Natal
250 ANOS DA PARÓQUIA DE SÃO BENTO DO ITAPECERICA
15.2.1757 – 15.2. 2007
 
 
 
 
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   

Mensagem Urbi et Orbi do papa Bento XVI
terça: 25 de dezembro de 2008 – www.cnbb.org.br

«Santo é o dia que nos trouxe a luz. Vinde e adorai o Senhor! Hoje uma grande luz desceu sobre a Terra!»
Caros Irmãos e Irmãs!

       «Santo é o dia que nos trouxe a luz». Um dia de grande esperança: nasceu hoje o Salvador da humanidade! O nascimento de uma criança traz normalmente uma luz de esperança para os que ansiosamente a esperam. Quando Jesus nasceu na gruta de Belém, «uma grande luz» apareceu sobre a terra; uma grande esperança entrou no coração dos que O esperavam: «lux magna», canta a liturgia deste dia de Natal. Não foi certamente «grande» como o mundo pensa, pois os primeiros a vê-la foram só Maria, José e alguns pastores, depois os Magos, o velho Simeão, a profetiza Ana: os que Deus tinha escolhido. No entanto, na humildade e no silêncio daquela noite santa, acendeu-se para cada homem uma luz esplêndida e inextinguível; chegou ao mundo a grande esperança portadora de felicidade: «O Verbo fez-Se carne e [...] nós vimos a sua glória» (Jo 1,14).
«Deus é luz - afirma S. João - e n’Ele não há trevas» (1 Jo 1,5). No Livro do Gênesis, lemos que, quando teve início o universo, «a terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo». «Deus disse: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita» (Gn 1,2-3). A Palavra criadora de Deus - Dabar em hebraico, Verbum em latim, Logos em grego - é Luz, fonte da vida. Tudo foi feito por meio do Logos e sem Ele nada foi feito de tudo quanto existe (cf. Jo 1,3). Eis porque todas as criaturas no fundo são boas, e trazem em si o vestígio de Deus, uma centelha da sua luz. Porém, quando Jesus nasceu da Virgem Maria, a mesma Luz veio ao mundo: “Deus de Deus, Luz da Luz”, professamos no Credo. Em Jesus, Deus assumiu o que não era permanecendo aquilo que era: «a onipotência entrou num corpo infantil e não se privou do governo do universo» (cf. S. Agostinho, Serm. 184, 1 sobre o Natal). Fez-Se homem Aquele que é o criador do homem para trazer paz ao mundo. Por isso, na noite de Natal, cantam os exércitos do Anjos: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do Seu agrado» (Lc 2,14).
«Hoje uma grande luz desceu sobre a Terra». A Luz de Cristo é portadora de paz. Na Missa da Meia Noite a liturgia eucarística iniciou precisamente com este canto: «Hoje desceu do Céu sobre nós a verdadeira paz» (Antífona de Entrada). Mais ainda, só a «grande» luz vinda de Cristo pode dar aos homens a «verdadeira» paz: eis porque cada geração é chamada a acolhê-la, a acolher a Deus que em Belém Se fez um de nós.
Isto é o Natal! Acontecimento histórico e mistério de amor que, há mais de dois mil anos, interpela os homens e as mulheres de cada época e lugar. É o dia santo em que brilha a «grande luz» de Cristo portadora de paz! Certamente, para reconhecê-la, para acolhê-la, é preciso fé, é preciso humildade. A humildade de Maria, que acreditou na palavra do Senhor e foi a primeira que, inclinada sobre a manjedoura, adorou o Fruto do seu ventre; a humildade de José, homem justo, que teve a coragem da fé e preferiu obedecer a Deus mais que preservar a própria reputação; a humildade dos pastores, dos pobres e anônimos pastores, que acolheram o anúncio do mensageiro celeste e à pressa foram à gruta onde encontraram o Menino recém-nascido e, cheios de maravilha, O adoraram louvando a Deus (cf. Lc 2,15-20). Os pequenos, os pobres em espírito: eis os protagonistas do Natal, ontem como hoje; os protagonistas de sempre da história de Deus, os construtores incansáveis do seu Reino de justiça, de amor e de paz.
No silêncio da noite de Belém, Jesus nasceu e foi acolhido por mãos carinhosas. E agora, neste nosso Natal em que continua a ressoar o feliz anúncio do seu nascimento redentor, quem está preparado para Lhe abrir a porta do coração? Homens e mulheres deste nosso tempo, Cristo vem trazer a luz também a nós, vem dar-nos a paz também a nós! Mas quem vigia, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração desperto e em oração? Quem espera a aurora do novo dia, mantendo acesa a chamazinha da fé? Quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se envolver pelo fascínio do seu amor? Sim! É para todos a sua mensagem de paz; é a todos que vem oferecer-Se a Si próprio como esperança certa de salvação.
A luz de Cristo, que vem iluminar cada ser humano, possa finalmente brilhar, e sirva de consolação especialmente para os que vivem nas trevas da miséria, da injustiça, da guerra; para os que ainda se vêem negada à legítima aspiração a uma mais garantida sustentação, à saúde, à instrução, a uma ocupação estável, a uma maior participação nas responsabilidades civis e políticas, livres de qualquer opressão e ao abrigo de condições que ofendem a dignidade humana. Vítimas de conflitos armados sangrentos, do terrorismo e de violências de todo tipo, que acarretam incríveis sofrimentos a inúmeras populações, são de modo particular as faixas mais vulneráveis, as crianças, as mulheres, os anciãos. Enquanto que as tensões étnicas, religiosas e políticas, a instabilidade, a rivalidade, as contraposições, as injustiças e as discriminações, que dilaceram o tecido interno de muitos Países, exacerbam as relações internacionais. E no mundo cresce sempre mais o número dos imigrantes, dos refugiados, dos desamparados, devido também às freqüentes calamidades naturais, causadas não raro pelos preocupantes desastres ambientais.
Neste dia de paz, o pensamento se dirige sobretudo ali onde ressoa o fragor das armas: às martirizadas terras do Darfur, da Somália e do norte da República do Congo, às fronteiras da Eritreia e da Etiópia, a todo o Oriente Médio, nomeadamente ao Iraque, ao Líbano e à Terra Santa, ao Afeganistão, ao Paquistão e ao Sri Lanka, à região dos Bálcãs, e às outras muitas regiões em crise, infelizmente muitas vezes esquecidas. O Menino Jesus traga alivio a quem passa pela provação e infunda aos responsáveis de governo a sabedoria e a coragem de procurar e encontrar soluções humanas, justas e duradouras. À sede de sentido e de valor que anela o mundo de hoje, à procura de bem-estar e de paz que aspira a vida de toda a humanidade, às expectativas dos pobres Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, responde com o seu Natal. Não tenham medo os indivíduos e as nações de reconhecê-Lo e de acolhê-Lo: com Ele «uma esplêndida luz» ilumina o horizonte da humanidade; com Ele abre-se um «dia santo» que não conhece ocaso. Este Natal seja verdadeiramente para todos um dia de alegria, de esperança e de paz!
«Vinde e adorai o Senhor!». À sede de sentido e de valor que hoje o mundo experimenta; à procura de bem-estar e de paz que caracteriza a vida de toda a humanidade; às expectativas dos pobres, Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, responde com o seu Natal. Não temam os indivíduos e as nações reconhecê-Lo e acolhê-Lo: com Ele, «uma esplêndida luz» ilumina o horizonte da humanidade; com Ele, abre-se «um dia santo» que não conhece ocaso. Este Natal seja verdadeiramente para todos um dia de alegria, de esperança e de paz!
Com Maria, José e os pastores, com os magos e a multidão inumerável de humildes adoradores do Menino recém-nascido que, ao longo dos séculos, acolheram o mistério do Natal, também nós, irmãos e irmãs de cada continente, deixemos que a luz deste dia se propague em o todo lugar; entre nos nossos corações, ilumine e aqueça as nossas casas, traga serenidade e esperança às nossas cidades, dê paz ao mundo. Estes são os meus votos para vós que me escutais. Votos que se fazem prece humilde e confiante ao Menino Jesus, a fim de que a sua luz dissipe todas as trevas da vossa vida e vos encha do amor e da paz. O Senhor, que fez resplandecer em Cristo a sua face misericordiosa, vos sacie da sua felicidade e vos torne mensageiros da sua bondade. Feliz Natal!
Fonte: Rádio Vaticano - Ir para o Inicio

 

Deus habita no meio de nós - Dom Geraldo M. Agnelo
sexta: 28 de dezembro de 2007 – www.cnbb.org.br

“E o Verbo se fez carne e veio habitar no meio de nós; e nós vimos a sua glória, glória como unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1,14).
A manifestação do amor sem limites de Deus se traduz, em concreto, em um gesto de confiança na pessoa humana. Não dá por perdido o ser humano; não o abandona à fatalidade e ao desespero do mal. Tem confiança na sua regeneração.
O Deus que nasceu em Belém não é um poderoso que envia aos súditos mensagens, dons, promessas. Ele mesmo é a mensagem, o dom, a certeza de toda promessa.
Ele diz a cada um de nós: “Sou como tu. Como tu, começo a aventura de viver, de estar junto, para construir, dia após dia, uma família, amizades, no trabalho, na fadiga, na esperança, nas incompreensões, na necessidade de alegria, de vida plena. Como tu, sonharei com um mundo diverso e contigo continuarei a sonhar, não obstante tudo”.
No Natal, nosso Deus começa a “profissão” de ser homem. Não é um Deus longínquo, fora, acima de nossa existência. Ele se identifica totalmente com a fragilidade, precariedade, pobreza e juntamente na dignidade, liberdade, grandeza. Assume todo o humano, exceto o pecado, raiz de toda desumanização.
Faz-se homem para que o homem torne-se humano. Para que se liberte de todo obstáculo e escravidão que lhe impede de crescer em plenitude e alegria. Para que, juntos, Deus e homem, possam cumprir o sonho de amor que é o mistério escondido no coração de Deus e do homem.
É um Deus enamorado do homem a tal ponto que “aniquila” a sua divindade, esconde-se na carne de uma criança, assume o rosto entre inumeráveis rostos.
Não vem com poder que invade o homem. Percorre caminhos de compaixão, mansidão, paciência. A sua força é o amor. Vem libertar e não ocupar lugar. Não vem como julgamento que condena e separa. Traz e oferece perdão, reconciliação: pacificação ao homem desgarrado, pacificação à humanidade dispersada.
O Senhor vem também para mim. Assim não estou mais desesperado, abandonado, insignificante. Tem estima também por mim. Ao seu olhar o que vale não é ser pobre ou rico, no alto ou embaixo na escala social, desprezado ou invejado, de uma vida realizada ou falida. Ele me ama e me estima, porque sabe que preciso sobretudo de ser amado e salvo.
Mas se tenho valor diante  dele, todos os demais seres humanos merecem minha atenção. Não posso mais dividir, separar, excluir, rejeitar ninguém. Devo querer que todos sejam reconhecidos grandes e importantes como eu. Devo começar a estimar e a fazer estimar todos que parecem não valer nada. Os últimos devem tornar-se primeiros, para que todos alcancem a dignidade de primeiros.
Em Belém, o Deus Menino, não encontrando acolhimento na cidade, foi colocado na manjedoura de animais, sem dizer uma palavra, porque anuncia a revolução evangélica: depõe os poderosos de seus tronos e exalta os humildes. Deus se faz último, para que também o último valha como Deus! A humildade de Deus estabelece a grandeza verdadeira do homem.
Quando os magos vieram de terras longínquas para depositar aos pés do menino Deus os seus dons, anunciaram que a história deve caminhar ao contrário, em favor e não contra o homem. Oferecendo ouro e incenso ao último menino do império romano, destroem para sempre os ídolos da riqueza, do poder, do prestígio. Nem mesmo a mirra será mais o aroma para embalsamar vaidades e glória até no túmulo. Permanecerá o sinal que somente uma vida doada por amor do semelhante merece ser guardada na memória de quantos esperam renascer para a vida nova.
No natal, o Filho do homem inicia a paixão dos pobres e oprimidos, a fim de preparar a sua desforra, que começará com a proclamação das bem-aventuranças e culminará na ressurreição do Filho de Deus.
Quando o Senhor Jesus Cristo nasceu como verdadeiro homem, sem jamais ter deixado de ser verdadeiro Deus, ele realizou em si o início mesmo de uma nova criatura e, em conformidade com seu nascimento, comunicou ao gênero humano um princípio espiritual novo.
Celebrar o Natal é deixar-se interrogar pelo Senhor da vida, se somos capazes de mudar alguma coisa em nossa vida, para também mudar o mundo.
Desejo, de coração, aos prezados leitores Feliz Natal e a paz que o Senhor veio trazer ao mundo.
* Cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo é arcebispo de São Salvador da Bahia - Ir para o Inicio

 

Luz para o mundo - Dom José Alberto Moura
sexta: 28 de dezembro de 2007 – www.cnbb.org.br

A Epifania é a manifestação do Salvador para a Humanidade. De uma simples gruta, onde se refugiavam os animais, o Menino-Deus vai dizendo a todos sobre a grandeza do ser humano. Não é mais importante quem ostenta riquezas, tem altos cargos, cultura elevada e benesses à vontade. O Emanuel, nascido simples, pobre, humilde e despojado, mostra à Humanidade o caminho da plena realização e libertação. O maior, o mais importante e mais considerado diante de Deus, é quem se dá totalmente à causa do bem da pessoa humana, a partir da mais carente.
A sociedade precisa de quem a oriente no caminho de sua vida plena. Todos têm o direito e o dever de serem felizes. Mas se apregoa demais a felicidade como busca imediata dos prazeres, em detrimento de um ideal buscado na luta, na renúncia e no sacrifício, tendo em vista um bem maior. O caminho da facilitação, de dar um jeitinho, de não se comprometer com causas mais elevadas, de não se interessar pelo bem do outro e da sociedade, é bastante estimulado pela sociedade de consumo, muitas vezes em detrimento de valores maiores. Saber escolher exige conhecimento e treinamento da vontade, indicados por quem é perito em Humanidade. Deus quis mostrar de modo humano como realizar isso, na pessoa de Jesus. Por isso, a partir dos Magos do Oriente, ele se mostrou à Humanidade, carente de uma estrela guiadora de sua caminhada. "Sobre ti apareceu o Senhor e sua glória já se manifesta sobre ti. Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora" (Is 60, 2-3).
Jesus revela à Humanidade que Deus é Pai de todos. Não faz discriminação de ninguém. Quer o bem de cada um. Mas ensina como o ser humano conquista o objetivo feliz da vida. Longe de ir por caminhos mais descomprometidos, só se consegue chegar ao alto da montanha da vida realizada quando se coopera com o desenvolvimento dos dons recebidos de Deus, para a convivência na justiça, na misericórdia e no amor. Para isso, dar de si, cooperar com causas de solidariedade, seguir os ensinamentos d'Ele e saber criar mecanismos de promoção da vida de sentido para todos, são meios indispensáveis.
Para facilitar a orientação do povo e dar-lhe meios de sustentação espiritual, Jesus deu aos Apóstolos o poder de conduzir as pessoas, mesmo as fora do rebanho, para salvar sua vida. Sua Palavra, seus dons e sua comunidade se tornam continuação de sua missão de iluminar a sociedade, dentro do ditames éticos, morais e espirituais. A Epifania continua através dos discípulos. Deste modo, todos poderão ter acesso aos meios deixados para a salvação da Humanidade. A Igreja se torna, conforme pede o próprio Senhor, luz para o mundo.
Neste dia 06, às 7h, na Catedral, a Arquidiocese de Montes Claros lança a abertura dos eventos preparatórios à celebração do centenário da criação da então Diocese, criada em 1910. Haverá intensa evangelização e missões nas paróquias, cartilhas orientadoras, divulgação da história da Igreja na região. A luz da Igreja Particular tem sido de muita iluminação para inúmeras pessoas neste século de presença e atividades no Norte de Minas. A Província Eclesiástica de Montes Claros, composta pela Arquidiocese de Montes Claros e as dioceses de Paracatu, Januária e Janaúba, tem realizado intensamente a evangelização, com a promoção da fé que leva à transformação da convivência humana, com os critérios ético-cristãos.
*Dom José Alberto Moura, 64, é arcebispo de Montes Claros (MG) e presidente da Comissão Episcopal para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). - Ir para o Inicio

 

O mistério da salvação - Dom Geraldo M. Agnelo
segunda: 07 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br

A humanidade, originária de um único princípio (Atos 17, 26), chegará um dia a construir uma verdadeira unidade, em que cada pessoa acolherá o outro, sem escravizar nem colonizar ninguém?
O mistério da vontade de Deus é de reunir em Cristo todas as criaturas humanas. A segunda leitura deste domingo, Festa da Epifania, Efésios 3, 2-6, fala que, nessa vontade, está a de reunir em Cristo todo o universo, portanto também os pagãos. Essa, desconhecida às gerações precedentes, agora é revelada pelo Espírito aos “santos apóstolos”, entre os quais Paulo, e aos profetas. Mas Paulo se sente o apóstolo por excelência dos gentios, instrumento da graça para aqueles a quem comunica a vida “gerando-os em Cristo Jesus mediante o evangelho” (1Coríntios 4,15).
Mas o que define a salvação? A pessoa de Jesus Cristo. Ele é o evangelho do Pai, revelação do plano de Deus para os seres humanos. O Pai de tal modo amou o mundo que enviou o seu Filho para ser o Salvador. Todo aquele que aceita Jesus Cristo como salvador, aceita ser discípulo e seguidor d´Ele: faz-se filho de Deus.
Não há nenhuma exclusão para a admissão à salvação. “Os gentios são chamados a participar da mesma herança, a formar o mesmo corpo, e a ser participantes da promessa do evangelho”. Pagãos e judeus são, acima de toda distinção, membros do único corpo de Cristo, coerdeiros porque filhos do único Pai e “coparticipantes da promessa em Cristo Jesus, unidos a ele, herdeiro único das promessas feitas a Abraão”.
A festa da Epifania é a consagração dessa Vontade de Deus: a primeira manifestação do Messias aos pagãos. O texto do evangelho de hoje é de Mateus 1,18-2,23, e reúne cinco episódios da infância do Messias. Os magos, ou sábios, de número impreciso, são doutos. Movidos pela aparição de uma estrela, vão à procura do rei dos judeus, como a Rainha de Sabá havia feito, atraída pela sabedoria de Salomão.
Narrando o episódio dos magos, Mateus comenta também o de Balaão. As analogias entre este e a narração do evangelista são evidentes; em ambos os casos trata-se de magos chamados por um rei estrangeiro (cf. Números 22,2ss) para amaldiçoar o povo; nesse caso, ao invés, para bendizer. Nos casos elencados há também uma estrela luminosa que indica o retorno sem dano às suas terras.
A intenção do evangelista Mateus é de fazer entrar os pagãos na vida de Jesus desde o princípio, e de suscitar a idéia do universalismo do reino.
Os magos, guiados pela estrela, chegam até Jesus, que encontram “com Maria sua mãe” e adoram-no. Enquanto Herodes judeu projeta a sua morte, os magos, os pagãos, prostram-se diante do Messias. A salvação chega para todo o mundo; mas os primeiros a recebê-la são os pagãos.
Nos dons trazidos pelos magos, a tradição patrística e medieval, verá símbolos da realeza de Cristo, o ouro; da sua divindade, o incenso; e da sua abençoada paixão, a mirra.
São Leão Magno escreve: “O mistério da festa de hoje deve permanecer em nós”. Devemos realizar em nós o Cristo da Epifania, o Cristo dado a todas as gentes. A graça da sua manifestação deve estar à disposição de todos.
A Epifania é o início da revelação deste mistério. Percebido pelos profetas, aparece agora pela primeira vez plenamente desvelado. A ressurreição de Cristo e a vinda do Espírito Santo em Pentecostes o darão em plenitude à Igreja, para que o ofereça a todos os povos: “e as gentes caminharão na sua luz”. A missão de mostrar Cristo às gentes é confiada à Igreja e, na Igreja, a cada um de nós.
O universalismo do evangelho muitas vezes encontra em nós limites pela tendência de erigir critérios de separação entre nós: a nossa família, comunidade, nação, raça a que pertencemos e outros mais; entre outros está também nosso credo social, político, religioso e outros grupos; e a pertença à Igreja estabelece limites em modo estreito e grotesco às medidas infinitas estabelecidas pelo amor de Cristo.
Diante de todas as discriminações que afligem a humanidade e a dividem em modos indecorosos e deprimentes, a unificação do mundo deve ser empenho de cada um, nos limites de sua disponibilidade por mínima que seja.
Só existe uma condição para ser discípulo de Jesus: que haja um mínimo de amor em nosso coração. Deus tem esperança ainda na sua criatura humana!
* Cardeal Dom Gerado Majella Agnelo é arccebispo de São Salvador da Bahia - Ir para o Inicio

 

Família humana, comunidade de paz - Dom Geraldo Majella
quinta: 03 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
Estamos por iniciar um ANO NOVO. O Natal do Senhor nos trouxe a grande mensagem: Deus não perdeu a esperança no ser humano. Para isso enviou o seu Filho para nos ensinar como ser filhos de Deus, portadores da paz. Um ano novo nos faz também formular votos de paz e nos convida a ser construtores da paz. A esperança não pode morrer em nosso coração, angustiado e sofrido diante do mal que a própria criatura humana causa a si mesma e a seus semelhantes. Vençamos a náusea e o niilismo que imobiliza ou desespera!
O Papa Bento XVI enviou mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz, dia 1º de Janeiro, com o título: Família humana, comunidade de paz. E inicia: “A primeira forma de comunhão entre pessoas é a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para construírem juntos uma nova família. Entretanto, os povos da terra também são chamados a instaurar entre si relações de solidariedade e colaboração, como convém em membros da única família humana”. E lembra: “Os homens, sentenciou o Concílio Vaticano II, constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro gênero humano; têm também todos um só fim último, Deus”.
O terceiro milênio chegou com a preocupação de muitíssimos paises de acentuar as diferenças entre os povos, ainda que limítrofes. As tentativas de criar comunidades de nações não cancelam as suas diferenças. Procuram colocar na economia o apelo principal para a união, sem a consistência do fundamento que possa garantir a eficácia definitiva de construir a fraternidade humana, com o respeito da dignidade de todos os povos e de cada ser humano.
Lembra o Papa que “a família natural, enquanto comunhão íntima de vida e de amor fundada sobre o matrimônio entra um homem e uma mulher, constitui o lugar primário da humanização da pessoa e da sociedade, o berço da vida e do amor. Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo o ordenamento social”.
Com efeito, numa vida familiar sã experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz. Deste modo, quando se diz que a família é “a primeira célula vital da sociedade”, afirma-se algo de essencial. A família é fundamento da sociedade inclusive porque permite fazer decisivas experiências de paz”. Devido a isso, a comunidade humana não pode prescindir do serviço que a família realiza. Onde poderá o ser humano em formação aprender melhor a apreciar o ‘sabor’ genuíno da paz do que no ‘ninho’ primordial que a natureza lhe prepara? A linguagem
familiar usa um vocabulário de paz; aqui é necessário recorrer sempre para não perder o uso do vocabulário da paz. Na inflação das linguagens, a sociedade não pode perder a referência àquela ‘gramática’ que a criança aprende dos gestos e olhares da mãe e do pai, antes mesmo das suas palavras.
A humanidade é uma grande família que para viver em paz, é chamada a inspirar-se nos valores por que se rege a comunidade familiar. Isto vale tanto para as comunidades locais como nacionais; mais, vale para a própria comunidade dos povos, a família humana que vive nesta casa comum que é a terra.
A comunidade humana tem a ver com a necessidade de preservar o ambiente para a sua manutenção e sobrevivência. A terra, casa comum, ambiente que Deus criador nos deu para que a habitássemos com criatividade e responsabilidade.
Uma família vive em paz, se todos os seus componentes se sujeitam a uma norma comum: é esta que impede o individualismo egoísta e mantém unidos os indivíduos, favorecendo a sua coexistência harmoniosa e laboriosidade para o fim comum. A razão humana é capaz de discernir a norma moral pelo menos nas suas exigências fundamentais, regular as opções das consciências e guiar todos os comportamentos dos seres humanos.

Cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo é arcebispo de São Salvador da Bahia - Ir para o Inicio
 

A Família Humana e a Paz - Dom Sinésio Bohn
sexta: 04 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
Como de costume, no início do ano, o Papa enviou aos povos sua mensagem de paz. Partiu da família, enquanto primeira forma de comunhão entre pessoas. Por analogia, estende o conceito de família aos habitantes da terra: é a família humana.
A humanidade não é uma simples agregação de vizinhos, vivendo uns ao lado dos outros, como por acaso. Mas assim como a família nasce do consenso generoso de seus membros, é preciso criar a consciência de que os seres humanos são chamados a formar a família humana comum.
Bento XVI afirma: “A família precisa de uma casa e dum ambiente onde tecer as próprias relações. No caso da família humana, esta casa é a Terra. Devemos cuidar do ambiente: este foi confiado ao ser humano para que o guarde e cultive com liberdade responsável, tendo sempre como critério orientador o bem de todos” (n° 7).
É fundamental “sentir” a terra como “nossa casa comum”. Importa amadurecer nas consciências a convicção da necessidade de colaborar responsavelmente. Os problemas são complexos e o tempo escasseia. É, portanto, necessário agir de comum acordo, evitando decisões unilaterais, mas intensificar o diálogo entre as nações.
Para a paz na família é necessário que assente sobre valores espirituais e éticos compartilhados. E a ninguém falte o necessário, evitando-se os excessos e o desperdício. O mesmo se diga da família humana. Além dos valores comuns, é preciso uma economia que corresponda ao bem comum de dimensões planetárias.
A família vive em paz se os seus membros aderem a uma norma comum, em coexistência harmoniosa. Também a comunidade internacional precisa de lei comum que proteja os Estados mais fracos contra a prepotência dos fortes.
A humanidade vive hoje grandes divisões e conflitos que ameaçam seu futuro. É só lembrar as armas nucleares, o Oriente Médio e o comércio de armas. As pessoas devem se mobilizar para a desmilitarização da terra, a começar pelas armas nucleares.
A família humana soube reagir aos horrores da II Guerra Mundial com a declaração dos direitos fundamentais dos indivíduos e dos povos pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1948. A Igreja Católica promoveu a Carta dos Direitos da Família (1983) e há quarenta anos celebra o Dia Mundial da Paz. Sempre no intuito de avivar a consciência de que todos os seres humanos pertencem à única família humana e todos se empenhem por uma paz verdadeira e duradoura. Todos os crentes em Deus implorem o dom da paz. Os cristãos se confiem à intercessão da Mãe comum pela salvação da humanidade inteira por graça do Filho encarnado de Deus.
* Dom Sinésio Bohn e bispo de Santa Cruz do Sul - Ir para o Inicio

 

Família humana, comunidade de paz - Dom Walmor Oliveira
quinta: 03 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
O Santo Padre o Papa Bento XVI, celebrando pela 40ª. vez o Dia Mundial da Paz, neste 1º. de janeiro de 2008, envia sua mensagem tratando esta importante temática: "Família humana, comunidade de paz". Esta importante mensagem abre o ano de 2008 quando se comemora os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, oportunidade em que a Organização das Nações Unidas, por esta declaração solene e comprometedora, reagia aos horrores da II Guerra Mundial. Esta celebração há de reacender a consciência política e social das nações e de todos os cidadãos a respeito da premência de se recolocar, de modo mais contundente e determinante, no centro da convivência humana, o respeito pelos direitos fundamentais dos indivíduos e dos povos. O Santo Padre recorda que este foi um passo árduo e muito importante no caminho da promoção da concórdia e conquista da paz. Por isso mesmo, a Igreja Católica se empenha numa decisiva cooperação na promoção e manutenção deste direito e deste dom que é a Paz.
Foi o inesquecível Papa Paulo VI que teve esta feliz intuição de enviar aos homens e mulheres de boa vontade esta mensagem, convocando a todos para este empenho que só fará efeito se assumido por todos e de maneira corajosa. O venerável Papa João Paulo II deu continuidade à tradição. Por isso também, a Santa Sé celebra, em 2008, o 25º. Aniversário da adoção da Carta dos Direitos da Família. É a Igreja, no cenário mundial, na sua condição de servidora da verdade do Evangelho e Jesus Cristo, colaborando com a doutrina elucidativa, diz o Papa Bento XVI, em defesa deste bem humano fundamental, a Paz.
Para este ano de 2008, o convite focaliza o indispensável crescimento de uma consciência mais lúcida em que homens e mulheres assumam o sentido de sua pertença à família humana e se empenhem para espalhar esta convicção da qual depende a instauração de uma verdadeira e duradoura paz. Este empenho pelo dom da paz inclui que os crentes implorem a Deus o dom da paz. O Papa recorda na sua mensagem que 'a humanidade vive hoje, infelizmente, grandes divisões e fortes conflitos que lançam densas sombras sobre o seu futuro'. É óbvio que a superação destes conflitos e das fortes divisões inclui o afrontamento das questões sérias da economia, da lei moral, o desarmamento, entre outras questões determinantes na busca e na construção da paz. Estas questões tratadas alargam os horizontes de abordagens que a humanidade enfrenta e revela uma complexidade intrigante de desafios a serem enfrentados.
Há, no entanto, um ponto de partida referencial que é a família humana. A família, a de cada um, nascida do amor entre um homem e uma mulher que se decidiram estabelecer uma união estável. Esta família que é referência vital e determinante de cada um é a primeira forma de comunhão entre as pessoas. O cultivo e a vivência do núcleo familiar configuram o paradigma indispensável para a compreensão e definição das relações entre os povos da terra. O núcleo da família humana, por sua dinâmica própria, como miniatura diante do tamanho e proporções da grande família mundial, serve a esta como referência na indispensável busca de equilíbrio pela instauração da solidariedade e da colaboração como convém aos membros da família humana. Por isso, o Concílio Vaticano II proclamou na Declaração sobre a Igreja e as religiões não-cristãs: "Os homens constituem todos, uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro gênero humano (At 17,26); têm também um só fim último, Deus".
A conquista, pois, do dom da paz, nas proporções que possam atingir a comunidade humana universal, supõe uma vivência e um cuidado especial de todos com a família natural. A família natural, fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher, constitui, recorda o Papa Bento XVI citando a Exortação Apostólica Pós-sinodal Christi Fidelis Laici, n.40, do Papa João Paulo II, é 'o lugar primário da humanização da pessoa e da sociedade, o berço da vida e do amor'. A Doutrina Social da Igreja se firma na convicção de que a família é a primeira sociedade natural, 'uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo ordenamento social'. Antes de considerar empreendimentos e compromissos importantes de responsabilidade de governos e instituições da sociedade, é importante ter presente que cada um pode promover e conquistar a paz, este dom precioso para a sociedade mundial, empenhando-se no cultivo de sua própria vida familiar. Numa vida familiar sã se faz a experiência de componentes determinantes para a paz: a justiça e o amor; a autoridade dos pais, o carinho, a acolhida e o perdão.

* Dom Walmor Oliveira de Azevedo é arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da CNBB

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Humanidade e paz - Dom Genival Saraiva

quinta: 03 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
“Família humana, comunidade de paz”: esse é o sugestivo título da mensagem do Papa Bento XVI, no dia 1º de janeiro. O conteúdo da mensagem leva em consideração a circunstância da comemoração, em 2008, de iniciativas que estão intimamente relacionadas com a paz da humanidade: 60 anos da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, promulgada pela ONU em 1948, como reação “aos horrores da II Guerra Mundial”, 40 anos da Celebração do “Dia Mundial da Paz”, no primeiro dia do ano, uma “providencial intuição do Papa Paulo VI”, em 1968, e 25 anos da “Carta dos Direitos da Família”, documento da Santa Sé, divulgado em 1983.
“Família, sociedade e paz”: A aspiração e a experiência da paz encontram na família o seu ninho “providencial”. A paz na família é premissa da paz social, as adequadas condições de vida experimentadas no lar são fatores geradores da paz da humanidade. Assim escreve o Papa: “Com efeito, numa vida familiar ‘sã’ experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz.” A família, constituída sobre valores que geram “um consenso generoso de todos os seus membros”, é protótipo de uma humanidade que deve cultivar valores que a sustentem, na medida em que são respeitados os “direitos do individuo” que, em si, “têm uma dimensão social fundamental”.
“Família, comunidade humana e ambiente”: “A família precisa duma casa, dum ambiente à sua medida onde tecer as próprias relações. No caso da família humana, esta casa é a terra, o ambiente que Deus criador nos deu para que o habitássemos com criatividade e responsabilidade. Devemos cuidar do ambiente: este foi confiado ao homem, para que o guarde e cultive com liberdade responsável, tendo sempre como critério orientador o bem comum.” Cuidar do ambiente é responsabilidade de todos, na sua exata ordem de valor, como conforme Bento XVI: “Respeitar o ambiente não significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem”.
”Família, comunidade humana e economia”: segundo o Papa, “a família experimenta autenticamente a paz quando a ninguém falta o necessário, e o patrimônio familiar – fruto do trabalho de alguns, da poupança de outros e da colaboração ativa de todos – é bem gerido na solidariedade, sem excessos nem desperdícios.” Da mesma forma, “a família humana, que hoje aparece ainda mais interligada pelo fenômeno da globalização, além de um alicerce de valores compartilhados tem necessidade também de uma economia que corresponda verdadeiramente às exigências de um bem comum com dimensões planetárias.”
“Família, comunidade humana e lei moral”: “Uma família vive em paz, se todos os seus componentes se sujeitam a uma norma comum: é esta que impede o individualismo egoísta e que mantém unidos os indivíduos, favorecendo a sua coexistência harmoniosa e laboriosa para o fim comum.” O Papa estende essa exigência da lei moral à coletividade: “Tal critério, em si obvio, vale também para as comunidades mais amplas: desde as locais passando pelas nacionais, até a própria comunidade internacional. Para se gozar de paz, há necessidade duma lei comum que ajude a liberdade a ser verdadeiramente tal, e não um arbítrio cego, e que proteja o fraco da prepotência do mais forte.”
“Superação dos conflitos e desarmamento”: Diante da constatação de “grandes divisões e fortes conflitos”, o Papa conclama “todas as pessoas de boa vontade” para uma mobilização visando “uma eficaz desmilitarização” no mundo e exorta “as Autoridades” para que se chegue ao “desmantelamento progressivo e concordado das armas nucleares existentes.”
2008 será um ano melhor para a humanidade na medida em que cada um construir a paz, em si e na família!

* Dom Genival Saraiva de França é bispo de Palmares (PE) - Ir para o Inicio
 

Fé, fantasia e promessa – Dom Anuar Battisti
segunda: 07 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
Fim de ano traz sentimentos que em nenhuma época do ano se repetem com tanta intensidade. Passando pelo clima natalino que se mistura com as práticas tradicionais da fé cristã e a corrida atrás das compras e presentes marcadas pelo lendário Papai Noel, tudo vai culminar nas festas extravagantes de fim e início de ano novo.
Nestas celebrações, de maneira especial a passagem de ano, se mistura com uma série de fantasias que levam a crer no sucesso, no bem estar, na vida de prosperidade, na realização dos sonhos e cobiças nem sempre fáceis de alcançar. Início de ano é marcado por promessas, por emoções e até práticas de magia, acreditando que a intervenção do sobrenatural acontece na oferta de coisas e de objetos. Quantas flores, velas, comida, frutas, champanhes, fogos aos milhares e outras coisas mais oferecidas à deusa e ao deus dos mares, às forças cósmicas. O mar, os peixes e a areia que o digam; quanto lixo poluindo não só o chão e a água, mas as mentes e os corações, distanciando-os do verdadeiro sentido da vida e da existência humana.
O nosso Deus não aceita coisas, Ele quer pessoas, que buscam em seu coração um lugar seguro e tranqüilo, Ele quer as criaturas feitas à sua imagem e semelhança, Ele quer a vida dos homens e das mulheres criados por amor e para amar, Ele quer o homem e a mulher seres livres e libertos, Ele quer a boa vontade de cada um de nós como co-criadores, com Ele, de um mundo mais justo e solidário, Ele quer filhos e filhas com vida e dignidade.    
O Deus do céu e da terra, dos seres e das criaturas, o Deus dos dias e das estações, dos meses e dos anos não aceita negociar do jeito que queremos,”toma lá que eu te dou cá”, eu faço isso você me dá aquilo”. Com Deus não tem comércio, não se compra e nem se vende. Com  o nosso Deus só existe o dar sem esperar recompensa, o perdoar sempre,  a oferta da face esquerda quando te batem na direita, que o seu orar seja em segredo, que a sua direita não saiba o que faz a esquerda, que o seu falar seja sim quando é sim e não quando é não, que toda a lei e toda a profecia seja marcada pelo amor a Deus e ao próximo.
Os objetivos, metas e desejos, que traçamos no início do ano só será possível se   fizermos a nossa parte e fazê-la bem feito. Deus está conosco ; Ele, o Senhor da Criação e das criaturas. Sinta-se criatura amada pelo criador. Ame sem esperar nada em troca, que tudo dará certo.

* Dom Anuar Battisti é arcebispo de Maringá - Ir para o Inicio

 

Longe do poder político – Dom Anuar Battisti
quinta:10 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br

No domingo passado, celebramos a festa da “Manifestação do Senhor” ao mundo, através dos Reis Magos. Quero partilhar com vocês algumas reflexões a partir deste fato às vezes celebrado de maneira folclórica, através das cantigas de reis ou então pensando somente no fato bonito e atraente da viagem, dos presentes, da estrela e do menino na manjedoura.
Na prática, os magos eram pessoas bem informadas e conhecedoras dos fenômenos cósmicos. Herodes em Jerusalém, lugar das decisões políticas, portanto, centro do poder, sente ameaçado pela noticia do novo Rei e chama os magos para buscar o menino e informá-lo de tudo, porque ele também quer “adorar”. Assim, vemos a cena principal deste drama que é “Jesus contra o Herodes, Belém contra Jerusalém”.
“O verdadeiro rei dos judeus não é o violento (assassino), prepotente e politiqueiro Herodes, centro do poder opressor. O verdadeiro Rei dos judeus é um recém nascido em Belém, cidade do pastor Davi, da periferia de Jerusalém, vai sair o líder alternativo, o chefe-pastor, aquele que vai defender o povo da ganância dos exploradores”.(Vida Pastoral N.258,p.38). Na medida em que os magos se afastam de Jerusalém, do poder opressor, começam a ver a estrela a indicar o caminho. Seguindo a estrela vão ao lugar certo para o encontro com o verdadeiro Rei. Interessante observar um detalhe do evangelho: “Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma grande alegria”(Mt,2,10).
No caminho, os magos perdem a estrela, e voltam a ver de novo. Quantas vezes perdemos de vista a estrela que nos guia, perdemos a estrela da fé que nos ilumina para ver a Luz, que nos faz ver longe e seguir o caminho para o encontro com o verdadeiro Rei. Conseguem ver a luz da estrela enquanto caminham se distanciando do poder político que mata e oprime. Quando formos capazes de nos afastar do mal, da corrupção, da violência, da opressão, a certeza do caminho, a direção acertada da Luz se torna uma realidade e conseguimos ver, oferecer presentes e adorar.
Depois que os magos ofereceram presentes e adoraram, já não voltam pelo mesmo caminho. Depois de encontrarmos o Senhor e oferecer-nos como presente e adorá-lo, já não podemos voltar pelo mesmo caminho. A vida toma outro rumo, tudo se transforma, o pecado e a morte, o ódio e a violência, a guerra e a destruição já não têm lugar no coração humano. Se ainda não conseguimos viver assim é sinal que o Senhor da história e da humanidade ainda continua um solene desconhecido. Ainda estamos procurando encontrar o menino da luz e da paz, o menino da periferia que se fez pão, o menino que não tinha aonde reclinar a cabeça e que se faz caminho, o menino que discutia com os doutores da lei e que é verdade, o menino que ameaçado e morto numa cruz e que se faz  vida para todos. Um encontro de adoração, apenas, é suficiente para mudar de rumo.
Sei em quem eu coloquei a minha esperança, diz o apóstolo Paulo. Eu sei em quem colocar a minha vida e a minha esperança neste novo ano que iniciamos. Eu sei aonde depositar toda a minha confiança neste mundo de desconfiados, eu sei em quem encontrar a luz e a paz neste mundo de trevas e morte, eu sei em quem colocar o meu presente e o meu futuro neste mundo marcado pelo imediatismo estressante. Eu sei escapar da corrupção do poder opressor, é só deixar-se encontrar por Ele.
* Dom Anuar Battisti é arcebispo de Maringá (PR) - Ir para o Inicio

 

Ofereceram presentes a Jesus - Dom Pedro José Conti
segunda: 07 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
Sempre achei os magos simpáticos. Eles conseguem duas façanhas: perturbar Herodes e enganá-lo. Não é todo dia e nem qualquer um que consegue amedrontar os poderosos. Em geral, os grandes se acham os donos do mundo. Somente a eles cabe decidir sobre a vida e a morte das pessoas, sobre o bem e o mal das coisas.
- Como podem, esses estrangeiros, procurar um rei que não seja eu? - deve ter pensado Herodes. - Eu sou o único e o mais forte -. Mas, então, o trono dele começa a vacilar por causa de uma criança recém-nascida. Bem feito.  
Também os magos são pessoas corajosas, perseverantes e pacientes. Todas, virtudes difíceis. Mais fácil ficar acomodados, inventar uma desculpa e, se for o caso, aparecer na última hora. Ninguém merece esperar. Ou é logo, ou não vale a pena.
Para os magos valeu buscar até encontrar, esperar a estrela de novo, não ter medo de Herodes, o mentiroso, e dar uma de espertos. O encontro com o menino Jesus e sua mãe valia todo esforço.
A prova que os magos ficaram radiantes e com o coração transbordante de emoção está na alegria de ter encontrado Aquele que buscavam. Ficaram felizes e O adoraram, diz o Evangelho de Mateus.
Adoramos alguém que merece, mais ainda se acreditamos que devemos adorar, de verdade, somente a Deus. Pratos de comida, atores, atrizes, cantores e cantoras, pessoas mais ou menos famosas e até a nossa família, nós “adoramos”, no sentido de gostarmos, admirarmos, ficarmos encantados e orgulhosos delas, entretanto adorar mesmo, de joelho e tudo, somente a alguém maior do que todos nós; ao qual toda criatura deveria prestar homenagem: o culto que a criatura deve ao Criador, o reconhecimento que o salvo deve ao Salvador. A adoração dos magos é um verdadeiro e grande ato de fé. Eles representam todos aqueles que, desde então, encontraram o que buscavam. Reconhecem o que ainda não conheciam. Mais difícil é a busca, maior é a alegria. Maior foi o esforço, maior ainda é a satisfação de ter alcançado a meta.
Aí os magos nos surpreendem, mais uma vez: oferecem presentes a Jesus. Estão tão felizes de ter encontrado o Senhor que lhe oferecem dons. Um gesto de gratidão.
É nesse ponto que eu fico envergonhado, porque nem sempre sei agradecer pelo dom de crer. Por que muitos não agradecem pelo dom da fé? Parece que receberam uma condenação e não um presente.
Certos pessoas que vão à igreja, só para cumprir uma obrigação, parecem fazer um favor a Deus. Estão convencidas de que é Ele, o bom Deus, quem deveria premiá-las pela paciência de deixar os seus afazeres e deslocar-se até a igreja. O engraçado é que essas mesmas pessoas se recebem um presente ou um favor de alguém declaram, solenemente, que lhe ficarão agradecidas para sempre. Não tem receio de apresentar a todos o benfeitor como o salvador da pátria. Mas se o dom é a fé e se quem oferece é o próprio Deus fica, ou ficamos, achando o dom pouco valioso, que nem vale a pena agradecer e menos ainda falar da generosidade do doador.
Estamos muito longe de chorar de alegria por ter encontrado o Senhor, por tê-lo conhecido. Pode ser verdade, também, que não saibamos agradecer pelo dom da fé, porque, aquele que encontramos, não é o verdadeiro Jesus e sim uma figura dele, uma cópia, uma distorção. Só assim entende-se a não alegria em agradecer.
Se Aquele que encontramos fosse o Jesus verdadeiro, a nossa vida mudaria; todos partilhariam da nossa felicidade de ter encontrado o Senhor. Como um rapaz, ou uma moça, apaixonados: não dá para esconder. Até os olhos deles brilham!
Os magos não se preocuparam e nem esconderam nada; escancararam os seus cofres e provaram com os seus dons o agradecimento dos seus corações. Foi uma festa.

* Dom Pedro José Conti é bispo de Macapá - Ir para o Inicio
 

Epifania e Missão – Dom Orani Tempesta
domingo: 06 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br

Neste tempo de Natal, após a Oitava, temos a possibilidade de refletir sobre o mistério da Encarnação e suas conseqüências: o anúncio que a criança que nascera de Maria Virgem é o Messias esperado, o Filho de Deus, e que cabe a nós aceitá-lo como Senhor e pautar nossas vidas pelos seus ensinamentos.
A festa da Epifania, quando através dos Magos que vieram conduzidos por uma estrela para adorar a criança, o Rei dos Judeus, que tinha nascido, é o cumprimento das profecias de que a Salvação é para todos os povos. Essa universalidade já vinha sendo trabalhada no Antigo Testamento e depois se completou logo no envio que Cristo fez aos seus discípulos: ide pelo mundo inteiro e pregai o evangelho a toda criatura! Mandato que os apóstolos logo começaram também a experimentar quando passaram a pregar não só aos judeus, mas também aos “gentios”. Eles constataram com alegria que os não-judeus, mesmo sem conhecimento prévio das escrituras e das promessas do Messias, aceitavam com entusiasmo a Salvação que Jesus, o Cristo Senhor, trouxera para toda a humanidade.
Essa missão universal foi logo compreendida pela primeira geração de cristãos que saiu pelas cidades e vilas pregando o Evangelho e iniciando as primeiras comunidades que, como fermento no meio da massa, iria pouco a pouco transformando a sociedade. Daí vem a nossa catolicidade ou universalidade: no mandato do Senhor que nos envia a todos os povos em todos os tempos.
O evento e Documento de Aparecida trouxeram isso muito claro quando aprofundaram o significado do discípulo missionário e, principalmente, quando nos convocou para uma grande missão continental: “Procurará colocar a Igreja em estado permanente de missão. Levemos nossos navios mar adentro, com o poderoso sopro do Espírito Santo, sem medo das tormentas, seguros de que Providência de Deus nos proporciona grandes surpresas” (551).
É oportuno que nesta Solenidade da Epifania voltemos nossos olhos para os horizontes que aguardam nossa missão, a começar pelos nossos vizinhos e nossas pequenas comunidades com as quais queremos formar uma rede em nossas paróquias, até os confins dos mares para onde somos enviados.
Refletindo o episódio dos Magos neste final de semana, somos chamados a ser luz no caminho de muitas pessoas, seja pelo exemplo, seja pela palavra que deve nos fazer testemunhar em quem e como nós cremos.
Houve tempo em que algumas teologias, filosofias e antropologias tentaram impedir os católicos de serem missionários com os medos semeados então. A nossa maneira de ser evangelizadores não é fazendo proselitismo como acontece com muitos grupos religiosos hoje, mas, pelo contágio, pelo exemplo, pela vida, pela proposta. A pergunta que sempre retorna é: será que nos salvaremos se nós não evangelizarmos? É nossa missão, dada pelo Cristo no Evangelho, e as pessoas têm o direito de conhecerem a verdade, o Cristo Senhor!
Ainda mais nesse tempo de mudanças culturais e com tantos interesses econômicos de grupos religiosos preocupados com o poder, retomar com entusiasmo a missão evangelizadora é fazer circular novamente a suave brisa da presença de Deus na história e levar as pessoas ao encontro pessoal com Cristo, que transforma nossas vidas e nossa caminhada.
A intuição das “companhias de reis”, muito comum em algumas regiões do Brasil nesta época, em que no dia de Natal saem de suas casas cantando e indo de casa em casa anunciando que nasceu Jesus, até chegar a “festa dos reis”, quando entregam a missão, é um convite para todos nós trabalharmos também nessa direção.
O nosso Plano Arquidiocesano de Pastoral e o nosso Projeto Belém em Missão, que procura colocar em prática uma parte do nosso Plano, está procurando justamente nos levar a essa Missão. Os passos já dados e os que ainda daremos nos próximos meses deverá nos levar ao grande envio de missionários na Festa de Pentecostes deste ano, para estarmos permanentemente em estado de missão, embora necessitemos de alguns momentos de animação e encorajamento para que assim o façamos.
Que esta Solenidade da Epifania do Senhor, dentro das celebrações natalinas, do mistério da Encarnação, nos ilumine para que a Palavra de Deus seja ainda mais anunciada a todos os povos e todos cheguem a Cristo – Caminho, Verdade e Vida!
* Dom Orani João Tempesta é arcebispo de Belém (PA) e presidente da Comissão Episcopal para a Educação, Cultura e Comunicação da CNBB. - Ir para o Inicio

 

Vamos ver o que vai dar - Dom Pedro José Conti
domingo: 13 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br

Um casal se apresentou ao pároco para pedir o batismo do filhinho. O padre os acolheu muito bem e perguntou o nome que dariam à criança. A mulher respondeu que sobre isso eles ainda não tinham chegado a um consenso. Pior, estavam brigando. Ambos queriam colocar o nome do próprio pai. O padre quis ajudar e perguntou à senhora, qual o nome do seu pai?
- Antônio- respondeu ela.
- E o nome do seu? - indagou o padre olhando para o marido.
- Antônio – respondeu ele.
- então, qual é o problema?- sorriu o pároco.
- É que o meu pai – disparou a mulher – foi um homem bom e respeitado, era professor, mas o pai dele foi um cafajeste, que aprontou a vida toda. Eu não queria que meu filho levasse o nome de gente que não presta.
- O padre ficou sem saber o que fazer. Enfim, teve uma idéia e falou:
- Bom, vocês vão chamar a criança de Antônio, depois, quando ela crescer, vocês saberão se pegou o nome do professor ou do cafajeste.
É uma historinha bem conhecida. Cansei de contá-la nos encontros de pais e padrinhos, sobretudo quando os pais aparecem com uns nomes que se é difícil de pronunciar, imaginem como deve ser complicado escrevê-los. Logo a criança ganha um apelido, mais fácil.
Na Bíblia o nome correspondia à vocação. No nome já estava embutida a missão que a pessoa devia cumprir. Hoje fica difícil. Muitos acompanham as modas do momento, outros querem ser tão criativos que acabam inventando nomes sem graça.
Mas o padre da historinha tinha razão. Vamos deixar as crianças crescerem e vamos ver o que vai dar. Qualquer nome serve para fazer o bem e ser uma pessoa honesta, como qualquer nome serve para criar problemas. Assim, também na hora do batismo, pouco adiantaria caprichar no nome, se depois os pais não cuidassem bem da educação da criança. Nome de santo, ou de santa, não garante um bom cristão, ou uma boa cristã. Nome estrambólico também não é sinônimo de bandidagem.
Mais do que brigar sobre o nome, os pais, os avós e toda a família, deveriam discutir o que irão ensinar àquela criança. Deveriam preocupar-se com o exemplo que ela irá receber naquela casa. Hoje não estamos com falta de nomes, estamos com falta de pais que abram às crianças o caminho da bondade e da fé. Muitos pais se esgotam para facilitar a vida aos seus filhos. Arrumam tudo o necessário e até o que não serve, abarrotando a casa de mil coisas. Querem resolver todos os problemas dos filhos para que não sofram.
Assim a criança cresce sem aprender a lutar e a conquistar o que vale a pena: as amizades, o saber, o encantamento da descoberta das próprias capacidades. Em lugar de educar adultos autônomos, educamos seres dependentes e inseguros.
Pior ainda, a criança é batizada, mas ninguém mais a ajuda a entender o seu batismo. Decora orações, mas não sabe por que e a quem reza. Deve obedecer direitinho, imaginando Deus mais  como uma telecâmera escondida, que filma tudo, do que como um pai amoroso e exigente, conhecedor da potencialidade de amor de cada um.
Para Jesus, na beira do Rio Jordão, o Pai declarou: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”. A cada criança que nasce Deus Pai também declara que é um filho amado. Naquele Filho o Pai colocou o seu agrado para fazer saber que, para Ele, não existe nenhum filho mal-amado. Aprender a sermos irmãos entre nós é o mínimo que podemos fazer para corresponder a esse amor. É que muitos ainda não sabem disso. Outros esqueceram. Outros jogaram fora o seu batismo. Os batizados mais adultos deveriam ajudar os batizados mais crianças a tomar consciência do agrado divino, a agradecer por esse amor, a viver e a transmitir tamanha alegria. Cristãos adultos e crianças, não pela idade, mas pela fé e o compromisso.  Se o queremos, nunca é tarde para crescer.

* Dom Pedro Conti é bispo de Macapá (AP) - Ir para o Inicio
 

Por que batizar? - Dom Geraldo M. Agnelo
quarta: 16 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br

 

Neste domingo dia 13 de janeiro, a Liturgia propõe a Festa do Batismo do Senhor. Por que Jesus se fez batizar no Rio Jordão? Por que os cristãos são batizados?
     Todo sacramento é um sinal. Os sinais, exteriormente, são percebidos pelos sentidos. A coisa significada só pode ser compreendida pela fé.
João Batista prega a vinda de Cristo e anuncia ao mesmo tempo a sua superioridade. Mas aquele a quem João não é digno de desatar as correias das sandálias submete-se ao batismo do Batista. Jesus quer fazer parte do movimento de renovação suscitado pelo Batista, quer ser solidário com os pecadores necessitados de conversão.
O batismo de Jesus, gesto de submissão e de condivisão, é já a expectativa do batismo de fogo ao qual o Filho se dirige, conforme Lucas 12,50. Isso compreende e antecipa todo o caminho de Jesus. E, juntamente, o de cada homem.
O batismo do cristão é imersão no Cristo. Jesus de Nazaré morto e ressuscitado pelo Pai, é condivisão da sua vida conosco. Dividida entre o Pai e os irmãos, em tensão contínua para o outro, que se traduz em serviço aos outros, em constante união com a fonte, capaz de saciar a sede da terra árida que é o coração de todo homem.
Ser batizado é receber o dom da fé, isto é reconhecer em Jesus o Filho de Deus. Reconhecer nele aquele no qual o Pai se compraz, a vida eterna que tem junto do Pai e que nos foi comunicada.
Jesus recebe o batismo para cumprir toda a justiça. O fato de João batizar com um batismo de remissão dos pecados, enquanto Jesus, sendo Filho de Deus, não é pecador, explica-se porque convém que assim se cumpra toda a justiça. Em Mateus a “justiça” é sempre a conformidade com a vontade de Deus. No batismo de Jesus, seja Jesus, seja João, obedecem à vontade do Pai. João deve ainda uma vez batizar para que Jesus receba a investidura do “Servo”. Por isso Jesus invocará o seu batismo quando lhe perguntarem de onde lhe vem a sua autoridade, cf. Mateus 21,23. De sua parte, Jesus inicia o seu ministério de Servo fazendo-se solidário com os pecadores. Somente assim poderão ser salvos. É essa mesma justiça expressa em termos de “necessidade” que determinará o caminho da cruz de Cristo (cf. Mateus 16, 21).
O batismo é o sacramento de nossa união com Cristo. Como ensina São Paulo, o cristão foi batizado em Cristo Jesus. Mediante este sacramento, o cristão está morto com Cristo, foi sepultado juntamente com ele; viverá definitivamente com ele (cf. Romanos 6, 3-11; Colossenses 2, 12-13).
No batismo, o fiel se une à sua cabeça, o Salvador, e a ele liga o próprio destino para atingir com ele à salvação. No que foi batizado renova-se o evento salvífico de Cristo, em particular a sua morte redentora e a sua ressurreição.
São Paulo exprime esta realidade com expressões muito vivas: os fiéis, escrevendo aos Romanos, “foram batizados na morte de Cristo” (6,3); “o homem velho” foi crucificado com Cristo, a fim de que “fosse anulado o corpo do pecado” (6,6). Ao mesmo tempo explica: O batismo assinala o início da “vida nova” (6,4): “Fostes sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados” (Colossenses 2,12). O cristão torna-se em Cristo uma nova criatura: uma realidade nova vive e cresce nele. Revestido de seu Senhor (Gálatas 3,27), ele vive em Cristo e Cristo nele.
O cristão adquire vida nova seja no Cristo, seja no Espírito Santo. Um e outro determinam a sua vida, pois ambos são enviados por Deus, como testemunhas do seu amor e protagonistas da obra da salvação.
Como Jesus no seu batismo, assim todos os batizados receberam o dom do Espírito, que fez deles um só corpo. Unido assim a Cristo e vivendo da vida do seu Espírito, o cristão é agregado ao corpo mesmo de Cristo, que é a Igreja. O batismo incorporando os fiéis a Cristo, constitui a comunidade animada pelo Espírito.
A festa de hoje nos leva a meditar sobre o significado do batismo, o de Cristo e o do cristão. É ocasião para renovar o nosso empenho missionário porque a Epifania do Senhor, a sua manifestação ao mundo, deve continuar no tempo, e outros seres humanos devem encontrar Cristo, respondendo livremente à sua chamada.
Como João Batista, devemos atestar ao mundo: “Eu o vi e dou testemunho que ele é o eleito de Deus” (João 1,34).

* Cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo é arcebispo de São Salvador da Bahia e ex-presidente da CNBB - Ir para o Inicio
 
Salvos pela água
.Uma das experiências mais marcantes de minha vida foi viver no interior da floresta amazônica, aos meus 28 anos de idade. À margem do grandioso rio Solimões, oferecia primícias de meu Ministério Ordenado, no grau de presbítero, a centenas de pequenas comunidades ora de indígenas, ora de descendentes ou mestiços, ao longo de 700 km. de um afluente chamado Jutaí. .              
Numa área de 69.857 Km2, uma população de pouco mais de vinte mil habitantes, distribuída em pequenos aldeamentos, aguardava a presença missionária para celebrar a fé, ouvir a Palavra de Deus, receber auxílio para a organização comunitária e vários cuidados humanitários para a saúde, a instrução, a moradia, a puericultura, a valorização de seus trabalhos de subsistência para a vida. Além de sua gente de alma encantadora, o que mais impressiona na região é a profusão das águas.
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Entre árvores gigantescas e vegetação densa corre enorme o Solimões de águas barrentas com extensões oceânicas de, às vezes, dezenas de quilômetros de largura. Singram-se estas águas com pequenas canoas, barcos médios ou embarcações grandes, verdadeiros navios. Além das águas do canal principal, e as que vêm dos afluentes, de coloração escura, sente-se a força e a vitalidade do precioso líquido com a intensidade da precipitação atmosférica praticamente diária. Sentir as chuvas sobre o dorso, numa temperatura de 29 graus em média, era tão agradável que se dispensavam guarda-chuvas, mesmo porque, após minutos, as roupas já estavam secas no corpo. De tal forma convive-se ali com a água, mais que em qualquer outro lugar do planeta, que se pode afirmar que, na região, a água literalmente comanda a vida.  
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Pude entender, no Alto-Solimões, a profundidade e o sentido exato do batismo cristão. Ao reler tantas vezes os relatos a respeito do batismo de Cristo e da pregação de João Batista ao lado do rio Jordão, fato narrado pelos quatro evangelistas, não há como deixar de associá-lo às lições daquelas águas amazonenses. Deus criou todas as coisas - está no livro do Gênesis - e das águas fez gerar a vida. Fez os peixes para povoar os rios e os mares, fez os animais, o homem e a mulher para das águas tirarem de variadas formas sua subsistência. Das águas dependem as árvores, as flores e as frutas. 
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Ao rever as fotografias do nascer-do-sol que como rei de luz surgia das águas amazonenses, iluminando-as por inteiro no silêncio das manhãs, quando se ouvia nada mais que o sinal dos remos e o manso movimento do barco sobre o rio... ou quando, ao entardecer, se contemplava o repouso do dia que mergulhava nas águas seus últimos raios luminosos... não há como não pensar na luz divina, princípio de toda a vida. 
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No Amazonas não se come as mesmas comidas do restante do Brasil. Ali, ao chegar o meio-dia, põe-se num prato fundo, numa cuia, ou algo parecido, um caldo de peixe, acrescenta-se-lhe farinha de mandioca a gosto, e come-se os pescados da hora, assados ou cozidos, ou às vezes carne de alguma caça, tartaruga ou tracajá, muita fruta silvestre ou fruto de agricultura rudimentar, às quais quase não se precisava regar, pois os céus generosos se encarregavam disto quase todos os dias. 
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O batismo cristão abre as portas para os demais sacramentos, dos quais o principal é a Eucaristia, alimento para a saúde espiritual, sujeitos que somos às investidas do mal. Há uma íntima ligação entre o batismo e os demais sacramentos, assim como tudo na vida humana, de uma maneira ou outra, acaba dependendo da água. 
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Os sacramentos da Igreja nasceram do lado aberto de Cristo na cruz, de onde - informam os evangelistas - saíram sangue e água. A água, com a qual fomos lavados da antiga culpa, é o batismo que purifica e introduz no caminho da santidade; o sangue, qual pelicano que alimenta seus filhotes, é a Eucaristia, Corpo e Sangue do Senhor, que sacia e fortifica no caminho para a tenda definitiva da eternidade, onde Deus nos espera, salvos pela água santificadora do batismo que, como as águas amazonenses, comanda a vida.
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Dom Gil Antônio Moreira - Bispo de Jundiaí-SP – janeiro de 2008 - Ir para o Inicio
 

Ouvidos de discípulo - Dom Walmor Oliveira
domingo: 13 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
A profecia de Isaías focaliza uma perspectiva importante para que o povo reencontre o caminho de sua libertação, resgatando a ordem social e política e recompondo o tecido de sua moralidade. Esta profecia ecoou num tempo de grandes dificuldades. Fácil é perceber o quanto a soberba tinha sido o veneno que levara ao fracasso a vida de um povo. A soberba orgulhosa que destrói tudo, mesmo em meio a progressos e avanços. Um fracasso incontestável corroendo o que a inteligência humana conquistava. Este fracasso não poderia jamais ser debelado apenas com mais progressos e conquistas. As conquistas e progressos eram sempre menores que a avalanche destruidora da soberba orgulhosa. Aquela soberba orgulhosa que está no coração humano em todos os tempos e que provoca os mesmo efeitos daninhos e destruidores no caminho da sociedade, obscurecendo o verdadeiro horizonte e incapacitando para a percepção do que conta de verdade.
Esta soberba orgulhosa derruba poderosos e governantes, esvazia o sentido da vida de muitos, confunde o verdadeiro sentido das coisas, e é perversa com a sorte de todos, particularmente dos mais pobres e sofredores. No centro de toda esta confusão que se repete, de geração em geração, como agora neste tempo do terceiro milênio, com as sofisticações próprias e perversas de sua soberba orgulhosa, ecoa esta profecia indicando o caminho e a experiência para desmontar este mecanismo destruidor. Um mecanismo destruidor que brota, cresce e dá fruto em qualquer coração sem que se faça muito esforço e sem que se perceba. Não é raro encontrar quem se pensa humilde e simples, próximo, encharcado de orgulho e soberba por fazer conta de algum feito próprio e de se considerar como ícone de alguma coisa e referência em alguma realidade. Esta é a vala que está enterrando a humanidade em contraponto com suas conquistas e avanços pela perda de um sentido mais profundo, ancorada que está na ilusão do poder e do dinheiro, do mando e dos avanços tecnológicos.
A indicação da profecia de Isaías parece simples. Tão simples que pode facilmente ser desconsiderada por parte de quem detém poderes, o domínio intelectual, a segurança das posses e o estar cheio de si mesmo. A profecia diz: “Toda manhã o Senhor desperta meus ouvidos para que, como bom discípulo, eu preste atenção. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos” (Is 50,4-5).
O Documento de Aparecida, fruto da V Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe, maio de 2007, focaliza esta experiência de discipulado como central e insubstituível, mostrando a aposta que a Igreja Católica faz, dando continuidade e, ao mesmo tempo recapitulando seu caminho de fidelidade e o sentido do seu serviço evangelizador para ajudar a humanidade contemporânea a reencontrar o seu caminho. Este serviço evangelizador é para fazer de todos discípulos e discípulas, qualificando os que pertencem e professam a fé como membros da Igreja, e para ofertar à humanidade inteira a possibilidade desta experiência. Esta experiência é de escuta. Escutar não é tão fácil. Não é fácil porque se fala muito, a respeito de tudo. O tempo todo tudo está preenchido por muitas falas. A superficialidade medra em tantas falas. Uma superficialidade que nasce, apesar de tanto para ser ouvido, particularmente quando se trata das dores e sofrimentos dos outros, especialmente os mais pobres, porque não se sabe ouvir.
Pensando o Evangelho de Jesus Cristo, o conjunto dos seus verdadeiros discípulos, no centro está, incontestavelmente, Maria, a Mãe de Jesus, perfeita discípula e pedagoga da evangelização. É perfeita discípula porque escuta. Escuta o seu Deus e diz o seu sim que se transforma, para além de qualquer interesse, em serviço à vida, aos outros. Só a capacidade de escutar se contrapõe diametralmente, e com força de vitória, à soberba do mundo contemporâneo, das instituições todas, mesmo as religiosas. Só o exercício do discipulado como escuta pode capacitar a inteligência humana a ultrapassar os limites da racionalidade e ordená-la na direção dos valores que respeitam a vida e compreendem o seu verdadeiro sentido, e a dinâmica mística de sua conquista definitiva.
A conquista definitiva da vida, e da vida definitiva, tem um caminho. É preciso admitir com humildade. Do contrário, corre-se o risco de continuar vendo o cenário em que a vida vai desabando mesmo no afã de sua construção. Este caminho tem um nome, é uma pessoa, Cristo Jesus. Ele é a pérola preciosa (Mt 13,45-46), um tesouro incalculável. É uma pessoa. Supõe o cultivo de um relacionamento comunitário, pessoal e íntimo. É preciso recomeçar sempre, cada dia, a partir de Cristo, pois Ele, como diz o Papa Bento XVI na sua Carta Encíclica ‘Deus é amor’, é quem “dá um horizonte novo à vida e, com isso, uma orientação decisiva”.

* Dom Walmor Oliveira de Azevedo é arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da CNBB

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A esperança, a última que... não morre! - Dom Redovino Rizzardo
sexta: 28 de dezembro de 2007 – www.cnbb.org.br
Normalmente, a cada passagem de ano, somos levados a depositar nas festas que o acompanham – Natal, Ano Novo e Epifania – todas as nossas expectativas, como se elas trouxessem, por si sós, esperança, renovação e vida nova.
Mas, para que não se transforme em desilusão, a esperança precisa de bases sólidas, que ultrapassam de longe os desmandos éticos e morais a que não poucos se entregam nesse período, para não perderem um instante sequer do novo ano que se inicia. Na prática, essas pessoas são levadas pelos mesmos critérios que norteava seus antepassados, os pagãos do tempo de São Paulo, que repetiam uns para os outros: «Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos!» (1Cor 15, 32).
Mas, quem transformou a experiência em sabedoria, sabe que as coisas não são bem assim. Pelo contrário, ao longo do ano vai-se colhendo o que se plantou no início de janeiro, como explicava o mesmo Apóstolo: «Não vos iludais: de Deus não se zomba. O que o homem semeia, isso mesmo colherá. Quem semeia no instinto, do instinto colherá a corrupção; quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna» (Gl 6, 7-8).
A verdadeira e única esperança que nunca decepciona não se constrói no pecado. Aliás, nem mesmo nos bens materiais e culturais, que só têm sentido se acompanhados pelos valores éticos e morais. Se alguém consegue ser feliz sem grande parte dos primeiros, sem os segundos, porém, terá a vida transformada num inferno.
É esta também a “verdade” de Bento XVI expressa em sua nova encíclica, publicada no dia 30 de novembro, sob o título: “Salvos pela esperança”: a sociedade não se salvará nem pelo progresso, nem pela ciência, nem pelas revoluções políticas, mas pela esperança radicada na fé e encarnada no amor.
Pela autoridade que lhe vem de “perito em humanidade”, o Papa constata o fracasso da esperança na instauração de um mundo perfeito, fundamentado em ideologias atéias e materialistas, e a ambigüidade do progresso, capaz de gerar imensas possibilidades para o bem, mas, ao mesmo tempo, para o mal.
Para o Papa, a fragilidade do homem impede que o reino do bem se consolide plenamente neste mundo. Ele só será definitivo e autêntico no Paraíso, que não é só a realização das aspirações mais profundas da humanidade, mas também a meta que norteia a quantos se empenham na construção do projeto de Deus na sociedade.
Uma das intuições mais belas da encíclica é revelar que a esperança não é apenas uma virtude, mas uma Pessoa: o Cristo, que é Ressuscitado justamente por ter assumido e superado a dor, o pecado e a morte: «No mundo, passareis por muitas tribulações. Mas, coragem, eu venci o mundo!» (Jo 16, 33).
Em seu escrito, Bento XVI não teme afirmar que, quando se exclui Deus, a esperança se torna perversa, criando um mundo de ilusões, o campo mais fértil para a revolta, a depressão e uma espécie de suicídio coletivo. Tende-se, então, a buscar a salvação no dinheiro, na cultura, no progresso, na economia ou na política. Mas, lembra o Papa, «não é a ciência que redime o homem. Ele só se salva pelo amor, um amor incondicionado».
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresentou ao povo brasileiro o documento pontifício com estas palavras: «Temos certeza de que estes ensinamentos do Santo Padre, que acolhemos com alegria, se constituirão em novo alento para nosso povo, para nossas comunidades e para a toda a humanidade tão necessitada da “grande esperança” que dá sentido à vida e força para vencer as dificuldades do dia a dia.  Queremos ser, cada vez mais, pessoas de esperança!».
Duas semanas mais tarde, no dia 14 de dezembro, num encontro que manteve com estudantes universitários de Roma, Bento XVI retomou alguns pontos enfatizados pela encíclica:
«As duas grandes idéias-força da modernidade, a razão e a liberdade, parece que se desgarraram de Deus e buscaram sua autonomia, cooperando, assim, para a construção do “reino do homem”, em oposição ao Reino de Deus. Prevaleceu uma concepção materialista, alimentada pela esperança de que, mudando as estruturas econômicas e políticas, surja uma sociedade justa, onde reinem a paz, a liberdade e a igualdade. Contudo, o progresso tecnológico não coincide necessariamente com o crescimento moral das pessoas. Sem princípios éticos, a ciência, a tecnologia e a política podem ser utilizadas, como aconteceu e como infelizmente continua acontecendo, não para o bem, mas para o mal das pessoas e da humanidade».
A esperança é a última... que não morre, porque a história é conduzida por um Pai, cuja tarefa principal é fazer com que tudo – até mesmo o pecado e a maldade humana –  concorra para o bem dos que acreditam no amor e o escolhem como ideal de vida (Cf. Rm 8, 28).  

* Dom Redovino Rizzardo, cs, é bispo de Dourados (MS) - Ir para o Inicio
 
"Salvos na Esperança" – Dom Eduardo Benes
Sexta: 11 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br
 
Falar de Natal é tocar no coração da fé cristã. Deus entrou em nossa história para salvá-la. Falar de história é falar de esperança. O Santo Padre, Bento XVI, acaba de nos brindar com uma linda encíclica - Spe salvi - que tem como tema a esperança cristã. O título é citação da Epístola aos Romanos, 8,24: "salvos na esperança".  "A redenção, pois, nos é oferecida porque nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique o cansaço do caminho"(n.1). Isto porque, ensina-nos a Epístola aos Hebreus, "a fé é a substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se vêem" (11,1).
A Bíblia de Jerusalém assim traduziu o texto em questão: "A fé é um modo de já possuir o que se espera um meio de conhecer as realidades que não se vêem". É o mesmo que nos ensina a I Epístola de São João: "desde já somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como ele é"(3,2). ). Se já não tivéssemos sido tocados pela meta, se não morasse em nós seu mistério, não caminharíamos. "E precisamente porque a coisa em si já está presente, esta presença daquilo que há de vir cria também certeza: esta « coisa » que deve vir ainda não é visível no mundo externo (não « aparece »), mas pelo fato de a trazermos, como realidade incoativa e dinâmica dentro de nós, surge já agora uma certa percepção dela"(n. 7). Que coisa é esta que deve vir e que de algum modo já se faz presente em nós? Responde a fé cristã: é a Vida Eterna. O que esperamos é a Vida de comunhão plena com Deus, com o Pai e com o Filho no Espírito Santo.
Como é bom começar o ano iluminados pela esperança!  Essa esperança nos sustenta no caminho. Não há fracasso humano ou insucesso histórico que possa destruí-la. Mesmo que os acontecimentos não saiam como programamos, continuamos o caminho, pois sabemos que a meta existe e é real. A esperança cristã não nos retira da história, pelo contrário, dá-nos um motivo consistente, para continuar a trabalhar pela justiça e pela paz no mundo, pois estamos lançando as sementes do mundo que há de vir e no qual se dará a plenitude da Vida. Depois de uma longa reflexão sobre a natureza da esperança cristã e sobre sua relação com a modernidade, o Santo Padre fala sobre os "Lugares de aprendizagem da esperança". São eles: 1. A oração como escola da esperança; 2. Agir e sofrer como lugares de aprendizagem da esperança; 3. O juízo como lugar de aprendizagem e de exercício da esperança.
No curto espaço desse artigo não dá para desenvolver toda a riqueza do ensinamento do Santo Padre. Mas é suficiente para despertar o desejo de ler e meditar a riqueza de suas reflexões. Estamos começando um novo ano. Coloquemos nossas esperanças humanas - nossos projetos - no horizonte da grande esperança cristã e seremos felizes porque, mesmo no meio das maiores dificuldades, não seremos devorados pelo desânimo. Continuaremos o caminho, porque caminho é assim mesmo, ora suave ora cheio de obstáculos. Ouçamos o Santo Padre: "eu posso sempre continuar a esperar, ainda que, em razão de minha situação de vida ou em razão do momento histórico que estou a viver, aparentemente não tenha mais qualquer motivo para esperar. Só a grande esperança-certeza de que, não obstante todos os fracassos, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto estão conservadas no poder indestrutível do Amor e, graças a isso e por isso, possuem sentido e importância, só tal esperança pode, nessas circunstâncias, dar ainda a coragem de agir e de continuar" (n. 35).
Finalizo com o trecho em que o Santo Padre, referindo-se ao pensador Adorno, da escola de Franckfurt, põe em relevo a importância da verdade cristã sobre a ressurreição final e sobre o Juízo Universal. Assim reflete o papa: "mas ele - Adorno - sempre sublinhou esta dialética « negativa », afirmando que a justiça, uma verdadeira justiça, requereria um mundo « onde não só fosse anulado o sofrimento presente, mas também revogado o que passou irrevogavelmente. » Isto, porém, significaria - expresso em símbolos positivos e, portanto, para ele inadequados - que não pode haver justiça sem ressurreição dos mortos e, concretamente, sem sua ressurreição corporal. Todavia tal perspectiva comportaria « a ressurreição da carne, um dado que para o idealismo, para o reino do espírito absoluto, é totalmente estranho »(n. 42). Sem Juízo Final e sem Ressurreição, a justiça e a verdade jamais serão restabelecidas. A história humana terá sido uma tragédia. * Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues é arcebispo de Sorocaba (SP) - Ir para o Inicio
 

Discipulado e maestria – Dom Walmor Oliveira
segunda: 07 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br

A V Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe, realizada de 13 a 31 de maio de 2007, no Santuário Nacional dedicado a Nossa Senhora Aparecida, deixou um legado precioso. É o Documento de Aparecida. É o anseio da Igreja Católica iluminada por sua consciência missionária e sua convicção de estar no mundo a serviço. Um serviço que focaliza a centralidade da vida, sua promoção e sua defesa. Este anseio de servir melhor tem como meta dar à configuração institucional da Igreja uma feição nova, configurada mais autenticamente ao Evangelho do seu Senhor, de quem recebeu a missão e envio, quando ele disse aos seus onze discípulos: “Foi-me dada toda autoridade no céu e na terra. Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,16-20).
Este anseio de uma configuração institucional mais missionária para a Igreja, sublinha o Documento de Aparecida, visa, de modo especial, a qualificação da vivência da fé de todos os discípulos e discípulas de Cristo Jesus. Esta vivência qualificada da fé supõe uma revisão séria de tradições vividas, de hábitos adotados, de modificações de hábitos culturais, muitas vezes contrários aos valores do Evangelho. Este é um questionamento que precisa ser assimilado por todos os cristãos. Um questionamento que supõe aceitar um processo de passar a limpo o próprio coração, atingindo a própria conduta.
Assim, superando o simples estar na Igreja, com uma pertença pouca qualificada em gestos comprometidos de fraternidade e solidariedade. Ainda pensando a vida da Igreja, este processo de qualificação afrontará o gravíssimo problema do déficit de fé que assola a vida moderna e permeia também as instituições religiosas. Este déficit de fé se comprova em muitas circunstâncias e de muitos modos. Por exemplo, a presença e uso dos instituídos que configuram a instituição em benefício próprio, sem aquele amor que encharca todo aquele que vive uma inserção profunda e diária no mistério de Deus. Este déficit de fé também se revela na medida em que se pensa o institucional da Igreja na mesma compleição sociológica de outras instituições, obscurecendo o sentido da experiência do mistério do amor de Deus. Em conseqüência, aparece o comprometimento da vivência da fé de modo profundo, uma confusão do seu sentido e a vivência descomprometida em relação aos valores do Evangelho.
O horizonte do Documento de Aparecida indica procedimentos para tocar profundamente esta configuração da Igreja, a vivência da pertença a ela e esta imprescindível qualificação da vivência autêntica da fé. Esta vivência autêntica da fé, na condição de discípulo e discípula de Cristo Jesus, aponta o Documento de Aparecida, tem que se tornar um serviço da Igreja ao mundo, à sociedade contemporânea, tocando sua compreensão para abrir caminhos de maior solidariedade e vivência mais efetiva da fraternidade universal. A missão permanente que a Igreja Católica assume na América Latina e no Caribe, compromisso desta V Conferência Geral, não é uma disputa numérica, em termos de membros, no cenário religioso plural contemporâneo. Esta será uma conseqüência natural. O coração humano, embora em meio a turbulências e sombras, está à procura do que é autêntico e sincero; verdadeiro e bom.
Esta é uma convicção prévia de que aí está o bem, no que é duradouro. Assim, os compromissos do Documento de Aparecida apontam para uma qualificação da vivência da fé pela dinâmica do discipulado, oferecendo um serviço qualificado ao mundo contemporâneo para ajudá-lo a sair de impasses graves na ordem social e política, humanitária e relacional. Estas metas precisam ser atingidas. Atingi-las satisfatoriamente significa repensar a vida e definir suas dinâmicas num sério confronto entre o que significa discipulado e maestria. A condição de mestre seduz muito. Uma sedução que muitas vezes gera prepotências e arbitrariedades, segregações e acirramento das exclusões. Há, pois, um caminho mais eficaz e duradouro para a maestria que o mundo precisa, dando ordem e direções mais humanas e evangélicas ao seu destino. Esta maestria se conquista pela condição do ser discípulo. Não é tão simples assumir esta condição. O orgulho e a vaidade nos corações pervertem de maneira brutal.
O discipulado é uma experiência. Uma experiência que inclui percursos próprios. Estes percursos supõem exercícios quotidianos. Estes exercícios diários podem modular o coração de maneira nova. Vale a pena conhecer para experimentar a proposta de ser discípulo e discípula de Cristo Jesus. Uma aposta que dará bons resultados. Uma aposta que começa na capacidade de assumir-se como discípulo, em tudo, e não mestre. É um percurso educativo para amar mais e de modo verdadeiro. religião por diversos motivos. Jesus lembra que a verdade nos libertará. A posição absolutizadora da ciência, que exclui a religião e a fé sobrenatural como caminhos de verdade e de sentido de vida, não poderia descartar a verdade. Esta não se fecha nem se restringe à constatação de um valor com os instrumentos puramente racionais e experimentáveis. A verdade é muito mais abrangente do que a ciência. Deus não se limita ao enquadramento da ciência, que é tipicamente humana e, portanto, limitada.
Os dados da fé e da revelação sobrenatural também não se limitam pelo puramente emocional ou vantajoso em relação às conveniências humanas transitórias. A pura cura física, psíquica, moral ou espiritual está aquém da plena realização humana. Muitos, de fato, seguiam a Jesus por interesse nessas dimensões. Ele foi muito além. Demonstrou a necessidade de até se perder algo bom, mas transitório, para uma opção fundamental de realização plena da pessoa com Deus aqui e na eternidade. Não fosse em vista do Reino definitivo, ou no eterno com o Criador, o ser humano se desesperaria, mesmo com toda a ciência plenamente desenvolvida. Aliás, não é possível ao humano eternizar sua vida feliz na terra. A ciência não faz isso, embora seja muito importante para ajudar o ser humano.
A fé sobrenatural, que leva a pessoa humana a reconhecer e aceitar Deus como o Amor absoluto e a razão de ser de todo o existente, pautando a própria vida por suas coordenadas, não é fruto de pura vontade humana. É dom do Criador. Mas precisa ser cultivada com humildade e desenvolvimento dos próprios carismas ou pendores, colocando-os a serviço do semelhante. Corresponde-se, assim, ao desejo de Deus, com a promoção do bem e da justiça para todos. O progresso humano deve beneficiar a todos e não só a minorias privilegiadas.
Quem tem fé se une aos seus pares, em suas religiões seguidas com reta intenção, sendo "luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra" (Is 49, 6). Nossas comunidades e pessoas religiosas são chamadas a viver na própria identidade, mas com abertura aos valores das outras, para ajudarem a implantar mais justiça e fraternidade no convívio humano. As pessoas não religiosas têm seus próprios dons a serem também desenvolvidos para servirem à causa humana. Um grande desserviço seria um querer destruir os valores dos outros. Dessa forma, as pessoas se tornam desumanas, mesmo com o título de religiosas ou não.
A base de sustentação da revelação de Deus aceita pela fé é percebida pelo profundamente humano que ela propõe. Nesse sentido, devemos unir forças para que o humano seja respeitado em sua vida e dignidade. A verdade nos leva a perceber que somos seres contingentes ou limitados, relacionados com quem nos deu a existência e nos convida a realizarmos plenamente o potencial por ele oferecido. Somente nos realizamos com a relação de total sintonia com ele.
Todos são convidados a fazer este percurso neste encontro semanal.* Dom Walmor Oliveira de Azevedo é arcebispo de Belo Horizonte (MG)

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Salvação para todos – Dom José Alberto Moura.
Sexta: 11 de janeiro de 2008 – www.cnbb.org.br

   Na realidade de múltiplas propostas religiosas e de todos os setores de atividades humanas, muitas vezes nos deparamos com a dificuldade de escolha. Nem sempre o mais atrativo sensorialmente se torna de mais valia para a pessoa fazer opção. Até no aspecto puramente religioso isso acontece. Aparecem as opções agnóstica, ateísta e até de fé sem religião por diversos motivos. Jesus lembra que a verdade nos libertará. A posição absolutizadora da ciência, que exclui a religião e a fé sobrenatural como caminhos de verdade e de sentido de vida, não poderia descartar a verdade. Esta não se fecha nem se restringe à constatação de um valor com os instrumentos puramente racionais e experimentáveis. A verdade é muito mais abrangente do que a ciência. Deus não se limita ao enquadramento da ciência, que é tipicamente humana e, portanto, limitada.
Os dados da fé e da revelação sobrenatural também não se limitam pelo puramente emocional ou vantajoso em relação às conveniências humanas transitórias. A pura cura física, psíquica, moral ou espiritual está aquém da plena realização humana. Muitos, de fato, seguiam a Jesus por interesse nessas dimensões. Ele foi muito além. Demonstrou a necessidade de até se perder algo bom, mas transitório, para uma opção fundamental de realização plena da pessoa com Deus aqui e na eternidade. Não fosse em vista do Reino definitivo, ou no eterno com o Criador, o ser humano se desesperaria, mesmo com toda a ciência plenamente desenvolvida. Aliás, não é possível ao humano eternizar sua vida feliz na terra. A ciência não faz isso, embora seja muito importante para ajudar o ser humano.
A fé sobrenatural, que leva a pessoa humana a reconhecer e aceitar Deus como o Amor absoluto e a razão de ser de todo o existente, pautando a própria vida por suas coordenadas, não é fruto de pura vontade humana. É dom do Criador. Mas precisa ser cultivada com humildade e desenvolvimento dos próprios carismas ou pendores, colocando-os a serviço do semelhante. Corresponde-se, assim, ao desejo de Deus, com a promoção do bem e da justiça para todos. O progresso humano deve beneficiar a todos e não só a minorias privilegiadas.
Quem tem fé se une aos seus pares, em suas religiões seguidas com reta intenção, sendo "luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra" (Is 49, 6). Nossas comunidades e pessoas religiosas são chamadas a viver na própria identidade, mas com abertura aos valores das outras, para ajudarem a implantar mais justiça e fraternidade no convívio humano. As pessoas não religiosas têm seus próprios dons a serem também desenvolvidos para servirem à causa humana. Um grande desserviço seria um querer destruir os valores dos outros. Dessa forma, as pessoas se tornam desumanas, mesmo com o título de religiosas ou não.
A base de sustentação da revelação de Deus aceita pela fé é percebida pelo profundamente humano que ela propõe. Nesse sentido, devemos unir forças para que o humano seja respeitado em sua vida e dignidade. A verdade nos leva a perceber que somos seres contingentes ou limitados, relacionados com quem nos deu a existência e nos convida a realizarmos plenamente o potencial por ele oferecido. Somente nos realizamos com a relação de total sintonia com ele.

* Dom José Alberto Moura, 64, é arcebispo de Montes Claros (MG) e presidente da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CNBB - Ir para o Inicio
       
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Feito Por Luiz Ribeiro - luiz_ribeiro_aj@yahoo.com.br
Pagina Atualizada em 28-Jan-2008 16:44