueles a quem era dirigida.
Os sinos das aldeias anunciavam tudo, desde um nascimento, a morte, uma reunião dos aldeãos, até uma chamada geral da aldeia e arredores, anunciando um ataque de invasores inimigos.
O sino, nas Igrejas, também possuem funções diversas: a de convocar os fiéis à oração; também como meio de informar diferentes acontecimentos envolvendo a vida aldeã e as funções religiosas.
Os sinos, algumas vezes agem em um conjunto harmônico, conhecido como Carrilhão, ou em manifestações isoladas como nos Campanários,
Um exemplo da relação entre  sinos e sineiros está bem abordada na obra  O Corcunda de Notre Dame, quando expõe   Quasímodo, sineiro de Notre Dame, Paris, e o carrilhão da catedral, reduto onde ele   era  inatingível e por isso senhor absoluto. Foi lá, entre os sinos que ele escondeu a cigana Esmeralda, porque ele sabia ser ali sua fortaleza inexpugnável. Mas, ele a escondeu para protege-la da multidão ensandecida e não por motivo de outra natureza. Para alegra-la ele começou a dobrar todos os sinos do carrilhão, sem saber que com isso ele apenas a ensurdecia, e como podia saber se ele já era totalmente surdo, justamente pelos sons que mais adorava.
Assim são os sinos e os sineiros.

 

 

Os sinos sonoros da minha terra
Tem encantos que só eles encerram
Tange, tange ao longe, meu bronze augusto,
Levando-nos alegrias e alguns sustos.
(Tito lívio –F.B.M.)

A CORDA DO SINO
Bentuca, 1929

N minha querida Tamanduá,- a velha e pitoresca cidade serrana, - ali onde hoje estão a casa do Elpídio Couto e a farmácia do Chiquinho Malachias, havia uma elevação, sobre a qual se estendia um corre de casas, juntas, formando um só difício, ao qual se tinha acesso por três degraus de pedras, correndo de um a outro lado da frente.
Morava ali o Joaquim Ramos, famoso pela sua altura de gigante , muito a propósito para os centuriões da procissão do Enterro e pela jovialidade , nele extremamente expansiva e constante , manifestando-se nas mais estrondosas gargalhadas.
Comprazia-se Joaquim Ramos , depois de um dia de labuta  na oficina, em vir, nas tardes de tempo bom, aboletar-se nos de graus e ficar ali a gozar e esplêndido panorama, que se lhe desdobrava em frente: o casario a sobressair alvejante de entre a massa verdenegra  do alvoredo dos quintais e, mais além, ao fundo, a majestosa serra do Callado, tendo ao alto, na sua maior elevação, a recortar-se nos ares, o perfil altaneiro daquela saudosa árvore , que um engenheiro do Estado, João Tavares, mandou abater, agindo brutalmente , descaridosamente, revoltantemente, sem crime aliás, amparado como estava no § 4º do artigo 27 do Código Penal, por força da formidolosa camuéca, em que ele se achava, naquele – para todos os tamanduenses, - sinistro dia. 
       Ao Joaquim Ramos era costume virem se juntar  o Nominato, o Chico Malachias , o Chico Prata e outros mais da vizinhança. E a tarde transcorria na mais amistosa das palestras mantendo-se ali até que a noite, de todo , descia, escurecendo tudo e se viam, aqui, ali, como fulgir de pirilampos, as luzes das vivendas e casas de negócio.
Numa dessas tardes, o Chico Malaquias, ao chegar, foi logo dizendo aos outros, já no posto:
- Sabem por que, ontem, na Matriz, não se tocou a Ave Maria?
Na véspera, o grupo dos palestrantes, tinha esperado, em vão, o toque do Angelos, dado no sino da Matriz.
- A causa disso, continuou o Chico, foi, infelizmente, trágica, como vocês vão ver.
E, tomando assento, fez minucioso relato da ocorrência:
... O Benedito sacristão, todos os dias, à boca da noite, depois de preparar a lâmpada do Santíssimo, subia, à hora própria, os degraus da torre e, atirando-se à corda do sino grande, fazia este despender o grave e místico som, chamando à prece em comemoração à anunciação da Virgem. E o gemido do bronze percutido, escapando-se-lhe do seio, espalhava-se sobre os tetos das casas indo morrer ns serra em frente e pela quebrada das colinas, mais alem.
No dia anterior, demorara-se o Benedito no preparo da lâmpada: e, quando subia torre , para se desempenhar do costumado mister, já fazia bastante escuro.
Amarrara ele ao badalo do sino um pedaço de corda de cabelo chamado sedenho. De trançado forte, resistia melhor aos empuxões que lhe davam, no tanger do sino.
Sentindo-se em atraso, o Benedito subiu depressa a escada, e chegando ao sobrado da torre, ergueu os braços tateando, a procurar a corda.  Achando-a, tomou-a a mãos ambas e, rápido imprimiu-lhe forte e rude arranco.

Sentiu, porém, que a corda se despregava do badalo, fazendo o pobre velho sem firmeza, desequilibrar-se e tombar de costas desamparadamente.      
E, em vez do profundo e com pungente som, que o sino devia desprender, atroou o recinto um tremendo e agudíssimo miau, enquanto sobre o rosto do inditoso sacristão, unhas agudas agiam, golpeando-o com fúria, arrancando-lhe ais lastimosos.
Aterrado, em extremo, Benedito ergueu-se, de um salto, despejou-se pela escada abaixo e, evadindo-se da torre, veio cair, estatelado e aos gritos na grama do largo, com a cara em petição de miséria, tão escalavrada de arranhões se achava.
É que o desventurado sacristão agindo no escuro, em vez de apanhar a corda, atracara-se à cauda do C..., o gato preto do Senhor Vigário, que tinha por costume ir empoleirar-se na janela da torre para dar caça aos morcegos!
Eis porque, concluiu o Chico Malaquias a rir maldosamente – ontem não houve o toque das Ave Marias. 

OS NOSSOS SINEIROS...

... Através de quase trezentos anos batendo sinos, (desde antes de 1744), desenvolveram também uma linguagem própria, acessível apenas para aqueles iniciados na fascinante arte de sacudir o badalo de forma harmoniosa.
Segundo a tradição oral, um dos melhores sineiros que já tivemos, foi o Meroveu do Dondico. Segundo alguns que o conheceram ainda no exercício da badalação, reputam-no como um virtuose na arte.
O toque certo, o dobre certo, a resposta certa e, sobretudo o sino certo, tudo isto fazem e constroem um sineiro; aperfeiçoado e doutorado não na instituição acadêmica, mas na intuição pura e simples que a voz do sino também pode ser a voz de Deus, por isso deve ser de uma sonoridade impar, possuir uma perfeita harmonia entre graves e agudos, obedecer a exatidão de um compasso imaginário, trabalhar no alto da torre como se fosse um maestro regendo uma sinfônica de bronzes diversos. Segundo aqueles que o conheceram, Meroveu Mendes foi um dos poucos que atingiram este virtuosismo.

OS NOSSOS SINOS...

Têm origens diversas, não foram todos adquiridos numa mesma época e tão pouco formam um carrilhão. È possível considera como tal apenas o conjunto do Regulador Público, ou relógio da Matriz, já que trabalham de forma ordenada e temporizada.
Segundo Tito Lívio, (Francisco Barbosa Malaquias), em seu livro Alma Sentimental, uma coletânea de poesias e memórias de Tamanduá, “catador” de contos e “causos”, referência da tradição oral. Foi ele que nos deixou este relato:
“Quando já se finalizava a construção da Matriz de São Bento, pensou-se em adquirir um novo sino que viesse a sustentar a grandiosidade da majestosa e bela construção”.
O Senhor Egídio Luiz de Cerqueira, um dos grandes participantes desta obra, prontificou-se a adquiri-lo. Entrou-se em contato, imediatamente, com firmas de São Paulo para a devida compra. Exigia-se, no entanto, que o sino fosse um pouco maior que os comuns, depois de sua moldagem, o material empregado devia ser exclusivamente para este, pois se devia misturar no bronze derretido certa quantidade de ouro e prata para assegurar-lhe uma sonoridade exclusiva. 
Assim, tudo combinado, em dia combinado foi a São Paulo, com outros companheiros, levando 10 quilos de prata (em patacões de $0, 960, {moedas de novecentos e sessenta reis}, recebido de diversos doadores) e 1.300 libras esterlinas de sua propriedade, que doava para o sino da Matriz. *( Cada libra esterlina pesava uma  um oitavo da onça troy de ouro, relativo a três escrópulos, ou 3.58 gramas, equivalente a 4.654 gramas( quatro quilos e seiscentos e cinqüenta e quatro gramas, isto equivale a praticamente uma arroba de metais nobres, contidos no sino.)”
“Presenciaram o derretimento de todo o metal e a fundição de tão almejada confecção e só voltaram com o despacho do novo sino, que tem uma sonoridade inigualável em todo o estado de minas Gerais.” Segundo o autor, os dados foram colhidos por tradição.
*As informações técnicas foram retiradas do Novo Sistema de Pesos e Medidas da Província de Minas gerais-1883.

Anotações do LIVRO DO TOMBO, nº 1, da Paróquia de São Bento;

15 de dezembro de 1.908: Hoje chegou o nosso sino grande da Matriz, depois de perfeitamente refundido e muito bom. No livro de receita e despesa de S. Bento está escrito tudo quanto diz respeito à refundição deste sino, e o seu custo e mais despesas. ( rubrica de Mons. Cerqueira).
16 de setembro de 1911: hoje chegou dos Estados Unidos da América do Norte, o nosso sino de roda, mandado vir pela Irmandade do Santíssimo Sacramento desta cidade e de custo e carreto, etc. 529$000(quinhentos e vinte e nove mil reis). (rubrica Mons. Cerqueira).
8 de junho de 1.912: Hoje chegou de belo Horizonte o sino pequeno para o relógio da Matriz. Foi fundido em Jundihay, São Paulo, Casa Arens e Comp. Filial em belo Horizonte . ( sem rubrica)
22 de julho de 1912: Chegou hoje o sino grande para o relógio da Matriz de S. bento: é da Casa Arens e Comp. , de Jundihay , S. Paulo. Pesa 257 quilos. ( sem rubrica).
3 de setembro de 1912: Hoje se concluiu a demolição da torre velha da Matriz de S. Bento, depois de haver servido por 64 anos presumíveis. Segundo informação de pessoas antigas, me dizem ter ela sido construída em 1848, mais ou menos. Era edificado junto à casa do Dr. José dos Santos Ribeiro, e foi demolida depois da construção das novas torres da Matriz.
Segundo um assentamento encontrado nos livros da Matriz, esta torre foi terminada a 26 de outubro de 1851, havendo prestado serviço durante 61 anos. ( rubrica: Padre Cerqueira)
 Ainda que fosse possível emudecer a voz dos sinos, a vibração causada  pelo embate da onda sonora contra o ar, numa progressão concêntrica, lenta, destruidora, fatal, mas permanente, tendo como epicentro o choque letal,  bronze a bronze, percutindo as distâncias insólitas, informando  aos crentes que é hora da reafirmação da crença; que não fujam por não saberem, porque o sabem; que não se curvem submissos ao langor de um doloroso dobre, o sino não gosta de inclinações, ele não pediu choro aos mortos, apenas respeito.

O sino percute muito mais que um pedaço de bronze ensandecido, ele não causa barulhos, apenas mexe com a nossa imaginação; ao ouvi-lo tentamos imaginar, adivinhar, e até a arriscar palpites absurdos,  o motivo de tanto eco reverberado no vale, arriscamos um palpite na morte de todos, menos na nossa, que pela lógica da vida se ouvimos, estamos vivos e ninguém consegue nos explicar que não estamos ouvindo, apenas imaginando e na realidade, nem somos nós, são nossas almas que já nem precisam mais dos sinos, mas ainda assim eles insistem em manter vivos, aqueles que os dobres incessantes tentam manter acordados, se não no próprio corpo, pelo menos nas orações dos outros que o badalar constante dos sinos não permite que nos esqueçam.
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Pagina Atualizada em 23-Aug-2007 10:58